A Avalanche de Consenso — Quanto Custa Começar Uma

Em 1998, dentro de uma empresa italiana de intranets, um grupo pequeno de funcionários testou uma coreografia para fazer uma posição predeterminada parecer o resultado de um debate livre. O chefe chamava aquilo de valanga del consenso. Este ensaio parte da cena documentada — e a desmonta. A literatura de cascatas informacionais mostra que a propagação não precisa de operador nenhum; e a evidência experimental mostra que a assimetria de partida, a única coisa que a avalanche de fato exige, é minúscula, quase sempre gratuita e hoje produzida por máquina. A tese: o operador é suficiente, não necessário. O ensaio fecha no diagnóstico e mede a coisa onde o leitor brasileiro vive — na distância entre o que a caixa de comentários exibe e o que a pesquisa domiciliar mede sobre a mesma população.


I. A sala antes do fórum

Numa empresa italiana de algumas centenas de funcionários, no fim dos anos 1990, um grupo pequeno se reunia antes que a conversa começasse. A empresa se chamava Webegg, pertencia ao grupo Telecom Italia e vendia intranets corporativas a clientes; a intranet em que aquele grupo se reunia era a dela mesma. O propósito do encontro, na fórmula que um dos participantes atribui ao chefe, era decidir “cosa lanciare sulla Intranet” — o que lançar na intranet. O chefe era Gianroberto Casaleggio, tratado internamente como Roberto, e seria, uma década e meia depois, o arquiteto do maior partido da Itália.

Decidido o que lançar, a coreografia era sempre a mesma, e vale nomeá-la em vez de numerá-la, porque os nomes é que carregam o mecanismo. Havia o lançamento: um membro do grupo funcional de Intranet abria uma discussão sobre um tema. Havia a contradição: outro membro respondia com posição contrária. Havia o reforço: outros dois membros tomavam o partido do primeiro. E havia, por fim, a adesão — os funcionários comuns, que não estavam na reunião prévia e não sabiam que havia uma, iam pouco a pouco para o lado do primeiro. É a descrição de Carlo Baffè, engenheiro eletrônico bolonhês recém-contratado, no relato de Jacopo Iacoboni em L’Esperimento (Laterza, 2018), como reproduzido pelo Il Sole 24 Ore.

Havia também um refinamento, e é ele que transforma a coisa de truque em experimento. Segundo Baffè, em entrevista ao Startmag, “ogni tanto venivano inseriti nel forum rotture o rumori di fondo o distorsioni pilotate dell’opinione, testate sia sui punti di vista sostenuti dall’iniziatore della discussione, sia su quelli che lo avversavano in maniera più critica”. Ruído deliberado, injetado no fórum, e testado dos dois lados — tanto sobre a posição que se queria fazer vencer quanto sobre a que a contestava com mais força. Quem só quer ganhar a discussão não testa o efeito do ruído sobre o próprio lado. Quem está medindo, sim.

O nome da coisa era do chefe. Baffè diz que se criava “quella che Roberto chiamava ‘la valanga del consenso’” — a avalanche de consenso. E, quando a testemunha nomeia o que viu, o faz sem meios-termos: “Il giochino era molto divertente all’inizio. Ma poi mi resi conto che non era altro che un esperimento di ingegneria sociale per capire quali fossero i metodi più efficaci per manipolare le opinioni e creare il consenso. Con discussioni solo apparentemente democratiche.”

Agora os limites, que ficam aqui e não em nota, porque é deles que depende a confiança em tudo o que vem depois.

Baffè é fonte única. Não há segunda testemunha do episódio. Ele nunca falou a mais ninguém — nem antes do livro, nem depois: nenhuma entrevista a outro veículo, nenhuma manifestação posterior confirmando, matizando ou retirando o que disse. Sua ficha profissional pública, que registra a passagem pela Webegg e a carreira seguinte em empresas de tecnologia, não menciona Casaleggio. O livro de Iacoboni não foi lido no original para este ensaio — não há edição digital acessível nem excerto público do capítulo relevante —, de modo que tudo acima é citação de citação, batendo entre quatro veículos italianos independentes que reproduzem as mesmas falas.

Não se encontrou registro público de desmentido. Nem de Davide Casaleggio, nem da Casaleggio Associati, nem do Movimento 5 Estrelas, nem de qualquer ex-dirigente da Webegg. Silêncio, que não é confirmação. Houve, isso sim, retaliação — e ela foi contra a pessoa do jornalista, nunca contra o fato. Em 7 de abril de 2018, Davide Casaleggio impediu Iacoboni de entrar no SUM#02, evento anual da fundação da família, em Ivrea; a Federação Nacional da Imprensa Italiana e o Conselho da Ordem falaram em “grave discriminazione”, e o La Stampa documentou que outros jornalistas sem credenciamento entraram normalmente. Dois dias depois, Davide assumiu o veto em público, em termos pessoais: perguntou-se, disse, se o pai gostaria que ali estivesse “una persona tanto meschina”. Contestou o caráter de quem contava. Não contestou o que foi contado.

E há o que simplesmente não se sabe. Ninguém sabe quantas pessoas participavam daquele fórum. Nenhuma fonte nomeia um único tema que tenha sido submetido à coreografia — o que se fazia passar eram, na descrição de Baffè, “certe posizioni di Roberto”, e a frase não fica mais específica do que isso. Até o endereço da sala é incerto: as fontes divergem entre Milão, Bolonha e Ivrea. A empresa tinha 718 funcionários no balanço de 31 de dezembro de 2002, e é o número mais firme disponível para dar escala à cena.

O leitor sai daqui com uma palavra na boca. A palavra é manipulação. É o que se queria que ele acreditasse — por enquanto.

