Charles Taylor: biografia intelectual, obra e legado

Charles Taylor (Montreal, 1931–) é o filósofo contemporâneo que levou mais longe uma tarefa específica: pensar o liberalismo por dentro, sem endossá-lo por inércia nem rejeitá-lo por ressentimento. Canadense bilíngue, católico praticante, hegeliano de formação, ex-militante do partido socialista federal, orientando de Isaiah Berlin em Oxford e amigo de habermas por meio século, Taylor escreveu um punhado de livros que, somados, compõem a mais ambiciosa arqueologia do self moderno que temos em língua inglesa — Sources of the Self (1989), The Ethics of Authenticity (1991), Modern Social Imaginaries (2004) e A Secular Age (2007). A tese transversal é sempre a mesma, em roupagens diferentes: o indivíduo moderno não é um dado da natureza, mas um artefato cultural sustentado por fundos simbólicos que o próprio indivíduo, ocupado em ser livre, tende a não perceber e a não reabastecer.

Para este vault, Taylor importa por razões que o livro em curso sobre a Nova República torna urgentes. A tese central — “o regime que mais fez pelo brasileiro e menos fez com o brasileiro” — é, em linguagem tayloriana, um diagnóstico sobre imaginário social: a Nova República universalizou direitos, rendas e consumo, mas dissolveu o fundo tácito pelo qual os brasileiros se imaginavam coexistindo como povo. Taylor fornece o vocabulário teórico que estava faltando. Fornece também a prova, em escala civilizacional, de que essa espécie de exaustão simbólica não é patologia brasileira: é um risco estrutural do liberalismo maduro em qualquer lugar. Fornece, por fim, uma resposta — não regressiva, não tribal — para a pergunta mais difícil que o livro terá de enfrentar: como um liberal pode defender pertencimento coletivo sem virar comunitarista nostálgico nem identitário reativo. Taylor é o modelo exato dessa operação.

Os quatro livros centrais são Sources of the Self (1989), que reconstrói a genealogia do individualismo moderno como sequência de fontes morais (Agostinho, Descartes, puritanismo, romantismo) e argumenta que toda moral vive de afetos e narrativas que a suportam; Modern Social Imaginaries (2004), onde o conceito de social imaginary — o pano de fundo tácito de práticas compartilhadas pelo qual uma sociedade se imagina coexistindo — fornece vocabulário preciso para pensar como imaginários políticos nascem, se consolidam e se exaurem; A Secular Age (2007), que substitui a narrativa de “declínio da religião” pela ideia de que o buffered self moderno — isolado, fechado ao transcendente, autocontrolado — paga o preço da dificuldade de produzir significado coletivo; e The Politics of Recognition (1992), que distingue liberalismo de igual dignidade de liberalismo de reconhecimento diferencial, recusando tanto o universalismo cego às diferenças quanto o identitarismo fechador. No debate filosófico, Taylor é o interlocutor que habermas mais respeita e mais discorda; com rawls, o desacordo é sobre se neutralidade procedural é possível; com MacIntyre, a ruptura é sobre se liberalismo e comunitarismo são compatíveis — Taylor acha que sim, MacIntyre que não.

Trajetória intelectual

Taylor nasceu em 1931 em Montreal, cidade dividida entre anglófonos e francófonos, filho de mãe católica francófona e pai protestante anglófono — uma biografia que por si só já é aula sobre convivência entre identidades. Estudou história em McGill, foi Rhodes Scholar em Oxford, onde concluiu o doutorado em filosofia sob berlin e Elizabeth Anscombe, em 1961. A tese, que décadas depois geraria The Explanation of Behaviour (1964), era uma crítica ao behaviorismo: a ação humana não se explica por estímulo e resposta, porque humanos são animais que se auto-interpretam, e suas ações dependem das descrições sob as quais se dão. Esse argumento — o primado da auto-interpretação e da linguagem sobre a causalidade naturalista — é a semente de tudo o que Taylor fez depois.

Nos anos 1960, Taylor foi militante do New Democratic Party canadense, concorreu a cargos eletivos (perdeu para Pierre Trudeau em 1965) e se envolveu nos debates da Nova Esquerda britânica. Era um marxista analítico preocupado com a redistribuição e com a crítica ao capitalismo de consumo. Essa fase política explica um traço permanente de sua obra: o comunitarismo de Taylor nunca teve nada a ver com direita cultural — é sempre uma preocupação com solidariedade, com laços sociais espessos, com a dimensão coletiva que o individualismo de mercado dissolve.

