Mapa detalhado da tradição liberal brasileira
Da Inconfidência Mineira ao liberalismo intelectual do fim do século 20
O liberalismo brasileiro não forma escola contínua e homogênea — aparece como sequência de ondas, quase sempre em tensão com três obstáculos permanentes: escravidão, centralização estatal e patrimonialismo. Por isso, foi menos a ideologia de uma ordem social já consolidada e mais um projeto de reforma do Estado, da sociedade e da nação. O mapa cobre sete fases (1760-2000) e quatro matrizes de importação intelectual: anglo-americana, francesa, ibérica e, no século 20, liberal-europeia (berlin, aron, bobbio) e econômica (hayek, ordoliberais).
Para o vault, esta genealogia importa porque o diagnóstico contemporâneo do Estado patrimonial brasileiro — captura distribuída, FGTS como subsídio a empresas, emendas parlamentares, criatividade do Judiciário — tem raízes diretas nessa tradição. Faoro dá o nome estrutural do problema (patrimonialismo); Tavares Bastos e Ruy Barbosa representam as tentativas históricas de resolver por descentralização e constitucionalismo; merquior e Campos representam as respostas do século 20.
Os quatro pensadores mais relevantes para o vault são: Ruy Barbosa (constitucionalismo e garantias como última linha contra o arbítrio), Joaquim Nabuco (como falar em liberdade numa ordem organizada pela não-liberdade — questão que retorna no debate sobre desigualdade), Raymundo Faoro (diagnóstico do obstáculo estrutural ao enraizamento liberal) e José Guilherme Merquior (reconstrução intelectual que conecta a tradição brasileira ao liberalismo social europeu do qual Pedro é tributário).
Tese de leitura
O liberalismo brasileiro não forma uma escola contínua e homogênea. Ele aparece como uma sequência de ondas, quase sempre em tensão com três obstáculos permanentes: escravidão, centralização estatal e patrimonialismo. Por isso, o liberalismo no Brasil foi menos a ideologia de uma ordem social já consolidada — como em parte do mundo anglo-saxão — e mais um projeto de reforma do Estado, da sociedade e da nação.
Como ler este mapa
Há quatro camadas, que se sobrepõem:
- Matrizes atlânticas: ideias que vêm de Europa e EUA.
- Canais de circulação: Coimbra, livros, imprensa, maçonaria, Cortes, parlamento, faculdades de direito, diplomacia.
- Momentos brasileiros: Inconfidência, Pernambuco 1817, Independência, Confederação do Equador, Império, República, século 20.
- Constelações de pensadores: autores brasileiros que traduzem, adaptam e alteram o liberalismo.
Visão de conjunto (diagrama)
flowchart LR A[Iluminismo atlântico\nLocke, [[montesquieu]], [[rousseau]],\nRevolução Americana] --> B[Inconfidência Mineira\n1788-1789] A --> C[Revolução Pernambucana\n1817] D[Constituição de Cádiz\n1812 + Revolução do Porto] --> C D --> E[Constitucionalismo luso-brasileiro\n1820-1824] E --> F[Confederação do Equador\n1824] G[Benjamin Constant + Carta francesa de 1814] --> H[Constituição de 1824] I[EUA: federalismo, presidencialismo,\nSuprema Corte] --> J[Tavares Bastos] I --> K[Rui Barbosa / Constituição de 1891] L[Inglaterra: Smith, livre-comércio,\nabolicionismo, parlamento] --> J L --> M[Joaquim Nabuco] L --> N[André Rebouças] O[Weber] --> P[Raymundo Faoro] Q[Berlin, [[aron]], [[bobbio]],\nRawls] --> R[José Guilherme Merquior] S[Smith + [[hayek]] + ordoliberais + Chicago] --> T[Roberto Campos]
1) O ponto de partida: matrizes estrangeiras que chegam ao Brasil
1.1 Matriz anglo-americana
Nomes-chave: locke, a independência dos EUA, os Federalistas, Smith, depois tocqueville e mill.
