Como Se Desmonta uma Polarização — A Porta de Saída, o Espelho Recusado e o Brasil de 2026

Literatura: Jennifer McCoy e Murat Somer, Bonnie Meguid e a pesquisa sobre partidos diante da direita radical, Laura Gamboa, Andrés Miguel Rondón, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, Marcos Nobre. Casos: os Estados Unidos de McCarthy, a Finlândia do Lapua, a Bélgica do Rex, o Brasil de 1945–64 e de 1984–85, a Venezuela, a Colômbia, Istambul, a Turquia, a Hungria, a Polônia, a Áustria, a França, a Alemanha, a Itália e o Chile.

Em 12 de abril de 2026, Viktor Orbán reconheceu a derrota na mesma noite da eleição. O Tisza, de Péter Magyar, fez 53,18% dos votos de lista e ficou com 141 das 199 cadeiras do Parlamento húngaro, acima dos dois terços. O Fidesz caiu para 38,61% e 52 cadeiras. O comparecimento, de 78,99%, foi o maior desde 1990. Magyar não veio da velha oposição liberal nem da esquerda. Foi quadro do Fidesz e rompeu com o partido em 2024, no escândalo do indulto que derrubou a presidente Katalin Novák. Dezesseis anos de um dos regimes mais estudados da erosão democrática caíram nas mãos de alguém que falava a língua do próprio regime.

Seis meses depois, em 4 de outubro, o Brasil votou no primeiro turno presidencial. Flávio Bolsonaro terminou com 47,03% dos votos válidos, cerca de 56,1 milhões. Lula ficou com 45,16%, cerca de 53,9 milhões. A diferença foi de 2,22 milhões de votos. Na semana seguinte, Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Ratinho Júnior e Michel Temer anunciaram apoio a Flávio no segundo turno, marcado para 25 de outubro. A direita que não é bolsonarista, e que tinha nome, governo e voto próprio, foi para o lado do filho de Bolsonaro.

Os dois fatos ficam em lados opostos de uma mesma pergunta, que circula entre cientistas políticos desde que a direita radical populista virou força de governo em boa parte do Ocidente: como uma polarização desse tipo se desfaz? E o que os casos em que ela se desfez, ou quase, dizem do Brasil?

A resposta que este ensaio sustenta cabe num parágrafo. Polarização com a direita radical não se desmonta de fora. Cercar a contém, absorver a normaliza, ganhar dela na urna adia. Ela se desmonta de dentro da própria direita, quando a ala moderada ganha vida própria, e para isso precisa de duas coisas: uma porta de saída que não a obrigue a trocar de identidade, e um outro lado que não lhe devolva o espelho. Isso é raro, quase sempre parcial e sempre cobra um preço. O Brasil de outubro de 2026 está do lado oposto ao da Hungria, porque a direita moderada escolheu alinhar-se. Por isso a via brasileira provável não é o racha nem a conversão do eleitor. É a coadaptação pemedebista, que contém e não desmonta. Se houver racha, o padrão histórico diz que ele virá de dentro da direita e por cálculo de sobrevivência, não por virtude.

O percurso começa pela raridade, que é o dado mais duro de todos. Passa pelo centro que não existe do jeito que se imagina e pelo que a evidência diz de cercar ou absorver a direita radical. Monta três padrões a partir de casos históricos e contemporâneos, e depois mostra o Brasil desmentindo o primeiro deles. Termina no precedente brasileiro de 1964, em que a porta existiu e foi aberta pelo lado errado, e no preço que toda saída cobrou.


O problema da raridade

Antes de perguntar como uma polarização se desmonta, convém saber quantas se desmontaram. A resposta mais sólida vem de um working paper do Carnegie Endowment publicado em maio de 2022, assinado por Jennifer McCoy, Benjamin Press, Murat Somer e Ozlem Tuncel. Eles usaram a base do V-Dem, que mede a polarização política de cada país numa escala de 0 a 4, e trataram os níveis 3 e 4 como polarização perniciosa.

O conceito tem dono e definição. McCoy, Tahmina Rahman e Somer, num artigo de 2018, descrevem a polarização perniciosa como o processo em que as diferenças cotidianas de uma sociedade, de classe, religião, região, gosto, vão se alinhando num único eixo de “nós contra eles”. O problema não é haver discordância forte sobre impostos ou costumes. É todas as discordâncias passarem a coincidir, de modo que saber o voto de alguém já diz a igreja, o bairro, a opinião sobre vacina e o canal de notícias. Quando isso acontece, o adversário deixa de ser adversário e vira ameaça.

Entre 1900 e 2020, a equipe do Carnegie encontrou 211 episódios de polarização perniciosa. Desses, 105 tiveram algum episódio de despolarização, definida como queda de pelo menos 0,4 ponto na escala e cinco anos abaixo do nível pernicioso. Metade, portanto, nunca voltou abaixo da linha ou é recente demais para julgar.

O detalhe que muda tudo está em como essas 105 despolarizações aconteceram. “Nearly three-quarters of the depolarization episodes came after such systemic disruptions”, escrevem os autores. Os choques sistêmicos são de quatro tipos: 36 casos vieram depois de mudança de regime, 24 depois de conflito armado, 15 depois de independência nacional e 3 por intervenção estrangeira. A maior parte das sociedades que deixaram de ser perniciosamente polarizadas deixou porque o regime caiu, porque houve guerra ou porque o país nasceu de novo. Isso não é receita que alguém deseje.

O número que importa para uma democracia é menor ainda. Dentro de uma democracia eleitoral houve sete episódios de despolarização. Dentro de uma democracia liberal, nenhum. Os sete são a Colômbia de 2009 a 2013, que não se sustentou, Chipre, a França de 1914 a 1918, Malta de 1989 a 1993, a Mongólia de 2008 a 2012 e o Senegal em dois momentos, de 1994 a 1998 e de 2012 a 2016. A França de 1914 é a união sagrada da Primeira Guerra, que também é choque. Sobra muito pouco.

Quando a despolarização veio dentro de uma democracia, veio por poucos caminhos. Partidos que fecharam um acordo entre si. Uma eleição contestada que foi resolvida. Um líder polarizador que perdeu nas urnas. E há um caminho sem virtude nenhuma, que os autores registram com franqueza: às vezes um lado simplesmente vence e se torna dominante. A polarização cai porque deixou de haver dois lados com força comparável. Nas autocracias fechadas, o caminho é o mais simples de todos, e o pior: o espaço político se fecha e a oposição é reprimida.

A durabilidade é o segundo golpe. Dez anos depois do episódio, 46% das despolarizações se sustentaram, 32% ficaram “geridas”, isto é, oscilando perto do limite sem voltar ao pior, 15% não se sustentaram e 7% são indeterminadas. No longo prazo, 39 de 82 casos sustentados ou geridos voltaram ao nível pernicioso. A frase dos autores é curta: “Only a fraction (14 percent) of cases resulted in sustained depolarization over the long term.” A Hungria aparece na lista como caso gerido entre 1989 e 1993, que repolarizou a partir de 2010. A Turquia, como caso gerido depois do golpe de 1980, perniciosa de novo desde 2002.

