PUC-Rio vs. Unicamp — Por Que o Brasil Não Forma Consenso Econômico
PUC-Rio e Unicamp representam as duas tradições hegemônicas da economia brasileira — ortodoxa/neoclássica e heterodoxa/estruturalista — que nunca convergiram para um consenso. A rivalidade não é acidental: tem raízes epistemológicas profundas (hard cores incompatíveis à la Lakatos), sociológicas (redes profissionais transnacionais vs. nacionais), institucionais (sem equivalente ao NBER americano) e políticas (PSDB/Banco Central vs. PT/BNDES como destinos de carreira). Nos 40 anos desde o Plano Real, nenhuma tentativa de síntese — Bresser-Pereira, Lara Resende, Lula 1 — sobreviveu a uma mudança de governo.
Este ensaio é um caso exemplar do argumento do livro sobre a Nova República: a ausência de intermediação aplicada ao campo econômico. Nos países onde consenso econômico se formou (EUA pós-anos 90, Alemanha ordoliberal), houve espaços institucionais onde economistas de tradições diferentes se encontraram, debateram e sedimentaram posições compartilhadas ao longo de décadas. No Brasil, PUC-Rio e Unicamp operam em mundos intelectuais separados: metodologias distintas, línguas distintas, sistemas de publicação distintos, destinações de carreira distintas. A divisão acadêmica espelha e reforça a divisão política — e garante que a política econômica recomece do zero a cada alternância de governo.
O mapeamento empírico é robusto: estudos de Marques (DADOS, 2024) e Fernandez & Suprinyak (Journal of Economic Issues, 2019) confirmam que a polinização cruzada entre os campos é quase zero e que a heterodoxia está institucionalmente sustentada por mandatos legais de pluralismo. As cinco barreiras estruturais analisadas — epistemologias incompatíveis, metodologias que não se falam, sociologia da profissão, classe e geografia, espelho político — apontam para um equilíbrio estável no sentido de Schneider (Decadent Developmentalism): onde mesmo oscilações políticas dramáticas mal alteram a estrutura subjacente.
Este ensaio investiga a rivalidade entre as duas principais escolas de pensamento econômico brasileiro — PUC-Rio (ortodoxa/liberal) e Unicamp (heterodoxa/desenvolvimentista) — como caso exemplar da incapacidade brasileira de formar consensos nacionais. O argumento central é que a não-convergência entre as escolas não é um acidente intelectual: tem raízes epistemológicas, sociológicas, institucionais e políticas que se reforçam mutuamente. Nos EUA, monetaristas e keynesianos produziram a “New Keynesian Synthesis” nos anos 90-2000. Na Alemanha, o ordoliberalismo foi uma síntese entre laissez-faire e intervencionismo. No Brasil, quarenta anos de debate não produziram nada equivalente. A cada mudança de governo, a política econômica recomeça do zero. Este ensaio tenta entender por quê.
1. As duas escolas: origens e DNA
1.1 PUC-Rio: nascida da ruptura, moldada pelo MIT
O Departamento de Economia da PUC-Rio nasceu em 1977 de uma cisão dentro da EPGE/FGV-Rio. Dionísio Dias Carneiro, Francisco Lopes e Rogério Werneck saíram da EPGE — então dirigida por Carlos Langoni, PhD por Chicago, de orientação mais liberal — por divergências sobre o projeto acadêmico e a governança autocrática de Mario Henrique Simonsen. Aceitaram corte de 30% no salário para construir um programa novo. Pedro Malan se juntou, depois André Lara Resende (que fora aluno de Dionísio na FGV), depois Edmar Bacha, Eduardo Modiano, Pérsio Arida.
A parentagem importa: a EPGE de Simonsen (fundada em 1965) já havia estabelecido o modelo de economia quantitativa alinhada com os programas de pós-graduação americanos. A PUC-Rio herdou esse rigor mas com uma inflexão mais keynesiana — Dionísio e Lopes tinham inclinações keynesianas, diferente do Chicago puro de Langoni.