A virada decisiva foi Hegel (1975), livro de mais de quinhentas páginas que reintroduziu a filosofia hegeliana no mundo anglófono depois de décadas de exílio positivista. Taylor leu Hegel não como metafísico totalizante — a leitura que popper e Russell popularizaram —, mas como o filósofo da dialética entre individualidade e reconhecimento mútuo, entre sujeito e substância ética, entre liberdade abstrata e liberdade concreta. Dessa leitura sai tudo o que virá depois: a ideia de que o self precisa de reconhecimento, de que a liberdade só existe em instituições, de que razão e cultura não se separam, de que a história tem uma direção sem ter um fim prescrito. Em 1979, o pequeno Hegel and Modern Society destilou o argumento para um público mais largo.

A partir dali, Taylor passa a ser lido como um dos “quatro comunitaristas” da filosofia política anglófona — rótulo que divide com Alasdair MacIntyre, Michael Sandel e Michael Walzer. O rótulo é simplificador (Taylor sempre o recusou), mas captura um gesto real: contra o liberalismo procedural de rawls e contra o libertarianismo de Nozick, esses autores insistiram, cada um a seu modo, que nenhum arranjo político é culturalmente neutro, que comunidades precedem indivíduos historicamente, que bens só são inteligíveis em tradições. Taylor foi, dos quatro, o que menos se deixou tribalizar: seu alvo nunca foi o liberalismo como tal, mas uma certa forma de liberalismo — aquela que se pensa como neutralidade, quando é uma cultura entre outras.

Ensinou em Oxford (Chichele Professor de Teoria Social e Política entre 1976 e 1981) e em McGill por mais de três décadas. Em 2007 recebeu o Templeton Prize; em 2008, o Kyoto Prize; em 2015, o Berggruen Prize. Em 2007–2008, presidiu, ao lado do sociólogo Gérard Bouchard, a Comissão Bouchard-Taylor, que investigou as “acomodações razoáveis” entre o Quebec francófono e suas minorias religiosas — uma aplicação prática, e polêmica, da filosofia do reconhecimento em escala de política pública. Continua escrevendo. The Language Animal (2016) e Cosmic Connections (2024), este sobre poesia romântica e a fuga ao desencantamento, confirmam que, aos noventa anos, Taylor ainda persegue a mesma pergunta que perseguia em 1961.

Sources of the Self e a história do individualismo moderno

Sources of the Self: The Making of the Modern Identity (1989) é, por margem larga, o livro mais ambicioso de Taylor. Quase seiscentas páginas, três partes, uma tese. A tese é que o indivíduo moderno — aquele que se concebe como interioridade livre, autônoma, autodeterminada, portadora de dignidade inerente — é produto de uma cadeia histórica específica, não a condição natural do ser humano. Taylor reconstrói essa cadeia em camadas: a interioridade agostiniana, que descobre o self voltando-se para dentro em direção a Deus; a virada cartesiana, que naturaliza essa interioridade como consciência reflexiva; a afirmação luterana e puritana da vida comum, que santifica trabalho e casamento contra a hierarquia contemplativa medieval; o teísmo providencial do século XVIII, que secularizou a providência em ordem natural benéfica; o naturalismo iluminista, que dispensou a providência sem dispensar a benevolência; e, por fim, o expressivismo romântico, que inventou a ideia de que cada indivíduo tem uma voz interior singular que deve ser descoberta e expressa.

O ponto não é histórico-filológico; é filosófico. Cada uma dessas camadas, diz Taylor, é uma fonte moral — um reservatório afetivo e narrativo que energiza um enquadramento moral específico. Ser moderno é viver sobrepondo essas fontes, nem sempre compatíveis: somos simultaneamente puritanos da vida comum, iluministas da dignidade universal, românticos da autenticidade. E — aqui está o argumento central, o que interessa a este vault — toda moral vive de fontes. Sem elas, os enquadramentos ficam ocos: sobrevive a linguagem dos direitos, dos deveres, da dignidade, mas não a força afetiva que lhes dava sentido. A moral performática, a indignação de rede social, a defesa legalista de valores que ninguém mais sente, são sintomas desse esvaziamento.