Em novembro de 2024, num artigo para a Bloomberg, McCoy resumiu a base para o público e acrescentou uma lista que interessa diretamente aqui. Há dez democracias que convivem com polarização perniciosa crônica sem ter caído no autoritarismo, “até agora”. Entre elas estão a Argentina, a Bósnia e o Brasil. Entre as democracias desde 1950, 52 chegaram ao nível pernicioso e metade sofreu erosão, a maior parte até o autoritarismo. O Brasil está no grupo que ainda não caiu.

Duas observações dos próprios autores precisam acompanhar esses números. A primeira é que os padrões são descritivos, não causais. Saber que a maioria das despolarizações veio depois de choques não diz que choques despolarizam; diz que, sem eles, a coisa é rara. A segunda é a recomendação que fecha o paper: estudar “strategies of managing polarization at moderately high levels”. O objetivo realista, para um país como o Brasil, talvez não seja zerar a polarização. É geri-la num nível alto sem que ela devore o regime.

Há ainda uma ideia que atravessa todo esse programa de pesquisa e que precisa ficar clara desde já. A polarização é coproduzida. No artigo de 2018, McCoy, Rahman e Somer põem a política e o discurso da oposição entre os fatores de risco, ao lado da dinâmica psicológica entre grupos. Num artigo de 2021 na revista Democratization, Somer, McCoy e Russell Luke tratam a polarização como endógena, moldada tanto pelo governante polarizador quanto por quem se opõe a ele, e concluem que a “polarização recíproca”, responder ao radical com o mesmo tom, é das estratégias menos promissoras.

Coprodução da dinâmica não é equivalência moral. No Brasil, um dos polos tentou um golpe de Estado, e Jair Bolsonaro foi condenado por isso pelo Supremo Tribunal Federal. Não há equivalente do outro lado. Isso posto, a pergunta deste ensaio é sobre a dinâmica, e na dinâmica os dois lados contam. A oposição de um polarizador pode alimentar a máquina que o sustenta sem ficar, por isso, igual a ele.

O caso brasileiro tem uma particularidade que torna tudo mais difícil. David Samuels e Cesar Zucco mostraram que o antipetismo é partidarismo negativo autônomo. Ele nasceu como subproduto da identidade forte do PT, sem que nenhum partido rival o cultivasse, e não precisa de partido nem de líder para existir (Samuels-Zucco — Partidários, Antipartidários e Não-Partidários). O Brasil tem, portanto, dois polos com motor próprio. Um deles é uma identidade partidária. O outro é a recusa dessa identidade, que pode se vestir de qualquer candidato. Tirar Bolsonaro de cena não tira o antipetismo de cena, e o primeiro turno de 2026 mostrou isso com um sobrenome igual e um prenome diferente.

O centro que não é avenida

A tentação natural, diante de uma polarização, é procurar a maioria que não está em nenhum dos polos. E os números parecem dizer que ela existe.

Em agosto de 2025, o Ipsos-Ipec perguntou ao eleitor brasileiro sobre Lula e Bolsonaro, e 22% disseram rejeitar os dois igualmente, cerca de 35 milhões de pessoas (Rejeita os Dois Igualmente — O Perfil Ipsos-Ipec). No começo do mesmo ano, a More in Common, com a Quaest, ouviu 10.002 pessoas e dividiu o país em seis segmentos por atitude: Progressistas Militantes (5%), Esquerda Tradicional (14%), Desengajados (27%), Cautelosos (27%), Conservadores Tradicionais (21%) e Patriotas Indignados (6%). Os dois grupos do meio, somados, foram batizados de “Invisíveis” e chegam a 54%. Os extremos somam 11%.

Lidos assim, os números desenham uma avenida. Lidos com cuidado, desenham outra coisa. Os 22% vêm de uma pergunta relativa, que pede ao entrevistado que compare as duas rejeições, e não de uma régua de voto. Rejeitar os dois na mesma medida não impede que, chegada a urna, a pessoa vote num deles sem hesitar. E os 54% de Invisíveis são produto de uma segmentação por atitude, não por comportamento eleitoral. Os Desengajados, o maior bloco do meio, são sobretudo apatia: só 6% deles têm ensino superior. Estão mais perto de quem se afastou da política do que de um eleitorado à espera de candidato.

A própria More in Common reconheceu o limite. O Brasil, conclui o relatório, está polarizado “a tal ponto que toda a sua população pode ser agrupada”, mas não o suficiente para que a polarização abarque a maioria. As duas metades da frase são verdadeiras ao mesmo tempo. A sociedade não está toda nas trincheiras, e ainda assim a disputa política se organiza inteira em torno delas.

O que a pesquisa encontrou de sólido é outra coisa, e é importante. Uma demanda difusa por menos briga. Na More in Common, 94% querem que os partidos cooperem e 75% acham que os brasileiros têm mais em comum do que diferenças. A leitura dos dados da Locomotiva em Desiludidos ou Desmotivados — O Centro Poroso da Locomotiva chega a estimar o Brasil “2,5 a 3 vezes menos polarizado” que os Estados Unidos nas mesmas questões, e descreve a polarização brasileira como mais performática que substantiva.

Demanda difusa, porém, não é eleitorado disponível. A vontade de que a briga acabe convive com a disposição de votar contra o lado que se considera o pior. O eleitor genuinamente livre, o que pode ir para um lado ou para o outro, é pequeno e decide por cálculo, não por pertencimento ao meio. O primeiro turno de 2026 confirmou o desenho: os candidatos menores da direita, que somavam 16% nas pesquisas, terminaram com cerca de metade disso, e o voto que perderam escorreu para Flávio, segundo a leitura de Felipe Nunes, da Quaest.

Isso desmonta a ideia de que basta falar com o centro. O centro, como bloco eleitoral com vontade própria, não está lá para ser conquistado. Se a despolarização depende de alguém, depende menos de uma maioria silenciosa que acorda e mais das elites que organizam um dos polos. E, no caso de uma polarização com a direita radical, das elites da direita.

Cercar e absorver

Os partidos tradicionais da Europa Ocidental passaram trinta anos experimentando o que fazer com a direita radical. A literatura que mediu os resultados é grande, e o resumo honesto é que não há bala de prata.

O ponto de partida teórico é Bonnie Meguid, num artigo de 2005 na American Political Science Review e num livro de 2008. Ela classificou as reações dos partidos estabelecidos a um partido de nicho em três estratégias. Ignorar o tema. Acomodar, aproximando-se da posição do desafiante e disputando a propriedade do tema. Ou opor-se frontalmente. A contribuição de Meguid foi mostrar que essas escolhas mexem menos na posição dos partidos e mais em duas outras coisas: a saliência do tema, isto é, o quanto se fala dele, e a propriedade, isto é, quem o eleitor associa a ele. Opor-se frontalmente à direita radical na imigração, por exemplo, aumenta a saliência da imigração e pode reforçar a ideia de que o assunto pertence a quem o levantou.

A pesquisa que veio depois testou essas previsões, e o resultado pesa contra a acomodação. Werner Krause, Denis Cohen e Tarik Abou-Chadi, num estudo de 2023, combinaram dados de posição partidária com transições individuais de voto e não acharam evidência de que acomodar reduza o voto da direita radical. Se algum efeito há, é o contrário: a acomodação empurra eleitores para o original. Jae-Jae Spoon e Heike Klüver, analisando quase 17 mil escolhas de voto em seis países, viram que endurecer na imigração ajuda a centro-esquerda e não muda nada para a centro-direita.