O DNA formativo é americano. Bacha fez doutorado em Yale (1968). Pérsio Arida no MIT (1992). Lara Resende no MIT (1979). Pedro Malan em Berkeley. Gustavo Franco em Harvard (1986). Armínio Fraga em Princeton. Ilan Goldfajn no MIT. A língua da PUC-Rio é o inglês, os modelos são matemáticos, os papers são publicados em American Economic Review e Econometrica, e a carreira se mede pelo reconhecimento no circuito acadêmico internacional.
A contribuição intelectual central foi a teoria da inflação inercial, desenvolvida em 1984-85: Francisco Lopes propôs o choque heterodoxo (congelamento de preços); Arida e Lara Resende propuseram a moeda indexada paralela que se tornou o Larida, depois a URV, depois o Plano Real. A inflação brasileira, argumentaram, não era apenas monetária (Friedman) nem apenas de demanda (Keynes) — era inercial, alimentada pela indexação. A solução era quebrar a indexação. É a conquista intelectual mais importante da economia brasileira no século XX.
Fonte principal: Gustavo Franco, “Economia na PUC-Rio: notas de uma testemunha” (disponível em gustavofranco.com.br).
1.2 Unicamp: nascida da CEPAL, moldada por Furtado e Conceição
O Departamento de Economia e Planejamento Econômico (DEPE) da Unicamp nasceu em 1968, dentro do projeto do reitor Zeferino Vaz. Os jovens economistas que o construíram — João Manuel Cardoso de Mello, Luiz Gonzaga Belluzzo, Wilson Cano — haviam todos participado de um curso de quatro meses da CEPAL sobre planejamento e desenvolvimento econômico realizado em São Paulo em 1965.
A conexão com a CEPAL é fundante. Raúl Prebisch e Celso Furtado são os patriarcas intelectuais. Depois do golpe de Pinochet no Chile em 1973, vários economistas que trabalhavam no escritório da CEPAL em Santiago voltaram ao Brasil e foram para a Unicamp: Maria da Conceição Tavares, Antônio Barros de Castro, Carlos Lessa. Conceição Tavares aceitou o convite da Unicamp em 1975, depois de voltar da CEPAL, onde havia sido discípula de Prebisch e assessora voluntária do ministro da economia de Allende.
O DNA formativo é latino-americano e europeu. A tradição intelectual combina estruturalismo cepalino (centro-periferia, deterioração dos termos de troca, substituição de importações), economia política marxista (análise de classes, acumulação de capital), pós-keynesianismo (moeda endógena, demanda efetiva, fragilidade financeira à la Minsky) e perspectivas neo-schumpeterianas sobre tecnologia e desenvolvimento.
A língua da Unicamp é o português. Os textos seminais são ensaios histórico-analíticos, não modelos matemáticos: Capitalismo Tardio (Cardoso de Mello, 1975), Acumulação de Capital e Industrialização no Brasil (Conceição Tavares), Raízes da Concentração Industrial em São Paulo (Wilson Cano). Publicam na Revista de Economia Política, Economia e Sociedade, Cambridge Journal of Economics. A carreira se mede pela relevância no debate público brasileiro e pela influência sobre políticas de governo.
Roberto Campos, no programa Roda Viva em 1991, disse a frase que virou lema: “Ou o Brasil acaba com os economistas da Unicamp, ou os economistas da Unicamp acabam com o Brasil.” Disse que era piada. Ninguém acreditou.
Fonte principal: Revista Pesquisa FAPESP, “A Escola de Campinas”; IREE, “Afinal, quem são os economistas da Unicamp?“.
2. Onde foram parar: o mapa do poder
O mapeamento PUC-Rio = governo PSDB e Unicamp = governo PT é grosseiramente correto, com exceções importantes.
2.1 A hegemonia PUC-Rio sob FHC
Durante os oito anos de Fernando Henrique (1995-2002), 13 economistas da PUC-Rio ocuparam as posições mais importantes da política econômica. Pedro Malan foi ministro da Fazenda por oito anos inteiros. Gustavo Franco presidiu o Banco Central (1997-99). Armínio Fraga o sucedeu (1999-2003). Ilan Goldfajn foi diretor de Política Monetária. O think tank IEPE/Casa das Garças, fundado por Bacha no Rio, segue como hub informal do grupo.