Para Pedro, esse argumento subverte frontalmente o modo como o liberalismo econômico contemporâneo — o individualismo da Faria Lima, da cripto-libertariana, da gringada austríaca — costuma se autonarrar. Nesse imaginário, o indivíduo é a condição humana; o coletivismo é a aberração; mercados são naturais; sociedade é ficção estatista. Taylor mostra, documento a documento, que o individualismo é cultura: conquista histórica específica, sustentada por instituições, narrativas e práticas, e portanto perecível como toda cultura. Quando o fundo cai, o indivíduo cai com ele. A autenticidade vira narcisismo, a liberdade vira anomia, a dignidade vira ressentimento. Os liberais que mais precisam ler Taylor são justamente os que menos o leem.

O livro dialoga com weber, mas de forma oblíqua. weber narrou a racionalização como gaiola de ferro: a modernidade consome religião e tradição até sobrar cálculo instrumental num mundo desencantado. Taylor reformula: o desencantamento não é apenas perda, é deslocamento; as fontes morais migram, se secularizam, se reconfiguram, mas continuam ativas — e a tarefa filosófica é rastreá-las, não chorá-las. weber é mais tragédia; Taylor é mais arqueologia.

A crítica ao atomismo

O ensaio “Atomism”, publicado em 1985 em Philosophy and the Human Sciences (e depois central em Philosophical Arguments, 1995), é a peça mais curta e mais afiada do projeto de Taylor. O alvo direto é Nozick, mas o alvo real é toda uma família de argumentos libertários que tratam direitos como posses pré-políticas do indivíduo contra o Estado.

O argumento de Taylor é simples e devastador. Para ter direitos, diz ele, você precisa ser o tipo de ser que direitos protegem — um agente moral autônomo, capaz de autodeterminação, de projetos de longa duração, de vida digna. Mas essa capacidade não é dada pela natureza: é produzida e sustentada por uma densa infraestrutura social — linguagem, educação, tradições culturais, instituições jurídicas, relações familiares, redes de confiança, herança artística e científica. O libertário que reivindica seus direitos como se fossem propriedade pré-social está free-riding nessa infraestrutura: quer os frutos sem reconhecer o solo. Direitos individuais pressupõem uma sociedade que os sustenta, e uma sociedade que os sustenta tem obrigações que ultrapassam a não interferência. O libertarianismo, em suma, é incoerente: reivindica uma liberdade que só existe graças às estruturas que ele quer desmontar.

Esse argumento conecta Taylor ao debate com rawls de forma sutil. Taylor respeita rawls (muito mais do que MacIntyre, por exemplo), mas acha que o liberalismo procedural rawlsiano é uma posição culturalmente particular, não um ponto de vista neutro. A “posição original” e o “véu de ignorância” dependem de uma antropologia específica — a do self desvinculado, capaz de abstrair de seus fins para deliberar sobre princípios. Essa antropologia, Taylor mostra em Sources of the Self, é historicamente construída; não pode servir de base arquimediana para justificar estruturas políticas. Toda neutralidade é uma posição entre outras, pintada de neutra por quem a ocupa.

O diálogo com habermas é paralelo, mas mais amistoso. Taylor e habermas concordam que modernidade exige instituições racionais, que a política precisa de razões públicas, que a democracia é mais do que agregação de preferências. Discordam sobre o alcance do procedimentalismo. Para habermas, a racionalidade discursiva pode, em princípio, fundar uma ordem política legítima sem apelar a bens substantivos. Para Taylor, a própria noção de discurso racional já é um bem substantivo, enraizado em tradições específicas (judaico-cristãs, iluministas, românticas) que nenhum procedimento formal consegue abstrair. O desacordo é filosoficamente profundo; a amizade intelectual dos dois, que durou décadas, é modelo do que debate pode ser.

The Politics of Recognition — identidade, multiculturalismo, o desafio liberal

Em 1992 — mesmo ano de The End of History and the Last Man, de fukuyama — Taylor publicou o ensaio longo que viraria o livrinho Multiculturalism and the Politics of Recognition, editado por Amy Gutmann com comentários de habermas, Michael Walzer, Steven Rockefeller e K. Anthony Appiah. O paralelo com fukuyama é mais do que cronológico. Ambos leram Hegel. Ambos colocaram reconhecimento (Anerkennung) no centro de suas teses sobre a modernidade política. Ambos notaram que o regime liberal-democrático, tendo vencido as alternativas totalitárias, enfrentava agora não um rival externo, mas a demanda interna por reconhecimento identitário, demanda que a economia liberal não sabe satisfazer porque ela não é economicamente satisfatível. fukuyama leu isso pessimisticamente: o último homem, saciado e entediado, volta a querer guerra por status. Taylor leu isso como problema político legítimo, a ser enfrentado pelo liberalismo, não evitado.