II. O que Casaleggio de fato descobriu

Havia doutrina por trás do experimento, e ela era anterior a ele. Simone Natale e Andrea Ballatore, num estudo acadêmico de 2014 sobre a utopia digital do Movimento 5 Estrelas, reconstroem o pensamento que Casaleggio publicava em livros e artigos desde os anos 1990, quando ainda vinha da Olivetti: uma fé no poder desintermediador da rede. Duas frases resumem o eixo, e as duas ficam no original porque a formulação é o argumento: “the web does not want intermediaries”; “the concept of ‘leader’ in the Web is blasphemy”. A rede dispensaria partidos, imprensa, sindicatos, representantes. A vontade coletiva se formaria sozinha, sem quem a interpretasse. Era uma doutrina com face pública, e não apenas interna: os vídeos Prometeus (2007) e Gaia (2008), descritos por Natale e Ballatore e não vistos para este ensaio, encenavam um futuro em que a rede dissolveria toda mídia existente e faria do homem o único dono do próprio destino.

Não é preciso ir muito longe para ver a ironia, e a ironia não é o ponto. O ponto é o que essa doutrina obriga a fazer no laboratório. Se a tese é que a rede produz consenso sem intermediário, o experimento natural não é impor uma posição — é descobrir quanta intervenção é necessária para que uma posição pareça ter emergido sem intervenção. A coreografia da Webegg não é uma técnica de convencimento. É uma medição de custo.

E há o acaso, que serve à tese mais do que a intenção serviria. Enquanto conduzia o experimento, Casaleggio estava quebrando a empresa. A Webegg deu prejuízo de €1,932 milhão em 2001 e de €15,938 milhões em 2002, sobre faturamento de €26 milhões — quase €18 milhões acumulados em dois anos. Os números vêm do levantamento do jornalista Antonio Amorosi a partir dos balanços; o Il Sole confirma o exercício de 2002. Em 2003, com a chegada de Marco Tronchetti Provera ao controle da Telecom, a saída foi involuntária: a empresa contestava os balanços, Casaleggio não concordava com as políticas do novo acionista, e o casamento se rompeu. Amorosi é mais direto: “Casaleggio viene mandato via.” Em 2004 ele fundaria a Casaleggio Associati levando quatro funcionários da Webegg consigo.

Um homem descobre uma propriedade do meio enquanto fracassa comercialmente nele. Isso não diminui a descoberta; realoca-a. O que ele encontrou não foi uma arma que ele soube empunhar melhor do que os outros — foi uma característica do terreno, que estava lá antes dele e ficou depois. O desfecho italiano confirma a assimetria. O Movimento 5 Estrelas fez 32,7% em 2018, tornando-se o primeiro partido do país; caiu a 15,4% nas legislativas de 2022 e a cerca de 10% nas europeias de 2024, o pior resultado de sua história. Em abril de 2021 Davide Casaleggio rompeu com o Movimento e retirou a plataforma rousseau; o faturamento da Casaleggio Associati passou de mais de €2,2 milhões em 2019 para €689 mil em 2021. Hoje ele é cofundador de uma empresa de plataformas de assembleia e votação digital. A técnica sobreviveu; o operador não.

Aqui é preciso trocar a palavra. Chamar aquilo de manipulação não está errado — havia intenção, havia coordenação, havia um resultado predeterminado. Mas manipulação é uma palavra sobre o operador, e o que interessa é o que ele explorou. O que a coreografia da Webegg produzia, tecnicamente, era uma assimetria no começo da fila: uma diferença mínima entre quantas vozes visíveis apoiavam a posição A e quantas apoiavam a posição B, instalada antes que os funcionários comuns chegassem. Tudo o mais — a adesão progressiva, a impressão de debate livre, o consenso final — foi produzido pelos próprios participantes, sem que nenhum deles fizesse nada além de ler e concordar.

A troca de palavra não é preciosismo de vocabulário; é a diferença entre uma história italiana e uma ferramenta de análise. Manipulação descreve uma intenção e obriga quem a usa a encontrar um culpado antes de explicar coisa alguma. Assimetria descreve uma quantidade — e quantidades se medem. Se o que a avalanche exige é uma diferença mínima entre as primeiras vozes visíveis, então a pergunta certa não é quem quis, mas quanto custa; e a pergunta passa a ter resposta, porque diferenças mínimas no começo de uma fila são exatamente o tipo de coisa que se consegue produzir em laboratório e medir com precisão.

Vale distinguir isso de um mecanismo vizinho, com o qual se confunde o tempo todo. A propaganda descrita em A Fábrica de Conceitos — Como a Propaganda Transforma Enquadramentos em Convicções opera sobre o significado: reconfigura categorias de entendimento até que o novo sentido de uma palavra pareça o único sentido possível, e o resultado é alguém que adotou um enquadramento sem perceber que ele foi produzido. A avalanche opera uma camada acima. Ela não mexe no que a frase quer dizer. Mexe no que o leitor supõe que os outros pensam da frase. Um age sobre a semântica; o outro, sobre a metapercepção. O conteúdo pode ser exatamente o mesmo; o que muda é quem falou primeiro, e quantos pareceram concordar.

O que abre a pergunta que organiza tudo o que vem a seguir. Se a avalanche exige uma assimetria de partida, e se a propagação depois disso é obra dos próprios participantes — quanto empurrão é preciso?

III. A propagação não precisa de ninguém

A resposta à pergunta anterior tem duas metades, e a segunda é a interessante. A primeira, a da propagação, a literatura resolveu há mais de trinta anos.