Um artigo jornalístico da época se intitulou “Chega ao fim a hegemonia da PUC” quando o governo FHC terminou.
2.2 A Unicamp no poder sob o PT
Guido Mantega (da órbita FGV-SP/Unicamp) foi ministro da Fazenda de 2006 a 2014. Luciano Coutinho (professor da Unicamp, PhD Cornell) presidiu o BNDES de 2007 a 2016. Aloizio Mercadante (mestrado e doutorado na Unicamp, cofundador do PT) foi senador, ministro da Ciência e Tecnologia, da Educação, da Casa Civil, e preside o BNDES desde 2023. Dilma Rousseff cursou o mestrado na Unicamp sob orientação de Coutinho.
A “Nova Matriz Econômica” de Dilma (2011-2014) — juros baixos, câmbio competitivo, desonerações fiscais, BNDES expandido — foi a tradução mais direta do pensamento unicampista em política pública. Seu fracasso desacreditou a escola por uma geração.
2.3 As exceções que mostram a porosidade
José Serra (candidato presidencial do PSDB em 2002 e 2010) foi professor no IE-Unicamp nos primeiros anos. Paulo Renato Souza (ministro da Educação de FHC por oito anos) era da Unicamp. Eduardo Guardia (ministro da Fazenda de Temer) fez mestrado na Unicamp.
Na direção oposta: quando Lula ganhou em 2002, montou a equipe econômica sem nenhum petista nos cargos-chave. Henrique Meirelles (ex-presidente do BankBoston, ligado ao PSDB) foi para o BC. Marcos Lisboa (FGV/Stanford, liberal) foi secretário de Política Econômica. Joaquim Levy (PhD Chicago) foi para o Tesouro. O Lula 1 governou com a equipe do adversário.
2.4 O pipeline do Banco Central
Um estudo publicado no SciELO analisou o perfil dos diretores do BCB e encontrou que mais da metade dos que cursaram economia fizeram graduação em apenas duas instituições cariocas: UFRJ e PUC-Rio. O doutorado era tipicamente em universidades americanas (Berkeley aparece com destaque). Esse pipeline se manteve notavelmente estável entre governos PSDB e PT — mesmo Lula manteve Meirelles. A ortodoxia monetária é a ideologia institucional do Banco Central brasileiro, independentemente de quem governa.
3. Por que não convergiram: cinco barreiras estruturais
3.1 Epistemologias incompatíveis
A barreira mais profunda. PUC-Rio opera dentro de um hard core neoclássico: individualismo metodológico, otimização racional, equilíbrio como referência analítica, neutralidade da moeda no longo prazo. Unicamp opera dentro de um hard core historicista-estruturalista: holismo (classes, estruturas, instituições), racionalidade limitada e socialmente construída, desequilíbrio como condição normal, moeda nunca neutra.
Na linguagem de Lakatos (que José Luis Oreiro e Paulo Gala usaram em resposta a Marcos Lisboa e Samuel Pessoa no livro O Valor das Ideias), esses são hard cores diferentes — compromissos pré-analíticos que não podem ser arbitrados por dados. A escolha de axiomas determina o que conta como “resultado” e o que conta como “anomalia”.
Isso é fundamentalmente distinto do caso americano. Monetaristas e keynesianos nos EUA compartilhavam hard core neoclássico suficiente (agentes racionais, otimização, equilíbrio como referência) para que pudessem ser unificados acrescentando rigidezes nominais. Em Lakatos: dividiam o hard core e discordavam apenas no cinturão protetor. PUC-Rio e Unicamp não dividem o hard core.
3.2 Metodologias que não se falam
PUC-Rio: modelos matemáticos, econometria, frameworks DSGE, publicação em revistas anglófonas de ponta. Quatro dos cinco fellows da Econometric Society trabalhando no Brasil são da PUC-Rio.
Unicamp: ensaios históricos, economia política, narrativas analíticas longas, publicação em revistas brasileiras e algumas europeias.