O argumento do ensaio se estrutura em duas distinções. A primeira é histórica: antes da modernidade, identidade era honra — uma função da posição social, intrinsecamente desigual. A modernidade democratizou identidade em dignidade, universalmente distribuída. A dignidade moderna tem duas formas, e é aqui que aparece a segunda distinção, a crucial. Primeira forma: a política de igual dignidade, que trata todos os indivíduos como iguais portadores de direitos idênticos — a tradição de kant, rawls, do liberalismo procedural. Segunda forma: a política do reconhecimento diferencial, que trata grupos e identidades como portadores de especificidades culturais que merecem espaço público, proteção institucional, às vezes assimetrias legais. A tradição de Herder, Hegel, do comunitarismo.

O ponto de Taylor não é escolher uma contra a outra. É mostrar que as duas são formas legítimas de dignidade, derivadas do mesmo núcleo moral moderno, e que o liberalismo saudável tem de operar em ambas simultaneamente, negociando caso a caso o ponto de equilíbrio. Quando Quebec exige proteção legal para o francês contra o bilinguismo federal — caso empírico que Taylor discute longamente —, o liberalismo procedural responde que isso viola a igualdade formal. O liberalismo do reconhecimento responde que proteger uma cultura minoritária dentro de um espaço cultural maior é tratar os francófonos com igual dignidade, porque ignorar a especificidade cultural é, na prática, deixá-la morrer. Taylor defende a segunda posição, mas com uma ressalva decisiva: o reconhecimento não pode se transformar em multiculturalismo fechador, em tribalização identitária, em apartheid cultural. Reconhecer não é isolar. A cultura protegida precisa continuar em diálogo, em crítica mútua, em exposição a outras — ou vira prisão em vez de lar.

Essa ressalva é o que torna Taylor arma preciosa para o debate com identitarismo contemporâneo. Ele reconhece a ferida real que o liberalismo universalista causa quando ignora diferença. Mas recusa a solução identitária que responde à ferida fechando o grupo sobre si. É um liberalismo do reconhecimento que continua sendo liberalismo — aberto, dialogal, crítico, universalizável. Para o livro sobre a Nova República, especialmente nos capítulos que terão de tratar raça, gênero e regionalismo, Taylor oferece o vocabulário pelo qual se reconhece a legitimidade das demandas de grupo sem capitular à lógica tribal que deles faz negócio.

A Secular Age — buffered self, desencantamento, o mal-estar moderno

A Secular Age (2007) tem oitocentas e setenta e seis páginas, peso de tratado medieval, e é o livro em que Taylor finalmente pergunta diretamente: como um mundo em que todos acreditavam em Deus em 1500 virou um mundo, em 2000, em que a crença religiosa é uma opção entre muitas, e não a mais plausível? A resposta recusa duas narrativas correntes. A narrativa do progresso — secularismo é maturidade, religião é infância superada — é superficial e triunfalista. A narrativa da perda — secularismo é ruína, religião era plenitude — é reacionária e sentimental. Taylor propõe uma terceira narrativa, mais densa: a secularização é uma transformação das condições de possibilidade da experiência, não um mero declínio de crença.

O conceito central é o de buffered self contra porous self. O self pré-moderno, diz Taylor, era poroso: permeável ao transcendente, ao coletivo, ao cosmos. Espíritos, relíquias, demônios, forças mágicas, bênçãos e maldições atuavam sobre ele a partir de fora; sua identidade não tinha fronteira nítida entre interior e exterior. O self moderno é buffered: isolado, autocontrolado, dono das fronteiras entre si e o mundo. Dentro, pensamento e sentimento. Fora, objetos e causas naturais. O buffered self é condição da ciência moderna, da autonomia moral kantiana, do contrato social lockeano — tudo isso pressupõe um interior privado, governado por si mesmo, protegido de influências externas não escolhidas.

Mas o buffered self paga um preço. Ao fechar as fronteiras, ele cortou o acesso direto às fontes de significado que o poroso tinha de graça — o sagrado, o cósmico, o comunitário inescapável. Passou, então, a precisar construir significado, escolhê-lo, performá-lo, sustentá-lo por esforço próprio. Funciona, em parte: a autenticidade moderna, a realização individual, o romantismo, a arte, o ativismo político — tudo isso são modos pelos quais o buffered self produz significado para si. Mas é um regime instável. Em momentos de fadiga, de crise, de vazio, o buffered self descobre que está sozinho num cosmos silencioso, e essa solidão é específica dele — o poroso não a conhecia. Taylor chama isso de mal-estar da modernidade, o “malaise of modernity” que já havia diagnosticado em livro de 1991. Não é nostalgia religiosa: é descrição fenomenológica da forma de vida moderna, cuja ausência weber registrou como desencantamento mas cujo mecanismo Taylor detalhou em escala infinitamente maior.