Em 1992, no Journal of Political Economy, Sushil Bikhchandani, David Hirshleifer e Ivo Welch publicaram a teoria das cascatas informacionais. A definição é econômica e fria: “An informational cascade occurs when it is optimal for an individual, having observed the actions of those ahead of him, to follow the behavior of the preceding individual without regard to his own information.” Traduzindo o que a definição carrega: a partir de certo ponto de uma fila, ignorar o que se sabe e imitar quem veio antes deixa de ser fraqueza e passa a ser a decisão racional. Se dez pessoas antes de você escolheram o restaurante da direita, a informação contida nessas dez escolhas é maior que a sua impressão sobre a fachada. Você entra na direita. E, ao entrar, não acrescenta informação nenhuma à fila — porque quem vem atrás não tem como saber se você entrou por convicção ou por imitação.

O ponto crítico é escandalosamente baixo. No modelo binário de referência, a cascata começa assim que alguém observa duas decisões a mais numa direção do que na outra — o que, no caso mais simples, acontece com o terceiro da fila. E a velocidade com que ela se instala não depende de os sinais privados serem bons. Os autores calculam o caso em que a informação de cada indivíduo é quase inútil, apenas infinitesimalmente melhor que uma moeda, e concluem: “Even for a very noisy signal, as when p = ½ + ε, with ε arbitrarily small, this probability after only 10 individuals is less than 0.1 percent!” A probabilidade que fica abaixo de 0,1% é a de não haver cascata. Dez pessoas em fila bastam para que quase certamente exista uma.

Repare no que isso não é. Não é medo. Ninguém, no modelo de Bikhchandani, silencia porque teme retaliação; todos estão maximizando o próprio acerto. É aderir por inferência, não calar por medo — e a distinção salva a avalanche de ser apenas um nome novo para intimidação.

Existe, é claro, a outra engrenagem. Elisabeth Noelle-Neumann descreveu nos anos 1970 a espiral do silêncio: quem percebe que sua opinião é minoritária tende a calar por medo de isolamento, o que faz a opinião dominante parecer mais dominante ainda. Timur Kuran, em Private Truths, Public Lies, mostrou o que se acumula quando isso dura — uma reserva de preferências falsificadas que faz um regime parecer sólido até o dia em que desaba. Como registrado em Quando a Janela Se Parte — Overton num Mundo Polarizado, as preferências falsificadas dentro de cada grupo funcionam como energia potencial armazenada, e a distância entre a janela aparente e a janela real é a medida da pressão no sistema. A inversão que interessa aqui é de tempo: Kuran descreve o estoque; a avalanche descreve a produção. Em Kuran, a falsificação leva anos de convivência sob um regime para se acumular. Na caixa de comentários, ela é fabricada em segundos, num leitor que ainda não tinha opinião formada e que, lendo os primeiros vinte comentários, aprende ao mesmo tempo qual é a posição do grupo e que a dele não cabe ali.

O experimento clássico da conformidade é o de Solomon Asch, e ele precisa ser citado com uma trava. Na síntese de Cass Sunstein, os números são conhecidos: em circunstâncias normais, os sujeitos erravam menos de 1% das vezes; sob pressão de um grupo que dava a resposta errada, erravam 36,8%; numa série de doze perguntas, nada menos que 70% cederam ao grupo pelo menos uma vez, contra a evidência dos próprios sentidos. Três achados laterais importam mais do que o número principal. O tamanho da maioria só pesa até três: a oposição de uma pessoa não aumenta o erro em nada, a de duas leva a 13,6%, a de três a 31,8%, e daí em diante o acréscimo é pequeno. Um único aliado — uma só voz discordante na sala — reduz os erros em três quartos, mesmo com maioria forte do outro lado. E o erro despenca quando a resposta é dada em privado: a divergência entre o que se pensa e o que se diz não precisa de história, precisa de plateia.

A trava é esta, e é dura: a maioria da sala de Asch era composta de comparsas do experimentador. Era fabricada. Asch prova que a fabricação funciona, que três vozes bastam para estabelecer a direção, que um aliado desmonta quase tudo e que a plateia amplifica. Não prova coisa alguma sobre espontaneidade, e usá-lo para isso seria inverter o desenho do experimento.

Por que uma minoria mínima consegue ocupar o espaço inteiro é uma pergunta separada, e tem resposta empírica. Alexander Bor e Michael Bang Petersen, em oito estudos, encontraram algo contraintuitivo: estar online não torna a maioria das pessoas mais agressiva. O que a rede faz é permitir que um número pequeno de pessoas agressivas alcance um número muito maior de vítimas. E bastam poucas para dominar um fórum, porque — esta é a parte que importa — os não-agressivos simplesmente saem da conversa. Chris Bail acrescenta a escala: a maioria esmagadora dos usuários publica muito menos do que se imagina, e apenas uma fração dos que publicam trata de política, de modo que o discurso político que se analisa nas redes talvez venha de menos de 5% ou 6% dos usuários. A rede, na formulação dele, não é o espelho que se supõe: é um prisma, que distorce identidades, dá poder a extremistas em busca de status e torna os moderados praticamente invisíveis.

Resta a objeção mais razoável a tudo isso: Asch é um recinto fechado, com gente que se olha na cara. E aí entra o experimento mais desconfortável da série. Lisa Anderson e Charles Holt, na American Economic Review de 1997, levaram a cascata para o laboratório: 72 sujeitos ao todo, 36 em cada um de dois desenhos, sentados em assentos separados por divisórias de espuma que se estendiam um metro além da mesa de cada lado e que, nas palavras do paper, isolavam efetivamente os participantes. Cada um recebia um sinal privado — uma bolinha tirada de uma urna — e anunciava apenas a previsão, nunca o sinal. Dois dólares por acerto, nada por erro. Nenhuma reputação a construir, nenhum rosto a agradar, incentivo puro para acertar. Resultado: cascatas em 87 de 122 períodos possíveis, cerca de 71%. E, em torno de um terço delas, cascatas reversas — sequências em que sinais iniciais pouco representativos travam a fila numa conclusão errada que sinais melhores, recebidos depois, não conseguem quebrar.