Não são apenas métodos diferentes aplicados às mesmas perguntas — são métodos diferentes aplicados a perguntas diferentes. PUC-Rio pergunta: “Qual a regra monetária ótima dados expectativas racionais?” Unicamp pergunta: “Como o padrão histórico de acumulação de capital molda a distribuição de renda e poder na sociedade brasileira?” As perguntas não se cruzam o suficiente para gerar síntese.
O estudo de Francisco Marques (DADOS, 2024), usando o conceito de champ scientifique de Bourdieu, confirma: a polinização cruzada é quase zero. Quase não há participação em bancas de tese entre os programas ortodoxos do Rio e os heterodoxos de Campinas/UFRJ. Economistas ortodoxos citam literatura anglófona recente (últimos 5 anos); heterodoxos citam autores clássicos (Prebisch, Furtado, Keynes, marx, Ricardo) através de décadas. São mundos intelectuais separados.
Um detalhe institucional é revelador: a Unicamp não usa o ANPEC (exame nacional padronizado para admissão em pós-graduação em economia), optando por processo seletivo próprio baseado em projetos de pesquisa e provas sobre desenvolvimento econômico. É uma separação prática e simbólica.
3.3 Sociologia da profissão
Marion Fourcade (American Journal of Sociology, 2006) mostrou como economistas em diferentes países são moldados por redes profissionais distintas. No Brasil, a divisão é nítida.
Economistas da PUC-Rio estão inseridos numa rede profissional transnacional centrada nos departamentos americanos. Seu prestígio, avanço de carreira e identidade intelectual dependem de reconhecimento nessa rede. Publicar em português não avança suas carreiras. Engajar seriamente com economia política estruturalista não melhora seu record de publicações.
Economistas da Unicamp estão inseridos numa rede profissional nacional centrada em instituições brasileiras, revistas e debates de política pública. Seu prestígio vem da relevância no debate público brasileiro, da influência sobre políticas de governo, e da autoridade intelectual na tradição lusófona.
Um estudo da Universidade do Texas documentou como PUC-Rio e IPEA produziram três discursos distintos de política econômica entre 1995-2005, mostrando os mecanismos institucionais pelos quais posições acadêmicas se traduzem em influência política.
3.4 Classe e geografia
Dimensão real mas raramente explicitada. PUC-Rio é universidade privada na Gávea (Zona Sul do Rio), conectada ao setor financeiro, aos indicados para o Banco Central e ao circuito internacional de consultoria. Unicamp é universidade pública em Campinas (interior de São Paulo), conectada a política industrial, burocracia estatal (especialmente paulista) e à intelectualidade do setor público.
Os economistas da PUC-Rio transitam entre academia, BC e mercado financeiro (Faria Lima). Os da Unicamp transitam entre academia, BNDES e movimentos sociais/PT.
3.5 O espelho político
PUC-Rio mapeia para PSDB/centro-direita; Unicamp para PT/esquerda. Não é acidental: partidos recrutam assessores econômicos na academia, e a academia fornece justificação intelectual para plataformas partidárias. Como a estratégia fundacional do PSDB enfatizou estabilização liberal e privatização, naturalmente recorreu à PUC-Rio/FGV. Como a ideologia fundacional do PT enfatizou desenvolvimento liderado pelo Estado e redistribuição, naturalmente recorreu à Unicamp/UFRJ.
A dinâmica competitiva entre partidos reforçou a divisão acadêmica. O crescimento do PT empurrou o PSDB mais para a direita, e vice-versa. Economistas acadêmicos que serviam como intelectuais partidários tinham incentivo para acentuar diferenças, não suavizá-las.
4. A New Keynesian Synthesis: por que funcionou nos EUA
Michael Woodford descreveu em paper para a AEA (2008), “Convergence in Macroeconomics”, as condições que permitiram a síntese americana:
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Hard core compartilhado. Monetaristas e keynesianos aceitavam agentes racionais, otimização e equilíbrio geral como fundações. A disputa era sobre hipóteses auxiliares (rigidez de preços, assimetrias de informação) dentro do mesmo programa de pesquisa.