Essa análise é a versão filosoficamente mais sofisticada da tese central do livro de Pedro sobre a Nova República. O regime universalizou cidadania, consumo, direitos — acabou de construir o buffered brasileiro, o self cheio de si e dos seus, autônomo e consumidor. Mas consumiu, no processo, o acervo simbólico da República de 1945 sem construir outro. O brasileiro contemporâneo é, nos termos de Taylor, um buffered self sem as fontes que tornariam seu buffering habitável: sem Niemeyer, sem Bossa Nova, sem Pelé, sem ideia partilhada de projeto, ficou só o indivíduo tentando produzir significado sozinho, num país que perdeu a capacidade de produzir significado junto. O mal-estar brasileiro recente — polarização performática, ressentimento difuso, religiosidade reativa — pode ser lido como sintoma tayloriano puro: um buffered self sem fonte, tentando preencher o vazio com identidade ou com indignação.

Essa leitura dialoga, em registro diferente, com aquilo que ibn_khaldun nomeou sob outra palavra: a perda de coesão social que erode o poder estabelecido. Onde Khaldun via dissolução de laços tribais no luxo citadino, Taylor vê dissolução de fontes morais na forma de vida buffered. Os mecanismos são diferentes; o fenômeno, parente.

Modern Social Imaginaries — o conceito central

Modern Social Imaginaries (2004) é livrinho curto — menos de duzentas páginas — e a ferramenta conceitual mais útil que Taylor já produziu. O conceito é social imaginary: o pano de fundo tácito de práticas compartilhadas pelo qual uma sociedade se imagina coletivamente funcionando. Não é ideologia (que é explícita, contestada, partidária) nem teoria (que é sistemática, acadêmica, elaborada). É o fundo — o que as pessoas fazem sem pensar, o que parece óbvio sem ser argumentado, o mundo como ele é assumido antes de ser debatido.

Um imaginário social inclui imagens, histórias, expectativas, práticas, costumes. Inclui o que sabemos que as outras pessoas esperam de nós, o que esperamos das instituições, o que esperamos do futuro. Inclui também uma noção de legitimidade de fundo: por que as coisas são como são, por que temos as instituições que temos, em nome de que a sociedade existe. Taylor rastreia três imaginários modernos formativos — a economia (a ideia da sociedade como sistema de troca benéfica), a esfera pública (a ideia da sociedade como conversação informada entre iguais) e a soberania popular (a ideia da sociedade como povo autoconstituinte). Esses três imaginários, cristalizados entre os séculos XVII e XIX, são o que habitamos quando dizemos “sociedade moderna”. Não são teorias que escolhemos: são a moldura dentro da qual escolhemos.

Para o livro em curso, social imaginary é praticamente o nome técnico daquilo que Pedro vem chamando de “ideia de Brasil”. A República de 1945 produziu um imaginário exportável — país tropical moderno, democracia racial em construção, música, arquitetura, futebol, uma certa cordialidade criativa. Esse imaginário funcionou dentro e fora, foi vendido ao mundo, foi assumido como fundo pelos brasileiros. A Nova República, ocupada em entregar direitos e consumo, não produziu o seu. Herdou o de 1945 e foi gastando. Quando os dois bolsonarismos e o lulismo de terceira geração vieram cobrar o imaginário, já não havia mais. O que sobrou foi o ressentimento de quem reconhece a perda sem saber nomear a causa.

A utilidade analítica do conceito é que ele abre espaço entre dois polos simplistas. De um lado, quem diz que o Brasil “não existe” como projeto — tese superficial, pois imaginários são construídos e desconstruídos, e a decadência não prova inexistência. De outro, quem insiste na continuidade do Brasil como essência — tese metafísica, pois imaginários são históricos, perecíveis, reconstruíveis. Com Taylor, pode-se dizer com precisão: havia um imaginário da República de 1945; ele foi sendo demolido pela Nova República sem substituição; a reconstrução de um novo imaginário é tarefa política possível, difícil, inadiável.