O que chega ao Brasil daqui
- direitos individuais e limitação do poder;
- autogoverno e representação;
- federalismo e autonomia local;
- livre comércio e crítica ao monopólio;
- depois, proteção da individualidade, pluralismo e crítica da tirania da maioria.
Onde isso pesa mais
- na Inconfidência Mineira, como exemplo republicano e separatista;
- em Tavares Bastos, como modelo de federação, livre circulação e governo local;
- em Rui Barbosa, via federalismo e desenho constitucional de 1891;
- em nabuco e Rebouças, via abolicionismo e tradição parlamentar inglesa;
- em merquior, via liberalismo social e tradição anglo-europeia ampla.
1.2 Matriz francesa
Nomes-chave: montesquieu, rousseau, Benjamin Constant, doutrinários franceses, Carta de 1814.
O que chega ao Brasil daqui
- separação de poderes;
- soberania popular;
- constituição como pacto político;
- distinção entre liberdade dos antigos e dos modernos;
- liberalismo representativo e limites à soberania;
- no século 19, forte influência do constitucionalismo moderado francês.
Onde isso pesa mais
- no vocabulário da Independência e do constitucionalismo de 1820-1824;
- na Confederação do Equador, via soberania, representação e federação;
- na Constituição de 1824, sobretudo pelo canal constantiano;
- em Rui Barbosa, já combinado com o modelo americano.
1.3 Matriz ibérica-luso-espanhola
Nomes-chave: reformismo ilustrado português, Universidade de Coimbra, Constituição de Cádiz, Revolução do Porto.
O que chega ao Brasil daqui
- o vocabulário prático do primeiro constitucionalismo;
- eleições, Cortes, representação, província, junta, constituição;
- liberalismo não revolucionário puro, mas mesclado a monarquia constitucional e reformas graduais.
Onde isso pesa mais
- entre 1820 e 1824, no auge do constitucionalismo luso-brasileiro;
- na imprensa e nos panfletos políticos da Independência;
- na Confederação do Equador, onde o federalismo se funde à tradição pernambucana e ao vocabulário constitucional.
2) Linha do tempo: momentos, referências externas e efeitos no liberalismo brasileiro
| Fase | Matrizes externas predominantes | Efeito no Brasil | Pensadores / lideranças |
|---|---|---|---|
| 1760s-1789 | Iluminismo, reformismo de Coimbra, independência dos EUA | nasce um proto-liberalismo republicano, ainda elitista e conspirativo | Inconfidentes; José Joaquim Maia e Barbalho como elo atlântico |
| 1817-1824 | Cádiz, Revolução do Porto, rousseau, montesquieu, constitucionalismo atlântico | liberalismo vira linguagem pública: constituição, província, representação, federação | Frei Caneca, Cipriano Barata, Gonçalves Ledo |
| 1824-1840 | Benjamin Constant, Carta francesa de 1814 | consolida-se um liberalismo monárquico-constitucional e moderado | elite do Primeiro Reinado e da Regência |
| 1840-1889 | Smith, livre-comércio britânico, abolicionismo atlântico, mill, tocqueville | liberalismo passa a disputar federalismo, abolição, reforma eleitoral e judicial | Tavares Bastos, nabuco, Rebouças, Ruy Barbosa |
| 1889-1930 | modelo constitucional dos EUA | liberalismo republicano vira federalismo + presidencialismo + Judiciário forte | Rui Barbosa, Assis Brasil |
| 1930-1985 | liberalismo econômico internacional, weber como analista do Estado | nasce um liberalismo econômico minoritário e uma crítica estrutural ao Estado patrimonial | Gudin, Bulhões, Roberto Campos, Faoro |
| 1980s-2000s | berlin, aron, bobbio, rawls e liberalismo social europeu | liberalismo volta como reconstrução intelectual e democrática | merquior, Lamounier, Celso Lafer |
3) Primeira onda: o proto-liberalismo da Inconfidência Mineira
3.1 O que a Inconfidência é — e o que ela ainda não é
A Inconfidência Mineira (1788-1789) não é ainda um liberalismo brasileiro maduro. Ela é melhor entendida como um momento proto-liberal: separatista, republicano, antimetropolitano, tributariamente revoltado e já inserido na circulação atlântica de ideias. A historiografia mostra tanto o peso do Iluminismo quanto o caráter exemplar da independência dos EUA para parte dos conspiradores, inclusive pela via do contato com Thomas Jefferson.12
3.2 O que entra de fora
- Revolução Americana: o exemplo de uma colônia que se separa e cria república.