O achado mais interessante é de Joost van Spanje e Nan Dirk de Graaf, de 2018, sobre 296 resultados eleitorais de 28 partidos. Imitar a posição do pária só reduz o voto dele quando vem junto com o ostracismo, isto é, quando o maior concorrente estabelecido se recusa sistematicamente a qualquer cooperação. O cordão e a disputa do tema funcionariam juntos, nunca separados. O resultado é contestado por Krause e seus coautores, mas aponta para uma ideia que vai voltar neste ensaio: o que conta não é só a posição, é a fronteira.

Sobre incluir a direita radical no governo, a evidência é igualmente desanimadora para quem esperava moderação. Tjitske Akkerman e Matthijs Rooduijn compararam, em 2015, partidos isolados e partidos aceitos como parceiros e concluíram que a inclusão não modera. Os não isolados ficaram, depois de 2000, tão radicais quanto os primos ostracizados. Tim Bale já tinha mostrado, em 2003, que a centro-direita disposta a depender dos antigos párias e a adotar parte de sua agenda os legitimou.

Os dois estudos que mais importam para este ensaio são os que medem a polarização, não o voto. Daniel Bischof e Markus Wagner mostraram, em 2019, que a entrada da direita radical no parlamento polariza o eleitorado nos dois lados: uns se aproximam por legitimação, outros se afastam por reação. Vicente Valentim, num livro de 2024, explicou por que esse efeito é difícil de desfazer. A direita radical cresce sem que as atitudes da população mudem. O que muda são as normas sociais. Preferências que estavam escondidas porque eram consideradas inaceitáveis aparecem quando o sucesso eleitoral sinaliza que deixaram de ser. E, uma vez à luz, não voltam a se esconder.

Dois casos ilustram o desenho. Na França, o cordão republicano funcionou como freio por mais de duas décadas. Em 2002, Jacques Chirac derrotou Jean-Marie Le Pen no segundo turno com 82,21%. Marine Le Pen chegou a 33,90% no segundo turno de 2017 e a 41,45% em 2022. Nas legislativas de 2024, mais de 210 candidatos que haviam ficado em terceiro desistiram para não dividir o voto contra o Reagrupamento Nacional, e o RN mais os aliados terminaram com 143 cadeiras, longe da maioria, embora tivessem tido mais votos que qualquer outro bloco. O cordão segurou o poder. Não segurou o voto.

Na Alemanha, a Brandmauer, o muro que a CDU ergueu entre si e a AfD, manteve o partido fora de qualquer governo. Mas a AfD fez 20,8% na eleição federal de fevereiro de 2025, seu melhor resultado. Um mês antes, em 29 de janeiro, uma moção não vinculante da CDU sobre migração passou no Bundestag por 348 a 345, com votos da AfD. Foi a primeira vez que o muro cedeu numa votação federal, e a centro-direita legitimou a pauta sem ganhar o eleitor. Em setembro de 2026, na Saxônia-Anhalt, a AfD fez 43,8% e a CDU caiu de 37,1% para 17,2%. A secretária-geral da CDU manteve o cordão: “We will not work with them.”

A conclusão desta seção é a primeira metade da tese. O cordão segura o poder, não o voto. A acomodação dá o tema e não toma o eleitor. E há um aviso de método: quase toda essa literatura mede o voto da direita radical. A pequena parte que mede a polarização diz que a normalização a cristaliza. Cercar contém. Absorver normaliza. Nenhum dos dois desmonta.

Primeiro padrão: a direita racha quando tem por onde sair

Se cercar e absorver não desmontam, resta olhar para os casos em que alguma coisa de fato se desmontou. Há um mecanismo que se repete em quatro deles, em países e décadas muito diferentes. A saída vem do próprio campo da direita e preserva a identidade de direita de quem sai. Quem rompe com o radical não precisa virar outra coisa para romper.

Os Estados Unidos de McCarthy. Em 1º de junho de 1950, a senadora republicana Margaret Chase Smith subiu à tribuna para condenar os métodos do senador Joseph McCarthy. Seis colegas do partido anunciaram apoio. O discurso ficou conhecido como Declaração de Consciência, e o que chama a atenção nele é o ângulo. Smith falava de dentro e a favor da vitória do próprio partido: “The nation sorely needs a Republican victory.” Ela só não queria que o partido chegasse lá montado, na imagem dela, nos quatro cavaleiros da calúnia, o medo, a ignorância, a intolerância e a difamação. O efeito imediato foi nenhum. O partido estava na oposição, e McCarthy era um ativo eleitoral.

Quatro anos depois o quadro tinha mudado num ponto decisivo. Desde 1953 os republicanos tinham a Casa Branca, com Dwight Eisenhower. E McCarthy passou a atacar o Exército, isto é, o governo do próprio partido. As audiências Exército-McCarthy foram abertas em 22 de abril de 1954 e transmitidas em rede nacional por cerca de dois meses. Eisenhower nunca enfrentou McCarthy em público. Agiu como o historiador Fred Greenstein chamou de “mão escondida”: em 17 de maio de 1954, numa carta ao secretário de Defesa, proibiu funcionários do Executivo de revelar comunicações internas à subcomissão, a primeira invocação moderna do privilégio executivo. Em 9 de junho, o advogado do Exército, Joseph Welch, depois de um ataque de McCarthy a um jovem do seu escritório, perguntou: “Have you no sense of decency, sir, at long last?”

A censura veio em 2 de dezembro de 1954, por 67 votos a 22. Todos os 44 democratas votaram a favor, mais o independente Wayne Morse. Os republicanos se dividiram exatamente ao meio, 22 a 22. E a votação aconteceu depois das eleições de meio de mandato, quando já não havia custo eleitoral imediato. Mesmo assim, só metade da bancada aderiu.

O que a ala moderada ganhou foi o direito de defender o próprio presidente sem entregar o anticomunismo, que Eisenhower manteve. Ninguém precisou virar democrata, nem dizer que o adversário tinha razão sobre o comunismo, para votar contra McCarthy.

A Finlândia do Lapua. O movimento Lapua nasceu em 1929 na Ostrobótnia, anticomunista e liderado por Vihtori Kosola. A direita finlandesa usou o movimento. Sob sua pressão vieram as leis anticomunistas, e em 1931 Pehr Evind Svinhufvud foi eleito presidente com apoio do Lapua, da Coalizão Nacional (a Kokoomus) e de uma aliança ampla, por 151 votos a 149 no terceiro escrutínio. O Lapua via Svinhufvud como um dos seus.

A ruptura veio em duas etapas. Em 14 de outubro de 1930, o ex-presidente Kaarlo Juho Ståhlberg e a mulher foram sequestrados perto de casa por homens ligados ao movimento, num plano que pretendia levá-los à fronteira soviética. Muita gente na direita concluiu que o movimento tinha ido longe demais. Entre 27 de fevereiro e 6 de março de 1932, em Mäntsälä, cerca de 400 homens armados da Guarda Civil dispersaram a tiros uma reunião social-democrata, e o comando do Lapua mandou reforços e exigiu a queda do gabinete. Em 2 de março, Svinhufvud falou pelo rádio e mandou os milicianos voltarem para casa, prometendo punir só os líderes. Os homens se dispersaram. Kosola foi preso, e o movimento, proibido naquele ano.