Ou seja: a conformidade não depende de sala, de plateia, de identidade nem de medo. Depende de ordem de chegada.

O que leva ao degrau que o modelo clássico não desceu. Em Noelle-Neumann, a percepção do clima de opinião vinha do monitoramento contínuo da vida social — lento, distribuído, feito de muitos sinais fracos, e pago com a moeda de conviver com as pessoas cujas opiniões se estava lendo. Na caixa de comentários, ela vem de outro lugar. Muda o tempo: forma-se na leitura dos primeiros comentários, em segundos, não em semanas. Muda a fonte: não é a sociedade que a pessoa habita, é uma lista ordenada por um critério de máquina que ela não conhece. E muda a amostra: quem escreve na caixa não é quem lê. Nada disso é nostalgia — o clima de opinião dos anos 1970 também era distorção, e a espiral do silêncio foi descrita justamente para explicar por quê. O que mudou foram a velocidade, a fonte e a amostra. Não a existência da distorção.

Convém fixar uma frase, porque ela volta no fim: a ordenação distorce a percepção do tamanho, não a do mérito. Nada em Asch, em Sunstein, em Kuran ou em Bikhchandani é sensível ao conteúdo do que se propaga. “Are social cascades good or bad?”, pergunta Sunstein, e responde que nenhuma resposta geral faria sentido.

E há uma propriedade técnica do modelo que fica registrada aqui sem que se tire dela nenhuma consequência, porque a consequência pertence ao fim deste ensaio. A cascata é rasa. Uma vez começada, as adesões seguintes não carregam informação nova — “once a cascade has started, further adoptions are uninformative” —, de modo que ela congela para sempre o que se sabia no nível dos dois ou três primeiros da fila, por mais milhões que venham depois. Os autores registram a consequência numa frase de três palavras: “Thus conformity is brittle.”

Sobre a propagação, portanto, não sobra mistério. Ela roda sozinha, entre estranhos, sem medo, sem operador, e trava com facilidade em conclusões erradas. Sobra exatamente uma coisa por explicar: a partida.

IV. A assimetria é barata, e frequentemente gratuita

Em 2013, na Science, Lev Muchnik, Sinan Aral e Sean Taylor publicaram um experimento que responde à pergunta com uma precisão quase indecente. Combinaram com um agregador de notícias — um site com sistema de votos em comentários, jamais identificado publicamente e que não convém adivinhar — a randomização de todo comentário novo submetido durante 163 dias. Não o primeiro comentário de cada post: todo comentário, no nível do comentário. Quatro por cento nasciam exibindo escore +1; dois por cento nasciam exibindo −1; o resto era controle. As proporções imitavam as taxas naturais do site. Um voto arbitrário, gerado por sorteio, colado no comentário no instante em que ele passava a existir.

O material são 101.281 comentários, vistos mais de dez milhões de vezes e avaliados 308.515 vezes. Como o conteúdo era idêntico em expectativa — a randomização garante que os tratados e os controles não diferiam em qualidade —, tudo o que separa os grupos é aquele voto único.

A semente positiva aumentou em 32% a probabilidade de o primeiro visualizador votar a favor. O número é relativo e sobre base pequena: a taxa de controle era de cerca de 5,4%. Mas o efeito não parou aí, e é aí que a coisa importa. Ninguém corrigiu: os comentários com semente positiva não receberam mais votos contrários que os do controle. Na ausência de correção, o herding — a imitação em cadeia — foi se acumulando, e a nota final média subiu 25%. Comentários que nasceram com um voto sorteado a favor tinham 30% mais chance de terminar com escore igual ou superior a dez. Cinco meses de conversa pública, e a diferença entre um comentário celebrado e um comentário esquecido é um bit instalado no primeiro segundo.

A semente negativa é o achado que dá ao anterior a sua forma exata. Ela também produziu herding negativo, mas foi anulada por uma correção maior: os visualizadores seguintes votaram a favor dos comentários injustamente rebaixados com força suficiente para que a nota final média ficasse estatisticamente indistinguível do controle. O empurrão para baixo não sobrevive. O empurrão para cima sobrevive porque ninguém o corrige. Nas palavras dos autores, “the results from our experiment are created by very subtle manipulations.”

E vem a qualificação, que aparece de graça no mesmo paper e que protege a tese contra a versão ambiciosa demais de si mesma. O herding é dependente de tópico. Foi significativo em política, em cultura e sociedade e em negócios; foi nulo em economia, tecnologia da informação, humor e notícia geral. A diferença não se explica por volume de atividade — não é que uns tópicos tenham mais gente. E não houve herding negativo significativo em categoria nenhuma. Ou seja: a avalanche só desce em terreno já inclinado, e só desce para o lado da aprovação. Isso não derruba nada. Refina — e uma teoria que exclui casos é uma teoria.

Há um segundo modo de a assimetria ser gratuita, e ele dispensa até o voto sorteado: quem comenta não é quem lê. Jin Woo Kim, Andrew Guess, Brendan Nyhan e Jason Reifler mediram isso com um desenho engenhoso. Rasparam 6.485.910 comentários em 11.305 posts das páginas de 33 veículos americanos, e em paralelo pediram a uma amostra nacional de 2.200 pessoas que escrevesse comentários sobre os mesmos artigos — inclusive a quem dizia que nunca comentaria, o que é o que fabrica o contrafactual. Comentaristas frequentes são de fato diferentes: mais interessados em política por margens de 12 a 24 pontos percentuais, mais partidários, mais polarizados afetiva e ideologicamente.