- Iluminismo: linguagem de liberdade, razão, soberania e república.
- Coimbra e redes de livros: circulação luso-atlântica de ideias.
3.3 O que ainda falta
- não há ainda uma teoria liberal consistente sobre cidadania, representação e direitos;
- o movimento continua restrito à elite letrada;
- a escravidão não é enfrentada como problema constitutivo da ordem política.
3.4 O legado
A Inconfidência deixa três fios que voltam depois:
- separação política de Portugal;
- forma republicana como possibilidade brasileira;
- vocabulário atlântico da liberdade.
4) A ponte decisiva: Pernambuco, 1817, Cádiz e o constitucionalismo luso-brasileiro
4.1 Por que 1817 importa
Entre a Inconfidência e a Confederação do Equador há uma ponte decisiva: Pernambuco 1817. Ali o liberalismo deixa de ser apenas conspiração e vira experiência revolucionária e constitucional.
4.2 O papel de Cádiz e da Revolução do Porto
A Constituição de Cádiz (1812) se tornou um símbolo liberal de grande força no mundo ibérico e teve influência direta no espaço luso-brasileiro entre 1820 e 1824. A bibliografia recente mostra que:
- Cádiz serviu de símbolo liberal no Brasil;
- sua linguagem circulou em eleições, panfletos e levantes;
- sua influência alcançou a própria formação do constitucionalismo brasileiro.3
4.3 O que isso muda no Brasil
A partir de 1820, o liberalismo deixa de ser só repertório de elite e vira também linguagem popularizada, disseminada por:
- periódicos;
- folhetos baratos;
- cartilhas;
- sermões;
- rodas de leitura;
- clubes e redes políticas.4
Aqui aparecem com força palavras como:
- constituição
- representação
- direitos
- cidadão
- voto
- liberdade
- soberania
5) Confederação do Equador: o primeiro liberalismo brasileiro realmente político
5.1 O núcleo do movimento
A Confederação do Equador (1824) foi uma reação à centralização imperial e à carta outorgada de 1824. O estudo do Senado sobre os 200 anos do movimento a resume como uma revolta por descentralização, maior autonomia provincial e distribuição mais equilibrada do poder, com raízes no liberalismo iluminista.5
5.2 O que entra de fora
Na Confederação, o repertório liberal já é mais nítido:
- Cádiz e o constitucionalismo ibérico;
- montesquieu e a limitação do poder;
- rousseau em versões de soberania popular;
- exemplos federativos e confederativos do Atlântico;
- republicanismo pernambucano de 1817.
5.3 O pensador-chave: Frei Caneca
Frei Caneca é a primeira grande figura do liberalismo político radical no Brasil. Não é liberal no sentido inglês clássico, mas é decisivo como:
- constitucionalista;
- federalista;
- anti-centralizador;
- defensor da soberania da nação contra o arbítrio do centro;
- intelectual de imprensa e de combate.
O que ele representa
- passagem do proto-liberalismo conspirativo para um liberalismo de imprensa, constituição e federação;
- fusão entre liberdade política, autonomia provincial e resistência ao despotismo.
6) A Constituição de 1824: liberalismo, mas moderado, monárquico e seletivo
A melhor fórmula é esta: o Brasil independente adota um constitucionalismo liberal, mas com forte filtro monárquico, conservador e escravista.