Só um presidente de direita, com credencial anticomunista inatacável, podia fazer aquilo sem parecer capitulação à esquerda. E a lição eleitoral veio logo depois: em 1933, a Kokoomus concorreu em lista conjunta com o IKL, o sucessor do Lapua, e caiu de 42 para 18 cadeiras. J. K. Paasikivi assumiu o partido e afastou os simpatizantes mais declarados do novo movimento. Giovanni Capoccia, que estudou as reações ao extremismo na Europa do entreguerras, faz uma ressalva que vale guardar: o desfecho finlandês não se deve só à virtude das elites, mas a atores específicos e ao isolamento político do Lapua depois de 1931. A saída existia porque havia gente em posição de oferecê-la.

A Bélgica do Rex. Léon Degrelle saiu da ala direita do Partido Católico, que julgava moderado demais, e fundou o Rex em 1935. Em 1936, o partido teve 11,49% dos votos e 21 cadeiras. No ano seguinte, Degrelle forçou uma eleição suplementar em Bruxelas para medir forças. O primeiro-ministro Paul van Zeeland, católico, entrou na disputa pessoalmente, como candidato único de todos os outros partidos, comunistas inclusive. Em 11 de abril de 1937, Degrelle teve 69.242 dos 345.082 votos válidos. Van Zeeland ficou com cerca de 80%, e Degrelle, com cerca de 20%. Às vésperas da votação, o cardeal Van Roey, arcebispo de Malines, tinha posto o voto rexista como questão de consciência para os católicos. Em 1939, o Rex caiu para 4,4% e 4 cadeiras.

O mecanismo é quase o mesmo do caso finlandês. O Rex disputava o eleitor católico conservador. O que o desmontou foi o mundo católico fechar a porta (o partido, com o primeiro-ministro na cédula; a Igreja, com o cardeal) ao mesmo tempo em que oferecia um candidato que esse eleitor podia votar sem trair nada. A frente com socialistas e comunistas funcionou porque eles abriram mão de candidato próprio. A saída oferecida ao eleitor de direita tinha rosto de direita.

O Brasil de 1984 e 1985. Em 25 de abril de 1984, a emenda Dante de Oliveira, que restabelecia a eleição direta para presidente, teve 298 votos a favor, 65 contra, 3 abstenções e 113 ausências na Câmara. Eram necessários 320. Faltaram 22. Dos votos a favor, 55 vieram do PDS, o partido do regime. A fissura já existia antes de ter forma.

A forma veio nos meses seguintes. No início de julho de 1984 formou-se a Frente Liberal, com o vice-presidente Aureliano Chaves, Marco Maciel, Antônio Carlos Magalhães e Jorge Bornhausen, a que se juntou José Sarney, que deixara a presidência do PDS. Em agosto, Paulo Maluf venceu Mário Andreazza na convenção do PDS. A candidatura Maluf era inaceitável para boa parte da elite do próprio regime. Em 7 de agosto, o PMDB e a Frente Liberal assinaram o manifesto da Aliança Democrática, para eleger presidente e vice e “instituir um governo”. Sarney seria o vice de Tancredo Neves. No Colégio Eleitoral, em 15 de janeiro de 1985, Tancredo venceu por 480 a 180, com 26 abstenções. Nove dias depois, a Frente Liberal deixou formalmente o PDS e fundou o PFL.

A formulação que uso para aquele momento é seca: o regime cairia, mas eles estariam no governo seguinte. Nada ali é conversão. É cálculo de sobrevivência. Os dissidentes passaram do lado perdedor para o vencedor com mandato, partido novo e lugar no governo, sem ter de se declarar convertidos a coisa nenhuma. E a oposição ofereceu uma porta com moldura conservadora: Tancredo, moderado e aceitável para os militares, e a vice-presidência para o homem que presidira o partido do regime.

O contraponto: os republicanos depois de Trump. O caso americano recente mostra o que acontece quando não há porta. Em 13 de janeiro de 2021, dez deputados republicanos votaram pelo impeachment de Donald Trump depois do ataque ao Capitólio. Quatro perderam a primária seguinte, quatro desistiram de concorrer e dois sobreviveram. No Senado, sete republicanos votaram pela condenação. Seriam precisos dezessete. Liz Cheney, que presidia a conferência republicana da Câmara, perdeu o cargo e depois a primária de Wyoming, por 66% a 29%. Mitch McConnell, líder republicano no Senado, votou pela absolvição e logo depois disse que Trump era “practically and morally responsible” pelo que acontecera.

Trump não era um passivo de um governo do próprio partido a ser protegido, como McCarthy em 1954. Era o partido. O eleitor das primárias estava com ele, e o outro lado não oferecia porta que não fosse a conversão. Sem saída, ninguém racha. Quem sai, sai sozinho e para fora da política. McConnell mostra a conduta racional de quem não tem saída: condenar em palavras e absolver no voto.

Os quatro casos em que houve racha têm mais uma coisa em comum, e ela é incômoda. Em todos, a direita estava no poder quando rachou. Os republicanos tinham a Casa Branca em 1954. Svinhufvud era o presidente. Van Zeeland era o primeiro-ministro. O PDS era o partido do regime. Voltaremos a isso.

Segundo padrão: o outro lado recusa o espelho

O primeiro padrão fala de quem está dentro da direita. O segundo fala de quem está fora. A ala moderada só sai se o lado de lá não lhe devolver o espelho, isto é, se a oposição ao radical não se comportar exatamente como o radical diz que ela se comporta.

Istambul, 2019. Em 31 de março de 2019, Ekrem İmamoğlu, do CHP, o partido de oposição laico, venceu a eleição para prefeito de Istambul por cerca de 13,7 mil votos, depois de recontagens pedidas pelo governo. Em 6 de maio, o conselho eleitoral anulou a eleição, por 7 votos a 4, alegando irregularidade na nomeação de presidentes de mesa. Anulou só a de prefeito: os resultados dos distritos, apurados pelas mesmas mesas, continuaram valendo. Na repetição, em 23 de junho, İmamoğlu teve 54,2% contra 45,0%. A diferença passou para cerca de 806 mil votos.

A estratégia tinha nome e autor. Ateş İlyas Başsoy, o consultor que dirigia a comunicação da campanha, escreveu um manual de 52 páginas chamado “amor radical” e o distribuiu dentro do partido. As regras eram ouvir mais do que falar, largar a linguagem da raiva, parar de insultar líderes de outros partidos e procurar o eleitor religioso e rural. A fórmula que a imprensa atribuiu a ele é curta: “Ignore them. Love their lovers.” Ignorar Erdoğan e amar quem ama Erdoğan. O gesto mais lembrado é de março daquele ano, quando İmamoğlu recitou a surata Yasin na mesquita de Eyüp em memória das vítimas do atentado de Christchurch. Um candidato do partido laico, recitando o Corão, tirava do governo o inimigo de que o governo precisava. Em 2019, o CHP levou quatro das cinco maiores cidades turcas.