Mas o número que circula precisa ser desmontado antes de ser usado. A toxicidade média dos comentários reais do Facebook (0,330) supera em 77% a dos comentários escritos pela amostra nacional (0,186) — e esses 77% não são o efeito da autosseleção. São a soma de tudo: quem aparece, a plataforma, o anonimato relativo, a audiência, o incentivo da curtida, a presença dos comentários anteriores. A autosseleção, medida isoladamente, com comentaristas frequentes e não-comentaristas escrevendo na mesma condição, é a diferença entre 0,23 e 0,18 — cinco centésimos. O próprio paper diz “slightly more toxic”. A formulação honesta é esta: a autosseleção entrega direção, não magnitude.

O experimento de contágio embutido no mesmo estudo entrega a segunda ressalva, e ela também corta contra a versão fácil da tese. Mostrar aos respondentes os dois comentários mais curtidos do post — exatamente os que o algoritmo destacava à época — não teve efeito nenhum sobre a disposição de comentar. E o efeito sobre a toxicidade não é linear: comentários relativamente civis não produzem efeito significativo. Só o extremo contagia. A exposição aos piores do acervo, com toxicidade próxima de 0,9, eleva a toxicidade do respondente de 0,21 para 0,33 — meio desvio-padrão. Não basta um pouco de tom ruim no começo da fila. A assimetria precisa ser forte para pegar.

Fica então a pergunta empírica: existe avalanche sem operador nenhum? A resposta honesta exige um caso em que a perícia tenha sido feita e tenha voltado negativa — não um caso em que ninguém olhou. Há dois.

O primeiro é o GameStop, em janeiro de 2021. A Securities and Exchange Commission publicou em outubro daquele ano um relatório com o que ninguém mais tem: o Consolidated Audit Trail, o registro de ordens conta a conta de todo o mercado acionário americano. A conclusão sobre o mecanismo de preço foi que a alta não se sustentou pela cobertura de posições vendidas — “it was the positive sentiment, not the buying-to-cover, that sustained the weeks-long price appreciation of GameStop stock” —, e a equipe não encontrou evidência de gamma squeeze. O número que interessa aqui, porém, não é de preço: é de gente. O número de contas únicas negociando GME num dia passou de menos de dez mil, no começo do mês, para quase 900 mil em 27 de janeiro, com um degrau de 9.220 para 60.515 num único dia, 13 de janeiro. E a assimetria de partida havia sido um fato público e gratuito, meses antes: o anúncio, em agosto de 2020, de que o cofundador da Chewy tinha comprado participação na empresa — notícia que fez a ação subir 23,93% num dia.

Os limites do documento têm de ser ditos: é um estudo de estrutura de mercado, não uma perícia de manipulação; a palavra “manipulate” aparece essencialmente uma vez no texto inteiro, e a respeito de outra coisa. A SEC derruba a hipótese do operador financeiro. Não certifica ausência de operador de rede. Há também contraditório acadêmico à conclusão dela sobre o mecanismo de preço — um grupo de professores sustenta que pode ter havido tanto short squeeze quanto gamma squeeze —, e vale registrar que esse contraditório não contesta a ausência de operador; contesta a física do preço.

O operador de rede foi tratado por outra fonte. No depoimento escrito de Steve Huffman ao comitê de serviços financeiros da Câmara dos Deputados americana, em 18 de fevereiro de 2021, há uma seção intitulada, com todas as letras, “Authenticity Investigation”: “We have since analyzed the activity in WallStreetBets to determine whether bots, foreign agents, or other bad actors played a significant role. They have not. In every metric that we checked, the activity in WallStreetBets was well within normal parameters.” Os limites, de novo: o Reddit é parte interessada, “every metric that we checked” nunca foi detalhado em lugar nenhum, e a apuração cobre só o Reddit, enquanto as alegações de coordenação apontavam para outras plataformas. Ainda assim, é uma perícia negativa que existe porque alguém foi intimado a depor.

O segundo caso é metodologicamente mais fino, e é o melhor deste ensaio. Em 2020, o jogo The Last of Us Part II sofreu um review bombing — enxurrada de notas mínimas por motivo ideológico — que, segundo a cobertura jornalística da época, teve coordenação prévia. Em seguida veio uma contra-bomba, de sentido oposto, sem coordenação conhecida. Um estudo raspou 65.466 resenhas em duas rodadas separadas por seis meses, para reconstruir o histórico de cada conta. O achado: cerca de 80% dos usuários envolvidos nunca haviam avaliado nada antes nem voltaram a avaliar depois — sem diferenças relevantes entre as duas facções. Riqueza lexical semelhante dos dois lados. Opiniões antitéticas, comportamento idêntico.

Dos quatro sinais que qualquer perícia de coordenação examina — pico anômalo de timing, idade e histórico das contas, repetição de fraseado, grafo de coordenação —, dois deram positivo neste caso. E a conclusão ainda foi de não-coordenação, porque o sinal aparecia simetricamente nas duas trincheiras, e operador não opera as duas. Daí a lição, que é a mais útil do ensaio inteiro: os indícios que fazem todo mundo gritar “é robô” — conta nova, pico súbito, texto pobre — são também o que a espontaneidade produz.