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Metodologia comum. Ambos os lados usavam modelos matemáticos, publicavam nas mesmas revistas, frequentavam os mesmos seminários, se formavam em programas de doutorado que se sobrepunham. O NBER, o Brookings e o Peterson Institute forneciam espaços físicos onde monetaristas e keynesianos se encontravam regularmente. Mankiw (Harvard/New Keynesian) e Prescott (Minnesota/Real Business Cycle) discordavam em política mas conseguiam ler os papers um do outro porque usavam a mesma linguagem.
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Crise pragmática. A estagflação dos anos 70 forçou keynesianos a aceitar a importância de expectativas e política monetária. A crise financeira de 2008 forçou os novos-clássicos a aceitar que mercados nem sempre se equilibram. Choques externos criaram pressão para incorporar os insights do rival.
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Espaços institucionais. O NBER reúne 1.800+ economistas acadêmicos de diferentes tradições. Sua estrutura apartidária, sua série de working papers, seus summer institutes — tudo cria incentivos para engajamento em vez de isolamento. Nenhum equivalente existe no Brasil.
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Incentivos de carreira. Nos EUA, a síntese era boa para a carreira. Mankiw, Blanchard, Woodford e Bernanke construíram reputações precisamente ao fazer pontes entre tradições. O rótulo “New Keynesian” era prestigioso. No Brasil, fazer pontes gera suspeita dos dois lados — como Lara Resende descobriu.
O Brasil não tem nenhuma dessas condições. Não tem hard core compartilhado. Não tem metodologia comum. Não teve crise que forçasse incorporação mútua (o Real foi vitória ortodoxa, não síntese; a Nova Matriz foi experimento heterodoxo, não síntese). Não tem espaço institucional equivalente ao NBER. E não tem incentivo de carreira para quem faz ponte.
5. As tentativas que falharam
5.1 Lula 1 (2003-2006): a síntese operacional que não durou
O primeiro mandato de Lula foi o mais próximo que o Brasil chegou de uma síntese operacional. Macro ortodoxa (Palocci, Meirelles, superávit primário de 4,25% do PIB) com expansão social (Bolsa Família, aumento real do salário mínimo, democratização do crédito). Trinta e cinco milhões de brasileiros saíram da pobreza.
Mas foi síntese política, não intelectual. Segurou-se pelo talento político de Lula e pelo boom de commodities, não por um framework teórico aceito pelos dois lados. Quando Palocci caiu em 2006 (escândalo de corrupção) e Mantega subiu, o pêndulo voltou para a heterodoxia. A síntese não estava formalizada — era um arranjo pessoal que desmoronou com a mudança de pessoal.
5.2 Bresser-Pereira e o Novo Desenvolvimentismo: a tentativa mais séria
Luiz Carlos Bresser-Pereira (FGV-SP), junto com Yoshiaki Nakano, cunhou “novo desenvolvimentismo” em 2003-2004. Publicado primeiro na Folha de S. Paulo (19 de setembro de 2004), o projeto se posicionou explicitamente como terceira via entre ortodoxia neoliberal e velho desenvolvimentismo cepalino. Enfatiza responsabilidade fiscal (rompendo com a lassidão fiscal do velho desenvolvimentismo), câmbio competitivo (rompendo com a indiferença ortodoxa ao câmbio) e crescimento financiado pela poupança doméstica.
Por que não se tornou a síntese: PUC-Rio nunca aceitou — para eles, a ênfase cambial carece de microfundamentos e os modelos não são publicáveis em revistas de ponta. O “desenvolvimentismo social” da Unicamp (centrado no mercado interno e crescimento puxado por salários) considerou a ênfase exportadora de Bresser insuficientemente atenta a distribuição e trabalho. Bresser ocupa uma posição institucional atípica — FGV-SP, não Unicamp nem PUC-Rio — e não tem programa de doutorado cativo para reproduzir suas ideias através de alunos.