O limite veio depois. Em 19 de março de 2025, logo depois de a Universidade de Istambul anular o diploma que o habilitava a concorrer à Presidência, İmamoğlu foi detido, acusado de corrupção. Em março de 2026 começou o megaprocesso da prefeitura, com mais de 400 réus. Em maio, um tribunal de Ancara declarou nulo o congresso nacional do CHP e afastou o líder do partido. Recusar o espelho ganha a eleição. Não protege o vencedor num regime que controla os juízes.

A Venezuela. A oposição venezuelana fez, entre 2002 e 2005, o contrário de Istambul. Em abril de 2002 houve um golpe, que durou 47 horas. Entre dezembro de 2002 e fevereiro de 2003, a greve do petróleo parou a PDVSA para forçar nova eleição. Em agosto de 2004, o referendo revogatório deu 59,25% ao “Não”, e Chávez ficou. Em dezembro de 2005, os principais partidos de oposição boicotaram a eleição legislativa dias antes da votação. O comparecimento foi de cerca de 25%, e o chavismo e seus aliados ficaram com a Assembleia.

Andrés Miguel Rondón, venezuelano, escreveu em janeiro de 2017 no Washington Post uma carta aos opositores de Trump, tirada dessa experiência. A ordem central é “Don’t feed polarization, disarm it.” O populista precisa de um inimigo, e a oposição deve saber que é ela esse inimigo. Rondón lista os erros: o teatro da decência ofendida, chamar de burro o eleitor do outro, pôr no mesmo saco moderados e extremistas, que é a própria definição de polarização, e tentar atalhos fora das instituições. Golpe, greve e boicote, a oposição tentou tudo, e o resumo dele é “a hissy fit is not a strategy”. O preço foi passar anos com o rótulo de sabotadora antipatriótica, que o chavismo usava contra ela. Quando a oposição se uniu e falou de economia, em 2015, venceu a Assembleia com 56,21% e 112 das 167 cadeiras. O regime a esvaziou por fora, com o Supremo e depois com uma Constituinte.

A Colômbia. A cientista política Laura Gamboa, em Resisting Backsliding, de 2022, compara exatamente Colômbia e Venezuela, que partiram de condições parecidas: populistas combativos e partidos tradicionais desacreditados. Ela sustenta que Álvaro Uribe era tão populista e polarizador, e tão disposto a corroer a democracia, quanto Chávez. O que explicou a divergência foi a estratégia da oposição. Na Colômbia, a oposição ficou dentro das instituições, no Congresso e nos tribunais, com um objetivo limitado (conter Uribe, não derrubá-lo), e aliou-se a uribistas moderados. Em 26 de fevereiro de 2010, a Corte Constitucional barrou, por 7 a 2, o referendo que permitiria a Uribe um terceiro mandato. Uribe tinha indicado três dos juízes. Acatou a decisão em rede nacional. Uma leitura possível do mecanismo, que não é citação de Gamboa, é que a oposição que fica dentro das regras não dá ao governante a desculpa de que ele precisa para quebrá-las, e conserva a legitimidade das instituições que um dia vão julgá-lo.

A Hungria, onde os dois padrões se encontram. O caso de abril de 2026 é o que mais confirma a tese, porque junta o primeiro padrão ao segundo. A saída veio de dentro da família de direita. O sociólogo Kristóf Szombati, escrevendo antes da eleição, notou que Magyar tinha credibilidade com o eleitor desiludido do Fidesz, que nunca iria para a velha oposição liberal e de esquerda, e que ele “speaks the language of the right-wing political community”. Retomou a bandeira nacional em vez de deixá-la com Orbán. Analistas registram continuidades com o Fidesz: retórica nacionalista, ceticismo sobre a entrada da Ucrânia na União Europeia, rejeição do pacto migratório europeu. O eleitor do Fidesz podia votar no Tisza sem trocar de identidade.

E o outro lado não fez espelho. O programa do Tisza era vago de propósito, segundo Szombati, para segurar uma coalizão heterogênea. Magyar rodou o interior numa turnê de 80 dias por 128 municípios, falando na rua enquanto Orbán fazia eventos com plateia escolhida. A eleição virou julgamento de corrupção e de economia, com inflação em torno do dobro da média europeia, crescimento perto de zero e fundos europeus retidos, e não um julgamento de valores. Quando a eleição é sobre valores, o eleitor do regime fica com o regime. Quando é sobre se o regime entregou o que prometeu, ele pode sair.

A Turquia de 2023, como freio. Seria fácil transformar tudo isso num manual. A oposição turca tentou. Em 2023, seis partidos se uniram contra Erdoğan, com um programa comum de 244 páginas e uma liderança coletiva em que os líderes dos seis partidos e os prefeitos seriam vice-presidentes. Murat Somer e Jennifer McCoy listaram as sete lições da campanha num texto escrito antes do segundo turno, e uma delas resume o padrão: “The more voters dislike or fear the opposition, the more hesitant they’ll be to punish the regime at the ballot box.” Erdoğan venceu. A recusa do espelho é necessária. Não é suficiente.

Uma advertência fecha a seção. Recusar o espelho nada tem de terapia de grupo. A literatura sobre polarização afetiva mostra que as intervenções que corrigem a percepção que um lado tem do outro funcionam, mas com efeito modesto, e que num ambiente sectário o compromisso é lido como traição (affectivepolarization). O que funcionou em Istambul e em Budapeste foi estratégia eleitoral de elite, desenhada por políticos para ganhar eleição. Ninguém despolarizou conversando.

Terceiro padrão: ganhar não é desmontar

O terceiro padrão é o que os otimistas menos querem ouvir. Vencer o radical na urna é condição para muita coisa, mas não desfaz a polarização. Às vezes a adia. Às vezes a reorganiza. E às vezes o vencedor começa a parecer com o vencido.

A Polônia. Em 15 de outubro de 2023, os poloneses foram às urnas com comparecimento de 74,38%, o maior da história do país. O PiS, o partido de Jarosław Kaczyński, ficou em primeiro, com 35,38%, mas sem maioria. A Coalizão Cívica, a Terceira Via (de centro-direita) e a esquerda somaram 248 das 460 cadeiras, e Donald Tusk voltou ao governo. Foi a vitória mais celebrada de uma oposição democrática sobre um governo iliberal na Europa recente.

O bloco do PiS, porém, ficou inteiro, com a mesma identidade. Em 1º de junho de 2025, o candidato apoiado pelo partido, Karol Nawrocki, venceu a eleição presidencial por 50,89% a 49,11%. Bastou isso para recuperar o poder de veto. Ao fim do primeiro ano de mandato, em agosto de 2026, Nawrocki tinha vetado 41 leis, mais do que qualquer presidente polonês. Entre elas está a lei do Conselho Nacional da Magistratura, que era o centro da reforma destinada a desfazer o legado do PiS no Judiciário. Derrubar veto exige três quintos do Parlamento, e a coalizão não os tem. A coalizão de Tusk venceu e não converteu ninguém. O que se mexe agora, no outono de 2026, é a liderança dentro da própria direita, com Nawrocki e Kaczyński disputando quem manda no campo.