Vale reparar por que casos assim são raros, porque a raridade não é sobre o mundo, é sobre o arquivo. Perícia que volta negativa quase nunca é publicada. Os relatórios de comportamento inautêntico coordenado das plataformas publicam, por desenho, apenas os episódios em que se achou alguma coisa; não existe registro público das apurações que voltaram vazias, e não se localizou nenhum documento em que Meta, Google ou X tenham divulgado perícia sobre um episódio específico com resultado negativo. A academia tem o mesmo viés pela outra ponta: estuda-se o episódio que já parecia coordenado. O corpus disponível ao mundo não é uma amostra; é a coleção dos positivos — e por isso superestima sistematicamente a prevalência do operador. Os dois casos acima existem porque alguém foi obrigado a falar: o Reddit porque foi intimado a depor, a SEC porque um escândalo político exigiu relatório. Fora da intimação, o silêncio sobre o negativo é a regra.

Este argumento tem dois gumes, e os dois valem. Ele é a razão mais forte para desconfiar de que o operador seja tão frequente quanto parece. E é, exatamente pelo mesmo motivo, a razão pela qual a ausência de operador não pode ser contada nem certificada. O que nos leva ao freio, que fica aqui dentro e não em nota.

Nada do que está acima autoriza dizer, de nenhuma avalanche concreta, que ela não teve operador. Distinguir orgânico de operado num caso específico é perícia — timing, idade de conta, repetição de fraseado, grafo —, não teoria. Operadores existem e operam. No Brasil estão documentados em denúncia do Ministério Público, que descreve material produzido por uma célula de contrainteligência e repassado a “vetores de propagação em redes sociais (perfis falsos e perfis cooptados)”, e trata da estratégia típica das “milícias digitais” de disseminação contínua de informação falsa com ataques pessoais aos alvos. E a única análise empírica brasileira de uma caixa de comentários específica disponível na literatura — o estudo de Richard Miskolci sobre o cancelamento ocorrido na página da ANPOCS no Instagram em novembro de 2023 — afirma haver operador, atribuindo a origem a um conjunto articulado de pessoas e a um empreendedor moral. É o mesmo estudo, aliás, que descreve a parte sem operador dentro do caso com operador: o cancelamento pune diretamente alguns e cala outros que, acuados e com medo de se tornarem o próximo alvo, deixam de se manifestar — “o que garante um contexto de aparente concordância sobre o que se passa”.

O ensaio afirma o que o mecanismo dispensa, não o que o caso teve. E o que o mecanismo dispensa é o seguinte: o operador é suficiente, não necessário.

O que devolve Ivrea a uma luz diferente. A descoberta de Casaleggio nunca foi sobre poder. Era sobre preço. Em 1998, fabricar a assimetria inicial custava uma reunião prévia e quatro funcionários. O que se aprendeu desde então é que, na maior parte das vezes, ela é gratuita.

V. A caixa como máquina de ordenação

Se a assimetria de partida é o único insumo escasso, a pergunta seguinte é quem a fornece hoje. Antes de responder, é preciso desmontar o número fácil — porque a versão popular da resposta está errada, e a versão correta é mais útil.

O estudo mais citado sobre efeito de comentários hostis é o de Ashley Anderson, Dominique Brossard, Dietram Scheufele, Michael Xenos e Peter Ladwig, publicado em 2014 e conhecido pelo apelido que os autores lhe deram: o nasty effect. O desenho é elegante. Uma amostra probabilística de 2.338 pessoas — recrutada por probabilidade, não por adesão voluntária, o que faz a representatividade valer — leu um post de blog deliberadamente neutro sobre nanopartículas de prata, com riscos e benefícios equilibrados, seguido de uma caixa de comentários manipulada. A subamostra analisada foi de 1.183 leitores. E o detalhe que faz o estudo funcionar: os comentários civis faziam exatamente o mesmo argumento que os incivis, em linguagem polida. O conteúdo argumentativo é constante. Só o tom varia.

O achado que circula é que comentários grosseiros fizeram as pessoas acharem a tecnologia mais perigosa. Não foi o que aconteceu. O efeito da civilidade sobre a percepção de risco foi de β = −.04, não significativo, estável nos seis modelos do paper. A primeira hipótese dos próprios autores não foi confirmada — e eles dizem isso em voz alta: “Our findings did not demonstrate a significant direct relationship between exposure to incivility and risk perceptions.”

O que existe é outra coisa, e é pequena. Há polarização condicionada à predisposição prévia: expostos ao tom incivil, quem já apoiava a tecnologia passou a relatar risco mais baixo, e quem apoiava menos passou a relatar risco mais alto (β = .09); o mesmo padrão aparece em relação à religiosidade (β = −.07). O bloco inteiro de interações explica 1,0% da variância — os menores coeficientes significativos do modelo, três vezes menores que o efeito do apoio prévio.

Isso é menos do que se queria e melhor do que se esperava. A incivilidade abre a distribuição sem mexer a média. O tom não convence ninguém — endurece cada um no que já era. E é justamente esse achado que casa com a tese deste ensaio, porque a avalanche nunca foi uma teoria da persuasão. O elo entre a caixa e a opinião pública não passa por convencer. Passa por duas coisas: a metapercepção — a caixa não muda o que você acha do texto, muda o que você supõe que os outros acham — e o endurecimento de quem já tinha lado. A primeira é o degrau descrito no movimento anterior: tempo, fonte e amostra. A segunda é o que o nasty effect mede de verdade.