A pesquisa historiográfica sobre o constitucionalismo do Império é clara em dois pontos:
- o vocabulário constitucional liberal tinha enorme circulação no Brasil entre 1820 e 1822;4
- a Constituição de 1824 se aproxima fortemente do liberalismo francês da Restauração e da teoria de Benjamin Constant, inclusive no desenho dos poderes e na lógica do governo representativo moderado.46
O efeito disso
O liberalismo brasileiro passa a nascer com uma marca duradoura:
- liberalismo jurídico e constitucional, sim;
- mas combinado com:
- monarquia;
- escravidão;
- sufrágio restrito;
- centralização relevante;
- distância entre linguagem de direitos e inclusão efetiva.
7) O século 19 maduro: as três grandes correntes do liberalismo brasileiro imperial
Aqui a tradição liberal brasileira fica mais inteligível se dividida em três correntes principais.
7.1 Corrente institucional-econômica: Tavares Bastos
Aureliano Cândido Tavares Bastos é o grande liberal do:
- federalismo;
- descentralização;
- livre comércio;
- autonomia provincial;
- abertura ao mundo;
- modernização por circulação e infraestrutura.
As referências externas principais
- Estados Unidos: federação e autogoverno local;
- Inglaterra: livre-comércio e governo limitado;
- montesquieu e tradição anti-centralização;
- liberalismo econômico clássico.
A tese central de Tavares
O atraso brasileiro não decorre apenas de pobreza material. Decorre de um Estado centralizado demais, herdado da colonização, que sufoca iniciativa, autonomia e modernização.
7.2 Corrente moral-abolicionista: Joaquim Nabuco
Joaquim Nabuco é o grande liberal brasileiro da crítica à escravidão.
As referências externas principais
- abolicionismo britânico e atlântico;
- tradição parlamentar inglesa;
- liberalismo moral do século 19;
- parte do cosmopolitismo liberal anglo-americano.
A tese central de Nabuco
Não existe ordem liberal legítima num país escravista.
A escravidão:
- deforma o Estado;
- corrompe a moral pública;
- impede a cidadania;
- bloqueia a formação nacional.
nabuco é decisivo porque obriga o liberalismo brasileiro a responder à sua contradição fundamental: como falar em liberdade num país organizado pela não-liberdade.
7.3 Corrente liberal-social e democrática: André Rebouças
André Rebouças é menos lembrado como liberal, mas deveria aparecer no mapa.
Por quê
Ele combina:
- abolição;
- modernização;
- preocupação com democratização do acesso à terra;
- crítica à ordem oligárquica;
- confiança em progresso e infraestrutura.
Sua importância no mapa
Rebouças é o ponto em que o liberalismo brasileiro quase dá um passo além do puro constitucionalismo e toca a questão social.
8) Ruy Barbosa: o liberalismo jurídico-constitucional brasileiro em sua forma clássica
8.1 O que Ruy faz
Ruy Barbosa é o ponto alto do liberalismo brasileiro como:
- constitucionalismo;
- garantias individuais;
- habeas corpus;
- federalismo;
- separação de poderes;
- civilismo;
- supremacia da lei.
8.2 Suas matrizes estrangeiras
Ruy combina duas tradições:
- francesa — sobretudo a tradição constitucional e liberal de fins do século 19;
- norte-americana — especialmente no federalismo e no desenho republicano pós-1889.
8.3 A virada de 1891
Na elaboração da Constituição de 1891, Rui é um dos grandes vetores da defesa de:
- autonomia dos estados;
- independência entre poderes;
- arranjo federativo forte.7
Aqui o liberalismo brasileiro recebe, talvez como nunca antes, um impacto direto do modelo constitucional dos EUA.
8.4 O limite de Ruy
Sua versão do liberalismo é fortíssima no plano:
- jurídico;
- constitucional;
- institucional.
Mas é muito menos robusta no plano:
- social;
- distributivo;
- de inclusão real da massa da população.
9) O problema brasileiro: por que o liberalismo não se enraíza plenamente?
Aqui entra uma peça decisiva.
Raymundo Faoro
Faoro não é um “doutrinador liberal” como nabuco ou Ruy.