A Áustria. A Áustria é o caso clássico de absorção que pareceu dar certo. Em 1999, o FPÖ de Jörg Haider e o ÖVP, a democracia cristã, tiveram cerca de 26,9% cada um. Em fevereiro de 2000, o ÖVP formou governo com o FPÖ. Os outros catorze países da União Europeia reagiram com sanções diplomáticas, que um relatório de três observadores independentes considerou contraproducentes, e que caíram em setembro daquele ano. No governo, o FPÖ rachou entre a ala que governava e a base haiderista. Em setembro de 2002, em Knittelfeld, a base se revoltou, os ministros do partido renunciaram e o chanceler Wolfgang Schüssel convocou eleição. Em novembro, o ÖVP fez 42,30% e o FPÖ caiu para 10,01%. Em 2005, Haider deixou o partido e fundou outro.

A história não acabou ali. O FPÖ se reorganizou com Heinz-Christian Strache, sobreviveu ao escândalo de Ibiza em 2019 e, em setembro de 2024, sob Herbert Kickl, ficou em primeiro lugar pela primeira vez, com 28,8%. Kickl não formou governo por divergência na divisão dos ministérios, e em março de 2025 tomou posse uma coalizão de ÖVP, social-democratas e liberais. Em 2026, o FPÖ aparece nas pesquisas entre 34% e 38%. Rachou o partido, não o eleitorado.

A Itália. A Itália de Giorgia Meloni costuma ser apresentada como prova de que a direita radical modera no poder. O cientista político Jan-Werner Müller, num ensaio de 2025 na London Review of Books, recusa tanto essa leitura quanto a do retorno do fascismo. O que houve foi normalização, não despolarização: moderação para fora, na política europeia, na OTAN e na Ucrânia, e guerra cultural para dentro. Müller nota que a eleição de 2022 restaurou um sistema bipolar, com a direita unida e a competição interna empurrando-a para a direita. Em março de 2026, o governo perdeu um referendo constitucional sobre a reforma do Judiciário, com 53,7% para o “Não”, e Meloni aceitou sem contestar: “Gli italiani hanno deciso. E noi rispettiamo questa decisione.” É um dado real de normalização institucional. Também é o caminho que o paper do Carnegie descreve sem entusiasmo: um lado vence e se torna dominante.

A Hungria depois de abril. O asterisco mais sério está no caso que mais confirma a tese. Com dois terços do Parlamento, o governo Magyar aprovou em junho de 2026 um limite de oito anos para o cargo de primeiro-ministro, com efeito retroativo, o que impede a volta de Orbán. Em 13 de julho, aprovou a 17ª emenda constitucional, por 139 votos a 6, com boicote do Fidesz. A emenda encerra antes do prazo o mandato do presidente da República e reforma o Tribunal Constitucional e o Judiciário. Críticos apontaram o precedente: tirar um presidente por emenda, sem impeachment. O Fidesz fez seu primeiro ato na oposição sob o lema “Stop Autocracy”. O risco do terceiro padrão é exatamente esse: o vencedor desmontar o regime com métodos parecidos com os do regime, e com isso dar ao vencido a narrativa de que ele precisa para voltar.

Jennifer McCoy disse isso num seminário da Fundação FHC em 2021, antes de qualquer um desses desfechos: “It is not enough to remove a polarizing leader from power.” É preciso tratar o adversário como legítimo, atender às queixas que alimentaram a polarização, não simplesmente restaurar o status quo anterior e evitar a política em que o vencedor leva tudo. Cada uma dessas recomendações é mais difícil de cumprir na noite da vitória do que parece na véspera.

Antes de chegar ao Brasil, vale juntar os casos num quadro. Ele não prova nada sozinho. Serve para que se veja o que o Brasil de 2026 faz com ele.

CasoA saída para a direita moderadaO outro lado fez espelho?ResultadoO preço
EUA, 1954Defender o próprio presidente sem largar o anticomunismoNãoCensura de McCarthy; republicanos 22 × 22Anos de apaziguamento antes
Finlândia, 1930–32Um presidente de direita manda a milícia para casaNãoLapua proibido; Kokoomus punida em 1933Inclusão do Lapua antes do rompimento
Bélgica, 1937Premiê católico como candidato únicoNão; a esquerda abriu mão de candidatoRex de 11,49% a 4,4%Nenhum visível no curto prazo
Brasil, 1984–85Frente Liberal, vice e governo seguinteNão; candidato moderadoTancredo, 480 × 180Sarney na Presidência; silêncio da anistia
EUA, 2021–22NenhumaIrrelevanteDissidentes eliminados—
Hungria, 2026Ex-quadro do Fidesz com bandeira nacionalNão; eleição sobre corrupção e economiaTisza com dois terçosEmendas retroativas; teste institucional
Polônia, 2023–26Terceira Via na coalizão—Vitória sem conversão; 41 vetosParalisia da reforma
Áustria, 2000–24Governo com o próprio radical—FPÖ de 26,9% a 10,01% e de volta a 28,8%Legitimação
Chile, 2025Nenhuma; a direita tradicional foi ultrapassada—Kast eleito com cerca de 58%—
Brasil, 2026Nenhuma até aqui—Direita moderada adere a FlávioEm aberto

O Brasil ao contrário

Os três padrões montam uma previsão. Se a polarização com a direita radical se desmonta de dentro da direita, quando a ala moderada tem porta e o outro lado não lhe devolve o espelho, e se ganhar não basta, então o que se esperaria de uma eleição como a brasileira de 2026 seria um racha da direita moderada, uma oposição ao bolsonarismo que não fabricasse o inimigo de que ele precisa e um cuidado com o que se faz da vitória. O 4 de outubro desmentiu a primeira parte.

Os fatos são estes. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,03% dos válidos, e Lula, com 45,16%. Os candidatos menores da direita, que chegaram a somar 16% nas pesquisas, caíram para cerca de 8%, e o voto que perderam foi para Flávio. Felipe Nunes, da Quaest, resumiu o motor geográfico da virada numa frase: é o agro. Depois do primeiro turno, Zema, Caiado, Ratinho Júnior e Temer aderiram a Flávio. Os partidos que o apoiam somam 286 deputados e 50 senadores no Congresso eleito, e o PL terá a maior bancada do Senado. Tarcísio de Freitas foi reeleito governador de São Paulo pelo Republicanos. O Datafolha de 9 de outubro registrava Flávio com 52% e Lula com 48% dos votos válidos. É um dado datado, de duas semanas antes da votação, e não presságio.

O Chile tinha feito o mesmo movimento um ano antes. No primeiro turno de novembro de 2025, Evelyn Matthei, a candidata da direita tradicional, terminou em quinto lugar, com 12,47%. José Antonio Kast e Johannes Kaiser, os dois candidatos da direita radical, somaram cerca de 37,9%. No segundo turno, a UDI, a Renovação Nacional, o Evópoli e os Demócratas apoiaram Kast, que venceu em 14 de dezembro com cerca de 58%. Meses antes, Matthei hesitava em prometer apoio a Kast e foi pressionada pela própria coalizão a apoiá-lo em qualquer cenário. A ala moderada chilena foi ultrapassada antes de poder rachar. Quando chegou a hora, já não tinha força própria para escolher.