Taylor como liberal — por que o comunitarismo dele não é anti-liberal

A etiqueta “comunitarista” fez mal a Taylor. Nos anos 1980 e 1990, o debate liberais-comunitaristas na filosofia política anglo-americana montou uma dicotomia artificial: de um lado, os liberais (rawls, Dworkin, Kymlicka) defendendo indivíduos; do outro, os comunitaristas (MacIntyre, Sandel, Walzer, Taylor) defendendo comunidades. A dicotomia era retórica, quase jornalística, mas colou. Taylor passou décadas explicando que nunca foi anti-liberal, e que sua crítica ao atomismo era uma crítica interna ao liberalismo — uma tentativa de torná-lo mais coerente consigo mesmo, não de substituí-lo por outra coisa.

O argumento é o seguinte. O liberalismo se auto-apresenta como doutrina da liberdade individual, dos direitos, do pluralismo, do governo limitado. Tudo isso Taylor endossa. O problema é que, quando o liberalismo se imagina como uma neutralidade procedural que protege indivíduos de qualquer cultura substantiva, ele se torna cego ao próprio solo. Esquece que indivíduos precisam de cultura para existir, que direitos precisam de instituições para ter vigência, que pluralismo precisa de horizonte comum para não virar fragmentação, que governo limitado precisa de virtude cívica para não virar captura privada. Um liberalismo maduro reconhece essa dependência e a cultiva: investe em educação pública, em patrimônio cultural, em memória coletiva, em rituais republicanos, em língua comum, em todas as coisas que fazem indivíduos serem capazes de liberdade. Um liberalismo ingênuo finge que essas coisas são “privadas” ou “culturais” e, portanto, fora do seu escopo — e descobre, décadas depois, que a infraestrutura moral foi se desmanchando enquanto ele olhava para outro lado.

Taylor, portanto, é um liberal holista, em oposição aos liberais atomistas. Holismo aqui não é mística coletivista; é apenas reconhecer que indivíduos são parte de totalidades históricas que os sustentam. O holista liberal quer as liberdades individuais; mas sabe que elas custam investimento coletivo. O atomista liberal quer as liberdades sem a fatura. O erro atomista, diz Taylor, é epistêmico antes de político: ele não vê o solo em que pisa.

Essa leitura casa, com precisão, com o liberalismo social-liberal de merquiormerquior também insistia que liberalismo não se reduz a mercado, que depende de instituições e de cultura pública racional, que reconstruir liberalismo no Brasil significava repor densidade histórica. Taylor e merquior são, guardadas as escalas, parentes: dois reconstrutores do liberalismo contra versões reducionistas, o primeiro no plano filosófico internacional, o segundo no plano brasileiro. Ler os dois juntos é um dos melhores exercícios que o livro sobre a Nova República pode oferecer.

Comparações

Com habermas, a comparação já foi feita: concordam em quase tudo sobre modernidade racional, divergem sobre se a racionalidade pode ser puramente procedural ou se depende de bens substantivos. habermas é o grande teórico da razão comunicativa; Taylor é quem lhe lembra que comunicação também é uma tradição cultural.

Com fukuyama, a comparação é cronológica e temática. Ambos publicam em 1992 livros em que reconhecimento vira categoria central. fukuyama está mais próximo do Kojève — reconhecimento como agon de status, thymos — e por isso lê o fim da história como aborrecimento do último homem. Taylor está mais próximo do Hegel original — reconhecimento como reciprocidade constitutiva — e por isso lê o fim da história como tarefa inacabada de integração das diferenças. fukuyama é mais famoso; Taylor é mais profundo.

Com merquior, já dito: ambos reconstrutores do liberalismo contra versões reducionistas, ambos valorizam história intelectual sobre deducionismo, ambos combinam erudição densa com intervenção pública. merquior morreu cedo demais para escrever seu próprio Sources of the Self brasileiro; Taylor talvez seja o que esse livro não escrito mais se pareceria.

Com weber, o diálogo é sobre desencantamento. weber narra a modernidade como racionalização que esvazia sentido; Taylor narra como deslocamento de fontes morais que sobrevivem em formas secularizadas. O weber mais pessimista — a gaiola de ferro — é mais citado; Taylor sugere que a gaiola tem mais portas abertas do que weber viu, e que boa parte da história moderna é sobre como novas fontes morais (expressivismo, romantismo, direitos humanos) foram preenchendo o lugar vago.

Com marx, a relação é biográfica e crítica. Taylor foi marxista analítico na juventude, militante do NDP, leitor atento dos Manuscritos de 1844. Nunca abandonou a crítica do capitalismo de consumo, mas rejeitou a filosofia da história marxista (o motor único, a teleologia, a classe como sujeito privilegiado) em favor da pluralidade hegeliana de fontes. Hegel (1975) é, em parte, a forma de Taylor ajustar contas com o marxismo que o formou.