5.3 André Lara Resende: a ponte que foi atacada dos dois lados
Talvez o episódio mais dramático. Lara Resende — coarquiteto do Plano Real, ex-professor da PUC-Rio, ex-presidente do BNDES, a personificação do establishment ortodoxo — publicou uma série de artigos no Valor Econômico em 2019 (compilados em Consenso e Contrassenso, 2020) argumentando que a macroeconomia ortodoxa estava presa numa camisa de força ideológica. Apoiando-se na MMT, na finança funcional de Abba Lerner e no neo-chartalismo, argumentou que um Estado emissor de moeda soberana não tem restrição financeira, apenas restrições reais (de capacidade).
A reação revelou a profundidade da divisão tribal. Economistas ortodoxos (como Marcelo Kfoury Muinhos, da FGV) publicaram respostas alertando que as ideias de Lara Resende “dariam munição a economistas heterodoxos para enfraquecer as âncoras monetária e fiscal”. Economistas heterodoxos foram igualmente desconfiados: alguns o acusaram de vestir as mesmas políticas neoliberais dos anos 90 com roupagem MMT. Foi atacado dos dois lados por razões diferentes — sinal de que sua intervenção expôs lealdades tribais mais do que fez pontes.
Lara Resende depois integrou a equipe de transição de Lula em 2022. Completou uma migração pessoal de insider ortodoxo a interlocutor heterodoxo — uma síntese individual que a profissão como um todo não replicou.
5.4 Lisboa-Pessoa vs. Oreiro-Gala: o diagnóstico honesto
Marcos Lisboa (Insper) e Samuel Pessoa (FGV-IBRE) compilaram em O Valor das Ideias (Companhia das Letras, 2019) seus debates com economistas heterodoxos. A Parte IV, “Heterodoxia à brasileira”, traz trocas diretas com Luiz Fernando de Paula, José Luis Oreiro, Paulo Gala, Pedro Paulo Zahluth Bastos e Belluzzo.
Lisboa e Pessoa enquadraram a divisão como metodológica: ortodoxia se define pela adesão ao método científico, formulação de conjecturas falsificáveis e teste empírico rigoroso. Oreiro e Gala responderam usando a metodologia de programas de pesquisa científica de Lakatos: a verdadeira divisão é sobre hard cores irrefutáveis (agentes racionais maximizadores, equilíbrio de mercado) que a ortodoxia trata como axiomas, não como proposições empiricamente testáveis.
Foi o confronto mais intelectualmente honesto da divisão nos últimos anos. Mas concluiu confirmando o gap em vez de fechá-lo. Um debate ao vivo aconteceu no próprio IE-Unicamp durante o lançamento do livro.
6. A economia política da não-convergência
A divisão acadêmica serve a funções políticas concretas:
Diferenciação partidária. PSDB e PT (e agora seus sucessores) precisam de narrativas econômicas distintas. Economistas acadêmicos fornecem essas narrativas. Convergência privaria os partidos de uma fonte central de diferenciação programática.
Redes de patronagem. Nomeações governamentais — diretores do BC, presidência do BNDES, cargos no Ministério da Fazenda, diretorias do IPEA — rodam entre os dois campos dependendo de quem está no poder. A existência de dois campos cria duas redes de patronagem em vez de uma. Convergência encolheria os espólios.
Ecossistema de mídia. A imprensa brasileira sustenta um formato vivo de debate onde economistas ortodoxos e heterodoxos servem como comentaristas em duelo. Folha, Valor Econômico, Estadão todos operam com essa dinâmica. Convergência seria ruim para as páginas de opinião.
Equilíbrio profundo. Ben Ross Schneider (Decadent Developmentalism) argumenta que o Brasil está travado num equilíbrio institucional notavelmente estável onde mesmo oscilações políticas dramáticas (do PT a Bolsonaro) mal alteram a estrutura subjacente. A divisão acadêmica é um componente desse equilíbrio.
7. E a geração mais jovem?
Laura Carvalho (USP, PhD pela New School sob Lance Taylor) representa uma coorte mais nova que usa modelos formais dentro de um framework pós-keynesiano/estruturalista. Seu centro de pesquisa Made/USP e seu livro Valsa Brasileira (2018) demonstram que é possível ser heterodoxa e empiricamente rigorosa, publicar em Cambridge Journal of Economics e Journal of Post Keynesian Economics, e engajar a imprensa mainstream.