Falta a ponte entre a caixa e a máquina, e ela está num achado lateral do estudo de Kim e coautores, sobre os quase 6,5 milhões de comentários raspados: as curtidas crescem com a toxicidade até cerca do percentil 80 da distribuição, e só depois caem. O escore de toxicidade correspondente ao percentil 80 é 0,53 — o que significa, na escala do instrumento usado, que os comentários mais populares são aproximadamente aqueles que metade dos codificadores humanos classificaria como rudes, desrespeitosos ou capazes de fazer alguém abandonar a conversa. O padrão é consistente em todo o espectro e mais forte em veículos partidários. E popularidade é, por declaração das próprias plataformas, um dos sinais que alimentam o ranking dos comentários.

Como as três grandes caixas ordenam é, hoje, uma questão de leitura de documentação corporativa — e o achado não é que tudo seja opaco. É a assimetria da opacidade. A Meta publica documentos dedicados ao ranking de comentários, um para o Instagram e outro para o Facebook. O YouTube não publica nada: sua página de ajuda informa que os comentários são ordenados por “mais relevantes” por padrão, que o dono do canal pode trocar o padrão, e não explica o algoritmo nem os critérios. A caixa que mais interessa — o Instagram — é justamente a mais documentada. Só que a documentação para exatamente onde começaria a auditoria.

O sistema do Instagram é descrito em três etapas: exibição prioritária (seus próprios comentários, os de amigos e os fixados pelo autor), pontuação e filtragem. Os sinais que o modelo tenta prever estão declarados: a probabilidade de o comentário ser reportado; a probabilidade de você responder ao comentário ou a uma resposta dele; a probabilidade de você rolar a tela sem ler; a probabilidade de você curtir; a probabilidade de o autor apagar uma resposta. Sinais em nível de categoria, nunca de peso. Nenhuma plataforma publica pesos, e nenhuma alegação de peso relativo de terceiros apresenta metodologia verificável.

E a plataforma diz por que não publica: “These models and their input signals are dynamic and they change frequently as the system learns and improves over time.” A frase é tecnicamente honesta e politicamente confortável, e as duas coisas ao mesmo tempo. A opacidade é estrutural, não editorial — mesmo que os pesos fossem publicados hoje, estariam vencidos amanhã. O que não a torna menos opacidade.

Dois detalhes valem mais que o resto. O primeiro: entre os sinais oficiais do ranking está a probabilidade de você responder ao comentário. O sistema está otimizado para produzir resposta — o que é, literalmente, a mecânica da avalanche: o que sobe é o que faz o próximo escrever. O segundo está na documentação do Facebook, que oferece ao usuário a possibilidade de desligar o ordenamento algorítmico dos comentários. A frase que descreve o alcance dessa opção é a mais eloquente do conjunto: “This personalized order is only available for comments on Page posts and profiles with a large number of followers.” Quem tem audiência não tem o botão.

Some-se tudo. A assimetria inicial — quem aparece no alto da caixa, e portanto quem define a fila que os outros vão ler — é hoje produzida por máquina, segundo regra que a plataforma descreve mas não especifica, otimizada para produzir resposta, correlacionada com toxicidade até o percentil 80, e que nem o autor da peça pode auditar. A avalanche ganhou um operador que não é pessoa e não responde a ninguém.

VI. A avalanche brasileira

Tudo o que veio até aqui é importado, e importado como direção, não como magnitude. O que existe de brasileiro não é experimento — é o instrumento que mede a população, e ele basta para o que este ensaio precisa fazer no fim: comparar.

Em 2025, a More in Common encomendou à Quaest o maior levantamento de segmentação política já feito no país: 10.002 entrevistas presenciais domiciliares, brasileiros de 16 anos ou mais, campo entre 22 de janeiro e 12 de fevereiro de 2025, margem de erro de ±1,0 ponto percentual, questionário de 168 itens, dois pré-testes de mil respondentes cada e treze grupos focais. O resultado divide o país em seis segmentos. Nas pontas, os dois grupos militantes: Progressistas Militantes, 5%; Patriotas Indignados, 6%. Somam 11% da população. No meio, dois segmentos grandes e não polarizados — Desengajados, 27%, e Cautelosos, 27% — que o relatório chama de invisíveis e que somam 54%.

O contraste que interessa não é o de tamanho. É o de comportamento. Compartilhar notícias políticas é hábito de 38% dos Progressistas Militantes e de 29% dos Patriotas Indignados, contra 8% dos Cautelosos e 3% dos Desengajados. No ato de publicar, a razão entre o polo mais vocal e o segmento mais silencioso passa de doze para um. Conversar sobre política com família e amigos: 69% e 47% nos polos, 17% e 9% nos invisíveis. O relatório descreve o efeito sem usar o nome técnico: a mobilização nas redes funciona como amplificação da voz dos grupos já engajados, enquanto os segmentos não polarizados se retraem — o que reforça a percepção de que o debate é agressivo e extremista e leva mais gente ao silêncio.

Onze por cento da população escrevem; cinquenta e quatro por cento não escrevem. A caixa exibe o inverso da população.

Uma honestidade sobre o instrumento, porque ela é o achado e não a desculpa: não existe, nas 168 questões, nenhuma pergunta que peça a razão de não se manifestar. As baterias declaradas são de polarização afetiva, fundamentos morais, populismo e necessidade de caos. Nenhuma bateria de espiral do silêncio, nenhuma pergunta de autocensura. A pesquisa mede o quanto com precisão de ±1 ponto e não mede o porquê. A ausência da pergunta é, ela própria, um dado sobre o que os instrumentos brasileiros ainda não perguntam.