Por que não houve um Magyar brasileiro? O que segue é hipótese, e deve ser lido como hipótese.

A primeira razão é que o nome Bolsonaro foi tratado como condição para chegar ao segundo turno. Tenho sustentado que dentro da direita brasileira há duas, a bolsonarista e a que não é, e que uma não é a versão radical da outra. A Quaest mediu 13% de bolsonaristas e 21% de eleitores de direita não bolsonaristas. A direita não bolsonarista é maior dentro da direita. Mas tamanho não é porta. Caiado e Zema foram candidatos no primeiro turno, e o eleitor da direita não bolsonarista os abandonou pelo caminho, escorrendo para quem tinha o sobrenome e a chance real de chegar ao segundo turno. Os líderes leram o recado e aderiram. A ala moderada tinha voto, mas o voto dela não se comportou como ala.

A segunda razão é que a porta, se houvesse, daria para o lugar errado. Em todos os casos em que a ala moderada saiu, o outro lado da porta era alguém da própria família política, ou uma oposição que aceitou disputar com rosto de direita: Eisenhower, Svinhufvud, Van Zeeland, Tancredo com Sarney na vice, Magyar. No Brasil de 2026, o outro lado era Lula. Para o eleitor da direita não bolsonarista, romper com Flávio significava, na prática, ajudar a eleger o candidato do PT. O antipetismo autônomo de que falam Samuels e Zucco fecha essa porta antes que alguém tente abri-la.

A terceira razão é a mais sutil. O candidato não foi Jair, foi Flávio. A direita radical se apresentou ao eleitor já parcialmente pemedebizada, com um nome que não carrega a condenação do pai e com os partidos do Centrão se aproximando antes mesmo do segundo turno. Isso tirou do moderado o motivo de sair. Margaret Chase Smith saiu porque McCarthy envergonhava o partido. Svinhufvud rompeu porque o Lapua sequestrou um ex-presidente e pôs milícia na rua. Pouca gente rompe com um candidato que acabou de chegar ao segundo turno na frente e que fala a língua do sistema. O cenário de uma direita unificada em torno de um candidato pragmático, que absorve o eleitor que rejeitava os dois lados, estava descrito em abril deste ano em O Brasil de 2026 pela Janela de Overton — Três Janelas, Nenhum Centro. Mudou o nome do candidato. O desenho se confirmou.

O que isso faz com a hipótese deste ensaio é o ponto central do texto.

Primeiro, ela não é refutada. A hipótese é condicional: se a ala moderada tiver porta, e se o outro lado recusar o espelho, a polarização pode começar a se desmontar por dentro da direita. A condição não existiu, e o caso brasileiro de 2026 mostra, antes de tudo, por que ela é rara.

Segundo, a via brasileira provável é outra, e tem nome. O filósofo Marcos Nobre, em Limites da Democracia, de 2022, descreve o pemedebismo como a forma de funcionamento do sistema político brasileiro desde a redemocratização: supermaiorias no Congresso, acomodação de quase todos no governo de turno, bloqueio das reformas que prejudiquem os atores do sistema, conflitos amortecidos em vez de elaborados. Para Nobre, a relação de Bolsonaro com esse sistema foi de coadaptação: o sistema absorveu o radical, entregando-lhe espaço, e o radical se acomodou ao sistema, entregando-lhe o orçamento. A coadaptação contém. Não desmonta. É a Itália, não a Hungria. O conflito continua inteiro, só que gerido por dentro, nos bastidores do Congresso e na partilha de cargos.

Numa entrevista ao Estadão em setembro de 2025, Nobre foi além e disse que a solução ideal para o sistema seria “Bolsonaro inelegível, mas não preso”, isto é, um arranjo em que o sistema leva os votos do bolsonarismo sem deixar a base bolsonarista disputar o comando da aliança. Um ano depois, a chapa da direita tem Bolsonaro no sobrenome e o sistema em volta. Nobre, na mesma entrevista, recusa a própria palavra que dá título a este ensaio: “A metáfora da polarização implica dois polos no mesmo campo magnético. Esse mundo acabou.” A objeção é séria. Se um dos lados saiu do campo comum, falar em polos sugere uma simetria que não há. A resposta é que o conceito de polarização perniciosa, como o usam McCoy e Somer, não descreve dois polos equidistantes de um centro. Descreve o alinhamento de toda a sociedade num eixo único de nós contra eles, que pode ser profundamente assimétrico, como é o brasileiro. A palavra serve para medir a dinâmica. O juízo sobre quem saiu do campo democrático é outro, e já foi feito acima.

Terceiro, os dois cenários do segundo turno precisam ser lidos com o mesmo rigor, porque nenhum deles desmonta a polarização por si.

Se Lula vencer, a porta que o sistema oferece aos moderados da direita é a velha: ministérios e emendas ao Centrão, em troca de governabilidade. Ela não pede a ninguém que rompa com o bolsonarismo, só que negocie com o governo, e por isso não produz racha nenhum. A Polônia avisa o resto. Com quase metade do eleitorado e 286 deputados nos partidos que apoiaram Flávio, o bloco derrotado ficaria inteiro, com a mesma identidade, e com força para travar no Congresso o que o governo quisesse mudar. A coalizão de Tusk venceu em 2023 e passou o ano seguinte colecionando vetos.

Se Flávio vencer, o padrão de McCarthy e de Knittelfeld diz que o racha, se vier, virá de dentro do governo da direita, quando o radical virar passivo do próprio campo. Nos casos reunidos aqui, a direita rachou mais vezes estando no poder do que fora dele: os republicanos com a Casa Branca em 1954, o FPÖ no governo em 2002, Svinhufvud na Presidência em 1932, o PDS como partido do regime em 1984, a direita polonesa com a Presidência em 2026. E o padrão da Hungria de 2010 a 2026 e da Turquia diz, na mesma frase, que esse é também o cenário de maior teste institucional. A direita radical no governo é o momento em que a ala moderada pode ganhar motivo para sair e o momento em que as instituições ficam mais expostas. As duas coisas andam juntas. O governo Kast, no Chile, mostra só que ganhar não encerra nada: a aprovação caiu de 57% em março para 35% em setembro de 2026, segundo a Cadem.

Há também onde a analogia quebra, e convém dizer. O Brasil não tem primárias, que foram o instrumento de punição dos republicanos dissidentes. E o presidencialismo de coalizão funciona, como argumenta O Brasil Cabe na Teoria do Realinhamento — Uma Leitura Comparada, como um mecanismo contra o realinhamento: dá a quase todos um lugar no governo, seja qual for o governo, e assim tira de quase todos o motivo de romper. O racha, no Brasil, é sempre mais caro do que a adesão.

O padrão invertido: 1945–1964

O Brasil já viveu o caso em que a porta existiu e foi aberta pelo lado errado. É o contrapeso que impede este ensaio de virar elogio do racha.