Mas é indispensável para entender a tradição liberal brasileira porque oferece o diagnóstico do obstáculo estrutural:
- patrimonialismo;
- estamento burocrático;
- Estado que se projeta sobre a sociedade;
- confusão entre público e privado.
Seu ensaio “A aventura liberal numa ordem patrimonialista” dá a fórmula perfeita do problema brasileiro: o liberalismo aqui aparece repetidamente, mas precisa operar dentro de uma ordem estatal que o absorve, deforma ou limita.8
O lugar de Faoro no mapa
Ele explica por que:
- a linguagem liberal reaparece;
- mas a institucionalização liberal permanece precária;
- e o Estado continua maior, mais antigo e mais estruturado que a sociedade civil.
10) Século 20: duas novas linhas liberais no Brasil
10.1 A linha econômico-tecnocrática
Roberto Campos
Campos representa o liberalismo brasileiro como:
- modernização econômica;
- disciplina macroeconômica;
- integração internacional;
- crítica ao estatismo;
- defesa do mercado;
- tecnocracia reformista.
Referências externas
- liberalismo econômico clássico;
- tradição austríaca e depois neoliberal;
- ordoliberais e debates sobre modernização;
- experiência internacional de planejamento e desenvolvimento.
O problema que ele enfrenta
Como ser liberal em um país:
- pobre;
- desigual;
- atrasado;
- estatalmente pesado?
Campos responde com um liberalismo menos moral e mais instrumental-modernizador.
10.2 A linha de reconstrução intelectual
José Guilherme Merquior
merquior é a figura que devolve ao liberalismo brasileiro:
- espessura histórica;
- sofisticação filosófica;
- horizonte civilizacional;
- crítica do antiliberalismo intelectual.
Referências externas
- Isaiah Berlin
- Raymond Aron
- Norberto Bobbio
- liberalismo social europeu
- história das ideias ocidental
O que ele faz
merquior tenta mostrar que o liberalismo não é:
- só mercado;
- nem só anticomunismo;
- nem só forma jurídica.
É uma tradição ampla de:
- liberdade;
- pluralismo;
- modernidade;
- crítica do poder e do obscurantismo.
11) Os principais pensadores liberais brasileiros: mapa sintético
Núcleo 1 — Liberalismo de insurgência e fundação
Frei Caneca
- liberalismo constitucional radical;
- federação e autonomia provincial;
- imprensa como arena política.
Núcleo 2 — Liberalismo de reforma imperial
Tavares Bastos
- descentralização;
- livre comércio;
- federação;
- anti-centralização.
Joaquim Nabuco
- liberalismo abolicionista;
- escravidão como negação nacional da liberdade;
- reforma moral e política do país.
André Rebouças
- abolição + democratização social;
- modernização técnica;
- liberalismo com sensibilidade social.
Ruy Barbosa
- Estado de direito;
- garantias;
- federalismo;
- civilismo;
- constitucionalismo.
Núcleo 3 — Liberalismo de diagnóstico e reconstrução
Raymundo Faoro
- patrimonialismo;
- explicação da fragilidade estrutural do liberalismo brasileiro.
José Guilherme Merquior
- reconstrução intelectual do liberalismo;
- tradição pluralista e social-liberal.
Roberto Campos
- liberalismo econômico;
- modernização tecnocrática;
- mercado e integração internacional.
12) O que é específico da tradição liberal brasileira?
12.1 Ela nasce dentro de uma sociedade escravista
Na Europa e nos EUA, o liberalismo muitas vezes é pensado como linguagem de direitos, propriedade, parlamento e cidadania.
No Brasil, ele entra num mundo em que a grande pergunta é:
como compatibilizar liberdade política com escravidão social?
Nabuco e Rebouças são os que enfrentam isso de modo mais frontal.
12.2 Ela é quase sempre reformista, não revolucionária
Mesmo quando há rebelião, o liberalismo brasileiro tende a reaparecer como:
- reforma do Estado;
- reforma constitucional;
- descentralização;
- limitação do arbítrio;
- modernização administrativa.