Mas isso é modernização metodológica da heterodoxia, não síntese com a ortodoxia. A heterodoxia se torna mais sofisticada sem convergir. Os hard cores seguem distintos.
O estudo de Fernandez e Suprinyak (Journal of Economic Issues, 2019) mapeou todos os programas de pós-graduação brasileiros: 27% são majoritariamente ortodoxos, 32,6% majoritariamente heterodoxos, 40,4% pluralistas. Os programas pluralistas (UnB, UFMG, UFRGS) praticam coexistência, com professores de tradições diferentes operando em paralelo sem integrar. Coexistência não é síntese.
Um estudo de 2025 na Review of Political Economy confirma que a heterodoxia brasileira é sustentada por mandatos legais de pluralismo curricular, contratação não-discriminatória em universidades públicas, e um sistema de classificação de revistas que atribui peso igual a publicações heterodoxas e mainstream. A heterodoxia não está morrendo — está institucionalizada.
8. A comparação que ilumina: por que a Alemanha convergiu
O ordoliberalismo alemão — a “economia social de mercado” — é uma síntese bem-sucedida entre laissez-faire e intervencionismo. Os ordoliberais da Escola de Freiburg (Walter Eucken, Franz Böhm) conseguiram produzir essa síntese porque enfrentaram o fracasso catastrófico de ambos os modelos simultaneamente. O laissez-faire levou a cartéis e à captura fascista da economia. O planejamento estatal levou ao totalitarismo. O trauma histórico dos anos 1930-40 na Alemanha criou uma pressão existencial por síntese que o Brasil nunca experimentou.
As crises brasileiras foram severas mas não existenciais da mesma maneira. Cada crise pode ser interpretada pela lente de uma escola como confirmação de suas premissas. A hiperinflação confirmou (para a PUC-Rio) que faltava disciplina monetária. O fracasso da Nova Matriz confirmou (para a PUC-Rio) que intervencionismo não funciona. A estagnação pós-Real confirmou (para a Unicamp) que ortodoxia não gera crescimento. A desindustrialização confirmou (para a Unicamp) que abertura destruiu a indústria. Cada crise reforça um lado em vez de forçar convergência.
9. Para o livro: por que isso importa
A rivalidade PUC-Rio/Unicamp é um caso exemplar do argumento central do livro sobre a Nova República.
Não é apenas uma disputa intelectual — é a ausência de intermediação aplicada ao campo econômico. Nos países onde consenso econômico se formou, houve espaços institucionais onde economistas de tradições diferentes se encontraram, debateram e, ao longo de décadas, sedimentaram posições compartilhadas. O NBER americano reúne 1.800 economistas de diferentes universidades num ambiente apartidário. O Brookings e o Peterson Institute funcionam de forma similar. Na Alemanha, os seminários da Escola de Freiburg nos anos 30-40 processaram o debate antes de Erhard implementar. O Brasil não tem nenhum espaço equivalente. A ANPEC gerencia coexistência, não produz integração. O IPEA muda de orientação com cada governo. Não há onde a síntese possa incubar.
A divisão acadêmica espelha e reforça a divisão política. PUC-Rio forma gente para o BC e a Faria Lima. Unicamp forma gente para o BNDES e o PT. Cada escola reproduz seus quadros através de programas de doutorado separados, com leituras diferentes, métodos diferentes, línguas diferentes. A cada alternância de governo, um grupo sai e o outro entra. A política econômica oscila não porque os problemas mudaram, mas porque as premissas mudaram.
É mais um caso de velocidade sem sedimentação. O Real tem 30 anos e não é consenso porque a sociedade que deveria processar o debate mudou inteiramente nesse tempo — e porque não houve organização intermediária (nem acadêmica, nem política, nem da sociedade civil) que sustentasse uma posição ao longo de décadas. O ordoliberalismo alemão foi debatido por 20 anos antes de ser implementado, e sustentado por sindicatos, igrejas e partidos por mais 30 depois. O Real foi implementado por quatro economistas e defendido por um partido que não existe mais como força política relevante.