Com tocqueville, a afinidade é estrutural. Ambos se interessam pela textura da vida associativa, pela formação de hábitos cívicos, pelos riscos do individualismo democrático que se isola. Taylor é um tocqueville filosoficamente reequipado, com Hegel e Heidegger acrescentados ao kit.

Com rawls, já dito: respeito mútuo, desacordo fundo. rawls propôs um liberalismo político que se quer neutro entre concepções de bem; Taylor responde que a neutralidade é ela mesma uma concepção de bem, e que melhor explicitar do que esconder.

Com putnam — no sentido de Robert Putnam, não Hilary —, a afinidade é empírica. putnam documentou, em Bowling Alone, a erosão do capital social americano; Taylor forneceu o vocabulário filosófico pelo qual essa erosão pode ser pensada como perda de imaginário social e esvaziamento de fontes morais. Os dois se leem mutuamente.

Taylor nas camadas de Freeden

Michael Freeden, em Liberalism: A Very Short Introduction, organiza o liberalismo em cinco camadas históricas — constitucionalismo protetor (1ª), mercado e propriedade (2ª), individualidade-como-desenvolvimento milliana (3ª), welfare interdependente dos novos liberais (4ª) e pluralismo-reconhecimento contemporâneo (5ª) — e separa dessa história, no capítulo 6, o liberalismo filosófico idealizado (rawls, Dworkin) que busca fundação racional universal. A posição de Taylor nesse mapa é peculiar.

Pelo conteúdo, Taylor é pesado na terceira e quarta camadas, adjacente à quinta. A terceira é sua matriz: Sources of the Self é uma arqueologia da individualidade-como-desenvolvimento, a ética da autenticidade é sua forma contemporânea, e a crítica ao atomismo (1985) é defesa frontal da linhagem mill-Green-Hobhouse contra Nozick. A quarta camada aparece no argumento de que direitos individuais pressupõem uma sociedade que os sustenta — Taylor é herdeiro confesso de Hegel e Green no reconhecimento da interdependência, e sua defesa do Estado social canadense e europeu é explícita. A quinta camada é onde ele faz a contribuição mais própria: The Politics of Recognition (1992) é um dos dois ou três textos fundadores do debate contemporâneo sobre identidade — mas, diferentemente do identitarismo fechador, Taylor mantém o diálogo com o universalismo liberal, exigindo reconhecimento como extensão, não abandono, dos direitos universais.

Pelo método, Taylor está num lugar único no mapa Freeden. Ele recusa o capítulo 6 — é crítico frontal do proceduralismo rawlsiano-habermasiano, argumenta que nenhuma neutralidade é neutra, que toda ordem política repousa em bens culturais compartilhados. Nisso converge com rorty (e com Freeden), que também rejeitam a pretensão de fundar o liberalismo em razão universal descontextualizada. Mas diverge de rorty num ponto decisivo: Taylor é metafísico. Não abandona a pretensão de verdade — sustenta uma ontologia moral hegeliano-aristotélica-cristã em que o self humano tem estrutura real, fontes morais têm conteúdo real, a individualidade é um telos cultivável. rorty acharia isso ingenuidade; rawls acharia particularismo; Taylor responde que o hiperrealismo do nowhere view é que é ingênuo, e que toda teoria política confessa suas fontes ou as esconde.

A posição resultante é liberal social tri-camada com pretensão ontológica. Taylor é o filósofo que leva a sério a crítica comunitarista e, em vez de virar anti-liberal, argumenta que o liberalismo se salva ao se reconhecer como situado, herdado, afetivamente ancorado em moral sources que ele próprio não inventou. Freeden provavelmente o trataria como um dos casos mais interessantes do mapa — liberalismo fora do capítulo 6 mas com densidade filosófica que seus pragmatistas (rorty, Dewey) não alcançam. No mapa que se forma ao ler este vault: se nussbaum é rawls bem feito e rorty é rawls negado por fora, Taylor é rawls respondido por trás — pela via fenomenológica e histórica, resgatando a tradição inteira do self moderno para mostrar que o próprio liberalismo procedural é contingência histórica vestida de necessidade lógica.