12.3 Ela é fortemente estatal
O liberalismo brasileiro quase nunca fala a partir de uma sociedade civil já forte.
Ele geralmente fala contra um Estado centralizador ou a partir do aparelho de Estado, tentando reformá-lo.
12.4 Ela importa ideias seletivamente
O Brasil não “copia” simplesmente:
Ele seleciona repertórios conforme os problemas locais:
- independência;
- escravidão;
- centralização;
- federação;
- desenvolvimento;
- patrimonialismo.
12.5 Ela é descontínua
Há ondas:
- proto-liberalismo atlântico;
- constitucionalismo de 1820-1824;
- liberalismo imperial reformista;
- liberalismo jurídico republicano;
- liberalismo econômico minoritário;
- reconstrução intelectual tardia.
Não há linha reta.
13) Síntese final: um mapa em sete teses
- A Inconfidência Mineira introduz o repertório proto-liberal atlântico, mas ainda sem doutrina madura.
- Pernambuco 1817 e a Confederação do Equador transformam o liberalismo em linguagem política concreta: constituição, província, autonomia, federação.
- A Constituição de 1824 instala um liberalismo monárquico-constitucional filtrado por Benjamin Constant e pela Restauração.
- Tavares Bastos, Nabuco, Rebouças e Ruy Barbosa formam o grande núcleo do liberalismo brasileiro do século 19:
- Tavares = descentralização;
- Nabuco = abolição;
- Rebouças = reforma social;
- Ruy = Constituição e garantias.
- O modelo dos EUA pesa muito em dois momentos:
- como imaginação republicana da Inconfidência;
- como arquitetura institucional da República de 1891.
- Faoro explica por que esse liberalismo não vira ordem dominante: o patrimonialismo bloqueia sua institucionalização plena.
- Merquior e Roberto Campos, em registros diferentes, reintroduzem o liberalismo no século 20:
- Merquior = reconstrução teórica;
- Campos = modernização econômica.
14) Se eu tivesse de resumir tudo em uma única fórmula
O liberalismo brasileiro é a história de uma tentativa recorrente de enxertar liberdade política, garantias jurídicas, federalismo e modernização econômica numa sociedade moldada por escravidão, centralização estatal e patrimonialismo.
15) Próximo passo lógico de pesquisa
Se você quiser transformar este mapa em sequência de estudos, a ordem mais produtiva é:
- Frei Caneca / Confederação do Equador
- Tavares Bastos
- Joaquim Nabuco
- Ruy Barbosa
- Raymundo Faoro
- José Guilherme Merquior
- Roberto Campos
Essa sequência mostra a passagem:
- da insurgência liberal,
- à reforma imperial,
- à crítica da escravidão,
- ao constitucionalismo,
- ao diagnóstico do fracasso,
- à reconstrução teórica,
- e ao liberalismo econômico do século 20.