Na República de 1946, o PSD foi o pivô do sistema. Nascido dos interventores do Estado Novo, era “a máquina de Getúlio, sem Getúlio”, sem doutrina e com a moderação como segunda natureza, e fez a maior bancada da Câmara em todas as eleições do período (UDN e PTB no espelho do pós-guerra europeu — analogias e o resíduo brasileiro). Sem o PSD nada se aprovava. Mas o sistema em volta dele se polarizava. Na Câmara, o PTB foi de 10,2% em 1945 para 24,8% em 1962, e o PSD caiu de 42,4% para 30,1% (Thymos e os Ciclos Partidários Brasileiros — Reconhecimento, Pertencimento e Identidade Nacional na República). Wanderley Guilherme dos Santos, em Sessenta e Quatro, descreveu o desfecho como uma crise de “paralisia decisória”, que combinava fragmentação partidária no Congresso, radicalização ideológica e alta rotatividade ministerial.

A ponte existia. Argelina Figueiredo, em Democracia ou Reformas?, sustenta que o golpe não era inevitável e que havia espaço para um pacto reformista democrático até o começo de 1964, mesmo em meados de março. E a ponte foi recusada pelos dois lados. Em 1963, a emenda constitucional da reforma agrária foi derrotada na comissão especial da Câmara com deputados do PSD votando ao lado da UDN, que dizia ser a Constituição intocável. Do outro lado, o governo de João Goulart escolheu, no começo de 1964, a pressão de massa em vez da negociação gradual com o PSD e a UDN moderada. A frase do ensaio sobre UDN e PTB resume o resultado: “quando o pivô central dobra, o sistema cai”.

A porta para os moderados veio depois, aberta pelos golpistas. Em 11 de abril de 1964, dois dias depois do primeiro Ato Institucional, o Congresso elegeu o marechal Castelo Branco com 361 votos, e o vice foi José Maria Alkmin, do PSD. Juscelino Kubitschek votou em Castelo, contando com a eleição presidencial de 1965. Em 8 de junho de 1964, teve o mandato cassado e os direitos políticos suspensos por dez anos. A saída que lhe ofereceram era uma armadilha.

A lição é a ressalva da tese inteira. Ter saída não basta. Importa quem a oferece e se ela preserva o jogo. Em 1985, a saída foi oferecida pelo lado que restaurava a eleição e a preservou. Em 1964, foi oferecida pelo lado que a suspendia. Um racha da direita moderada para o lado errado não desmonta polarização nenhuma. Derruba o regime.

O preço

Nenhuma das saídas descritas aqui foi de graça. A conta varia, mas sempre chega.

Na Finlândia, antes de mandar a milícia para casa, Svinhufvud tinha incluído o Lapua no governo: segundo Levitsky e Ziblatt, ao se tornar primeiro-ministro em 1930, ofereceu dois ministérios ao movimento. O rompimento veio de dentro da direita, mas veio depois da inclusão, e a inclusão ajudou a dar ao Lapua o tamanho que ele teve.

No Brasil de 1985, a conta foi a própria vice-presidência. José Sarney, que presidira o partido do regime até poucos meses antes, chegou à Presidência e governou com um PMDB que era menos partido que frente, e com a patronagem como método. Antes disso, a anistia de 1979 já tinha imposto o preço mais duradouro. Como está em A Velocidade da Nova República — Por Que Nenhum Consenso Se Forma, a lei “impôs o silêncio, e o silêncio nunca virou consenso. Virou ferida que não fecha”. Penso que esse é o custo mais subestimado da transição brasileira: a saída que comprou os militares e os civis do regime foi paga em memória, e a fatura ainda está em aberto.

No Chile, a democracia de acordos que sucedeu Pinochet foi, durante vinte anos, um caso de polarização gerida. A Concertación e a direita se revezaram num sistema binominal que garantia a cada bloco quase metade das cadeiras, e repartiram cargos num arranjo de cotas conhecido como cuoteo. O cientista político Peter Siavelis chamou esses arranjos de “enclaves of the transition” e sustentou, em 2009, que o modelo celebrado de transição podia estar na raiz das dificuldades seguintes. Em 2019, o estallido social cobrou a conta. Em 2025, a direita tradicional que tinha sido sócia desse pacto ficou em quinto lugar.

A literatura permite agrupar esses custos em três formas recorrentes. A primeira é dar cargo ao radical, como na Finlândia de 1930 e nas quinze coalizões entre a centro-direita e a extrema direita que Kimberly Twist contou na Europa Ocidental entre 1994 e 2017. Isso legitima e não modera. A segunda é pôr a agenda do radical na boca do moderado, a acomodação, que desloca o centro de gravidade do debate. A terceira é o pacto de elites com cotas e vetos, à chilena ou à pemedebista, que funciona no curto prazo e cobra em representação uma geração depois. O pemedebismo é a forma brasileira de conter. Vendê-lo como a forma de desmontar seria esquecer de onde ele veio.

Em 2026, o preço tem nome. A anistia aos condenados pelo 8 de janeiro, e possivelmente ao próprio Bolsonaro, volta ao horizonte do Congresso eleito, segundo a cobertura da imprensa desde a apuração. As pesquisas publicadas no ano passado mostravam maioria contra. O PoderData registrou 64% contra qualquer anistia aos atos de 8 de janeiro, e o Datafolha, 54%. A Quaest mediu 51% contra uma anistia que incluísse Bolsonaro. O dilema fica nomeado sem solução: o preço que historicamente comprou a saída dos moderados, o perdão em troca da transição, é exatamente o que a maioria hoje recusa. E o perdão de 1979 já mostrou quanto custa.

Gerir, não zerar

O ponto de partida foi a raridade, e é para ela que se volta. Em 120 anos, nenhuma democracia liberal registrou um episódio de despolarização. Das que saíram, só 14% ficaram fora no longo prazo. O Brasil está entre as dez democracias que convivem com o problema de forma crônica sem ter caído, até agora. O horizonte realista não é a pacificação. É a gestão num nível alto, sem que a polarização tome o regime.

Os casos reunidos aqui ensinam pouca coisa, e nenhuma delas é receita. Quem desmonta uma polarização com a direita radical é a própria direita, quando a ala moderada tem para onde ir sem deixar de ser o que é, e quase sempre por cálculo de sobrevivência, não por conversão. O que o outro lado pode fazer é não fabricar o inimigo de que o radical precisa, como escreveu Rondón, e não confundir o moderado com o extremista, que é a maneira mais rápida de empurrar um para os braços do outro. E quem vence não deve usar os métodos do vencido, porque a Hungria de 2026 mostra que a tentação existe até no caso mais bem-sucedido.

O Brasil de outubro não ofereceu a nenhum desses caminhos a condição de que precisava. A direita moderada aderiu, o outro lado da porta era o PT, e o sistema político se preparou para fazer o que sabe fazer: absorver, partilhar, amortecer. Seja qual for o resultado de 25 de outubro, o mais provável é que a polarização brasileira seja contida, não desmontada. Contida já é alguma coisa. Contida é o que a Nova República tem feito desde 1985.

Mas conter tem preço, e o preço desta vez já tem forma de projeto de lei. A pergunta para os próximos quatro anos é se a saída que eventualmente se oferecer aos moderados, de um lado ou de outro, será paga com a mesma moeda de 1979. McCoy disse a frase em 2021, e ela vale para os dois cenários do segundo turno: “It is not enough to remove a polarizing leader from power.” Também não basta pôr outro no lugar.


Ver também

Fontes

Literatura sobre polarização

Partidos diante da direita radical

Casos históricos

Casos contemporâneos

Brasil