Limites e críticas

Taylor tem críticos legítimos, e ignorá-los seria hagiografia. Charles Larmore, em Patterns of Moral Complexity e em resenhas posteriores, argumentou que Taylor contrabandeia uma metafísica realista sobre bens morais que não consegue justificar filosoficamente — a ideia de que “fontes morais” têm alguma espécie de existência objetiva, para além de nossa construção cultural, é mais teológica do que argumentativa. Michael Rosen fez crítica parecida: o apelo tayloriano à “articulação” dos bens morais depende, no fundo, de uma ontologia que Taylor prefere não explicitar, por vezes piscando para o cristianismo sem fechar o argumento.

habermas objetou, em tom amistoso, que o comunitarismo tayloriano corre risco de relativismo contextual — se bens só existem em tradições, como criticar tradições cruéis? Taylor responde, razoavelmente, que tradições incluem recursos internos de autocrítica, e que o progresso moral se dá por reinterpretação das próprias fontes, não por adesão a princípios transcendentes. A resposta é boa, mas não elimina a inquietação: Taylor tende a subestimar o quanto sua própria posição depende de tradições cristãs ocidentais particulares, e os críticos pós-coloniais notaram isso.

O catolicismo praticante de Taylor é marca mais presente em A Secular Age do que em livros anteriores. Há quem ache que isso enriquece a obra (a perspectiva religiosa lida com seriedade é rara em filosofia analítica); há quem ache que isso a contamina com um horizonte implícito que favorece certas conclusões. Vale manter a questão em aberto. Taylor não é apologeta — critica o cristianismo histórico com vigor — mas também não é neutro, e qualquer leitor do livro tem de avaliar onde traça a linha.

Há, enfim, uma recepção norte-americana de Taylor que o simplifica em “Taylor soft” — o comunitarista amigável do debate político anglo-americano, útil para defender multiculturalismo liberal. Essa leitura perde o Taylor profundo, o herdeiro de Hegel, o fenomenólogo da modernidade, o leitor de Heidegger e Merleau-Ponty, o filósofo da linguagem de The Language Animal. O Taylor europeu — lido na França, na Alemanha, na Itália — é outro pensador, de maior peso filosófico, cujo comunitarismo é subproduto e não núcleo. Vale, ao ler Taylor para o livro brasileiro, ir ao Taylor profundo, não parar no Taylor soft.

Uma última reserva, específica para o uso no vault. Taylor é extremamente útil como vocabulário diagnóstico — imaginário social, buffered self, fontes morais, política do reconhecimento. É menos útil como programa de ação. Seus livros dizem o que está em jogo; raramente dizem o que fazer. Para um livro sobre a Nova República que precisa diagnosticar e propor, Taylor é metade do trabalho. A outra metade — propositiva, institucional, brasileira — tem de vir de merquior, de nabuco, de robertocampos, de tavaresbastos e das tradições locais de reforma.

Ver também

  • merquior — Ambos reconstrutores do liberalismo contra versões reducionistas; merquior é o parente brasileiro de Taylor, ambos valorizam história intelectual e recusam o liberalismo apenas procedural ou apenas econômico.
  • habermas — Interlocutor de meio século; concordam sobre modernidade racional, divergem sobre se a razão pode ser procedural sem apelo a bens substantivos.
  • fukuyama — Paralelo de 1992: ambos colocaram reconhecimento no centro da teoria política contemporânea, ambos leram Hegel, divergem sobre se o “último homem” é saciado ou ainda tem tarefa.
  • rawls — Referência fundadora contra a qual Taylor define sua posição: respeita a tentativa de liberalismo político mas recusa a pretensão de neutralidade procedural.
  • weber — Desencantamento é o tema comum; Taylor reescreve weber em chave menos trágica e mais arqueológica, rastreando como as fontes morais se deslocam em vez de apenas desaparecerem.
  • marx — Formação de juventude que Taylor criticou depois; Hegel (1975) é a peça em que Taylor ajusta contas com o marxismo analítico dos anos 1960.
  • tocqueville — Afinidade estrutural na atenção à vida associativa e aos riscos do individualismo democrático; Taylor é um tocqueville reequipado com filosofia alemã.
  • putnam — A documentação empírica da erosão do capital social americano encontra em Taylor seu vocabulário filosófico: imaginário social, fontes morais, mal-estar da modernidade.
  • berlin — Orientador de Taylor em Oxford; o pluralismo de berlin informa o anti-monismo tayloriano, embora Taylor vá mais longe ao historicizar as próprias fontes do pluralismo.
  • kant — Referência universalista contra a qual Taylor negocia: a dignidade moderna vem de kant, mas Taylor insiste que kant precisa de um fundo cultural que o próprio kantismo não consegue tematizar.