Fontes de apoio (não exaustivas)
Inconfidência, circulação atlântica e independência
- Kenneth Maxwell, “Conjuração mineira: novos aspectos”
https://www.scielo.br/j/ea/a/wDzPGXqrjV6rJYHyNbsxRXq/?format=pdf&lang=pt - João Pinto Furtado, “Uma república entre dois mundos: Inconfidência Mineira, iluminismo e temporalidade”
https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-01882001000300005&script=sci_arttext - Luis Carlos Villalta, “A longa viagem da ideia de Independência”
https://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252022000100002&script=sci_arttext
Confederação do Equador, federalismo e constitucionalismo
- Senado Federal, TD 332/2024 – 200 anos da Confederação do Equador
https://www12.senado.leg.br/publicacoes/estudos-legislativos/tipos-de-estudos/textos-para-discussao/td332 - Denis Antônio de Mendonça Bernardes, “Pacto social e constitucionalismo em Frei Caneca”
https://www.scielo.br/j/ea/a/sbz6zptjMPzhmNVBnGxXjPp/ - Marcia de S. Leme, “Federalism and confederate stances in the political speech of Frei Caneca”
https://www.scielo.br/j/alm/a/MVsKqB9VX59KDJP5QQ9zCYb/?lang=pt
Cádiz, Porto e o constitucionalismo luso-brasileiro
- Wagner Silveira Feloniuk, “Da Revolução do Porto à Constituição do Império do Brasil: trajetória e influência da Constituição de Cádiz no liberalismo português-brasileiro”
https://revistas.pucsp.br/index.php/revph/article/download/67370/47440 - Tese sobre Constitucionalismo liberal no Brasil imperial
https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/35049/35049_4.PDF
Liberalismo no Brasil e seus dilemas
- José Murilo de Carvalho, “O papel e a complexidade do liberalismo no Brasil”
https://www.scielo.br/j/ea/a/5rj8NcB7WLC9wDxxdpTWNLF/?lang=pt - CPDOC/FGV, verbetes e documentos sobre Rui Barbosa, Constituição de 1891 e elites políticas
https://cpdoc.fgv.br/ - Raymundo Faoro, “A aventura liberal numa ordem patrimonialista”
https://revistas.usp.br/revusp/article/view/25950
Pensadores brasileiros específicos
- Sobre Tavares Bastos:
https://www.historia.uff.br/stricto/teses/Dissert-2007_GUGLIOTTA_Alexandre_Carlos-S.pdf
https://revistas.usp.br/geousp/article/download/123405/119724/232136 - Sobre Joaquim Nabuco:
https://funag.gov.br/biblioteca-nova/produto/loc_pdf/85/1/duas_vidas_de_joaquim_nabuco%3A_o_reformador_e_o_diplomata_as - Sobre José Guilherme Merquior:
https://repositorio.fgv.br/items/305fdc8f-a498-478a-a458-476cb99fd1b3
https://revistas.ufpr.br/doispontos/article/download/86172/49405
Ver também
- ruybarbosa — a figura central do liberalismo jurídico-constitucional brasileiro: habeas corpus, federalismo, garantias e civilismo
- tavaresbastos — o grande liberal federal e anti-centralização do Império: descentralização como resposta ao atraso
- robertocampos — a linha econômico-tecnocrática do século 20: modernização como resposta ao patrimonialismo que Faoro diagnosticou
- merquior — a reconstrução intelectual do liberalismo no século 20: espessura histórica, pluralismo e conexão com berlin, aron e bobbio
- mapa_conceitual_liberalismo_e_arredores — as matrizes europeias e anglo-americanas que este mapa descreve em sua chegada ao Brasil
Footnotes
-
Kenneth Maxwell, “Conjuração mineira: novos aspectos”, sobre a centralidade do exemplo norte-americano e a correspondência com Thomas Jefferson. ↩
-
João Pinto Furtado, “Uma república entre dois mundos: Inconfidência Mineira, iluminismo e temporalidade”, sobre a Inconfidência como fenômeno atlântico e ilustrado. ↩
-
Wagner Silveira Feloniuk, “Da Revolução do Porto à Constituição do Império do Brasil”, sobre a influência de Cádiz no liberalismo luso-brasileiro. ↩
-
Tese sobre Constitucionalismo liberal no Brasil imperial, especialmente quanto à difusão do vocabulário constitucional e ao peso de Benjamin Constant na linguagem política do período. ↩ ↩2 ↩3
-
Senado Federal, TD 332/2024 – 200 anos da Confederação do Equador, sobre o caráter descentralizador, autonomista e iluminista do movimento. ↩
-
Pesquisa sobre Constitucionalismo liberal no Brasil imperial, destacando a proximidade entre a Constituição de 1824, a Carta francesa de 1814 e a teoria de Benjamin Constant. ↩
-
CPDOC/FGV, verbete Constituição de 1891, sobre o papel de Rui Barbosa na defesa do federalismo, da autonomia dos estados e da separação dos poderes. ↩
-
Raymundo Faoro, “A aventura liberal numa ordem patrimonialista”, formulação clássica do problema brasileiro. ↩