A formulação para o livro: O debate econômico brasileiro não trava porque os economistas são incompetentes ou porque o país é complicado demais. Trava porque o debate nunca sai das universidades para ser processado pela sociedade. É mais um caso de Estado que faz pelo cidadão sem fazer com o cidadão. A política econômica é decidida por uma elite técnica — seja PUC-Rio, seja Unicamp — e entregue por decreto. A sociedade recebe mas não participa. E o que não participa, não defende. E o que não defende, o próximo governo desfaz.
Fontes e referências
Acadêmicas
- Marques, Francisco. “As Disputas entre Ortodoxos e Heterodoxos: O que é (e o que não é) Economia.” Dados 67, n. 2 (2024). SciELO.
- Dequech, David. “Além da Divisão entre Economistas Ortodoxos e Heterodoxos no Brasil.” Dados (2024). SciELO.
- Fernandez & Suprinyak. “Manufacturing Pluralism in Brazilian Economics.” Journal of Economic Issues (2019). Tandfonline.
- Fernandez & Suprinyak. “Applying the Concept of Mainstream Economics outside the United States: Brazil.” Journal of Economic Issues (2018). Tandfonline.
- Fourcade, Marion. “The Construction of a Global Profession.” American Journal of Sociology (2006).
- Woodford, Michael. “Convergence in Macroeconomics.” AEA Papers and Proceedings (2008).
- Singer, André. “The Failure of Dilma Rousseff’s Developmentalist Experiment.” Latin American Perspectives 47, n. 1 (2020).
- Schneider, Ben Ross. Decadent Developmentalism. Cambridge UP.
- Cavalcanti et al. “Brazil’s Economic Stagnation.” ScienceDirect (2025).
- “Historically Established, but Institutionally Secured?” Review of Political Economy (2025).
- “A economia política da Escola de Campinas.” Cadernos do Desenvolvimento.
- Presser, Mario Ferreira. “Ecletismo em Dissenso: uma comparação das propostas dos Neo-estruturalistas da PUC-RJ e dos keynesianos da Unicamp.”
- Perfil dos diretores do BCB. SciELO.
- “Entre a ortodoxia e a heterodoxia: disputa simbólica nos governos petistas.” Novos Rumos Sociológicos, UFPEL.
Institucionais e jornalísticas
- Franco, Gustavo. “Economia na PUC-Rio: notas de uma testemunha.” gustavofranco.com.br.
- “Chega ao fim a hegemonia da PUC.” economia.puc-rio.br/gfranco.
- Revista Pesquisa FAPESP. “A Escola de Campinas.”
- IREE. “Afinal, quem são os economistas da Unicamp?”
- BFI/University of Chicago. “The Case of Brazil.”
Livros
- Lisboa, Marcos; Pessoa, Samuel. O Valor das Ideias. Companhia das Letras, 2019.
- Bresser-Pereira, Oreiro, Marconi. Developmental Macroeconomics. Routledge, 2014.
- Lara Resende, André. Consenso e Contrassenso. 2020.
- Carvalho, Laura. Valsa Brasileira. Todavia, 2018.
- Cardoso de Mello, João Manuel. O Capitalismo Tardio. 1975.
Ver também
- A Velocidade da Nova República — Por Que Nenhum Consenso Se Forma — o ensaio-irmão que generaliza o argumento para a dinâmica política: por que nenhum consenso se forma no Brasil
- ordoliberalism — a síntese alemã que este ensaio usa como contraponto: o ordoliberalismo como exemplo do que o Brasil não conseguiu produzir
- neoliberalism — genealogia do pensamento econômico que PUC-Rio incorporou via MIT e Chicago e que moldou o Plano Real
- hayek — referência fundante do liberalismo econômico que informa um dos lados do debate; seus seguidores brasileiros estão em PUC-Rio e FGV
- partidos_novarepublica — a divisão política PSDB/PT que espelha e reforça a divisão acadêmica PUC-Rio/Unicamp
- A Fábrica de Conceitos — Como a Propaganda Transforma Enquadramentos em Convicções — como “liberal” foi ressignificado na América Latina: a clivagem PUC-Rio/Unicamp como caso de institucionalização de um colapso semântico