O que existe no lugar é o depoimento. Nos grupos focais, uma mulher de 41 anos, de Recife, classificada como Desengajada, descreve o mecanismo inteiro sem nomeá-lo: “As pessoas querem que você tenha uma posição, obrigam você a ter essa posição. E, se tiver três ou quatro pessoas que são petistas, quer que a gente siga essa manada. E se a gente pensar diferente… Isso deixa a gente extremamente sem democracia de escolha.” E, adiante: “Eu nem sou 100% a favor de Lula, nem sou 100% a favor de Bolsonaro. Para mim, teria que existir a terceira via, mas é como se fosse obrigada a ter que ir junto porque, se você pensar de outra forma, você, sozinha, não dá jeito. Você sozinha dá jeito como?” Três ou quatro pessoas. É exatamente o número de Asch — a maioria que estabelece a direção e a partir da qual acrescentar vozes não acrescenta efeito.

O instrumento também mede o que a caixa não tem onde escrever. Como registrado em perfil_eleitor_nem_nem, o marcador mais preciso de moderação no eleitorado brasileiro é a nota “regular” ao governo: 32% entre os que não têm preferência partidária, o dobro da média nacional — desaprovação com nuance, não raiva. E, entre os independentes da Quaest, a rejeição a Lula e a Flávio Bolsonaro é idêntica, 64% e 64%. A caixa de comentários só tem dois lugares, ótimo e péssimo. A rejeição simétrica é a assinatura estatística de um eleitor que ela não consegue representar — não porque o silencie por hostilidade, mas porque não existe a forma gramatical em que ele caberia.

Há um traço brasileiro que qualifica a tese em vez de confirmá-la, e ele merece ser dito contra o próprio argumento. Existe aqui uma camada privada anterior à caixa pública que a Itália de 1998 não tinha: o WhatsApp, com penetração praticamente universal e fonte de notícia para cerca de 36% da população. Mas essa camada tem dono. Como fonte primária de informação política, o WhatsApp é fortemente assimétrico — 1,3% num polo, 10,5% no outro —, e os Patriotas Indignados se informam por ele em 58% dos casos, um dos únicos segmentos em que o mensageiro compete com a televisão. Dois terços dos eleitores declararam ter recebido notícia falsa por WhatsApp em 2018, e há registro de contratação de equipes profissionais de análise de rede operando em paralelo às campanhas oficiais. No Brasil, portanto, a semente é frequentemente plantada num ambiente que a caixa pública nem enxerga — e que, ao contrário da caixa, com frequência tem operador. Isso não confirma a tese. Qualifica.

Os limites, sem eufemismo. Não existe estudo brasileiro sobre caixas de comentário — a busca foi feita e o resultado é este. Existe literatura brasileira sobre comentários em portais e em perfis políticos, mas nenhum desenho experimental que meça efeito causal de comentários hostis sobre a percepção do leitor, e nenhuma replicação ou sequer citação do nasty effect em português. Nenhum dos estudos experimentais deste ensaio é do Instagram: são de Facebook, de um agregador não identificado, de blog científico e de laboratório. A caixa que mais importa não tem literatura. E os tamanhos de efeito importados, de amostras americanas, em outra língua, em outro período, valem como direção — não como magnitude.

Há também um risco no próprio conceito, e ele precisa ser nomeado antes do fim. Quem passa a usar a avalanche como trava de leitura — como explicação pronta para toda reação negativa que recebe — corre o risco de descartar a crítica que estava certa. O mecanismo funciona exatamente igual quando a maioria silenciosa concorda com os barulhentos, e nada em Asch, em Bikhchandani, em Sunstein ou na More in Common é sensível ao mérito da posição que se propaga. Asch mostrou que se pode fazer alguém chamar branco de preto; o mesmo mecanismo faria alguém chamar preto de preto. A trava não distingue volume de mérito, e usá-la como se distinguisse é transformar uma descrição em álibi.

Contra isso, e contra a acusação mais séria que se pode fazer a uma tese assim — a de que ela explica tudo e não proíbe nada —, valem duas coisas. A primeira já apareceu: a dependência de tópico do experimento de Muchnik proíbe casos. Não há herding em economia, em tecnologia, em humor, em notícia geral; e não há herding negativo em lugar nenhum. A segunda é a condição de falseamento, e é a coisa mais generosa que uma tese pode oferecer. A avalanche prevê uma divergência específica e mensurável entre o que a caixa exibe e o que um instrumento probabilístico mede sobre a mesma população. É a divergência que é prova — não a hostilidade. Onde caixa e pesquisa concordam, a caixa estava certa, e a tese perdeu aquele caso.

O que dá o fecho.

A caixa e a pesquisa medem a mesma população e discordam. Onze por cento contra cinquenta e quatro; trinta e oito por cento contra três; um instrumento que encontra um terço do eleitorado num “regular” que praticamente nunca aparece escrito. A discordância é o tamanho da avalanche.

E o tamanho é a única coisa que ela mede. A ordenação distorce a percepção do tamanho, não a do mérito — nada no mecanismo sabe qual dos lados tem razão, e a mesma fila que faz uma tolice parecer consenso faria o mesmo por uma verdade.

Resta a propriedade que ficou registrada no meio deste ensaio sem consequência tirada, e que agora pode ser tirada. A cascata é rasa. Uma vez começada, as adesões seguintes não carregam informação nova — ela congela o que se sabia no nível dos dois ou três primeiros da fila, por mais milhões que venham depois. E é por isso que basta pouco para estilhaçá-la: no modelo de Bikhchandani, Hirshleifer e Welch, um sinal público menos informativo que o sinal privado de um único indivíduo derruba uma cascata longa, porque a informação nova só precisa cancelar o último sinal anterior ao início — mesmo que milhões tenham imitado desde então. Não é uma receita. É uma propriedade do objeto, e ela diz o seguinte:

O tamanho da avalanche não é a medida da força que a sustenta.


Ver também