Amanhã vai ser maior, de Rosana Pinheiro-Machado — Resumo
Sinopse
Amanhã vai ser maior, de Rosana Pinheiro-Machado, defende que a ascensão do bolsonarismo não pode ser explicada apenas por arranjos institucionais, pela Lava Jato ou pela imprensa: ela exige que se leia a experiência emocional da crise — o ressentimento, o desejo de reconhecimento, o medo da perda de status — entre as classes populares atingidas pela precarização e pela desagregação do tecido social. O conceito central é o de “revolta ambígua”: movimentos como os rolezinhos e a greve dos caminhoneiros de 2018 combinam energia antissistema, desejo de consumo, raiva e afeto sem programa coerente de esquerda ou de direita — e a direita mostrou maior capacidade de capturar essa ambiguidade. Ao mesmo tempo, o livro recusa o catastrofismo: por baixo do avanço autoritário, nasceu uma nova cultura política feminista, antirracista e horizontal, formada nas ruas, nos coletivos e nas ocupações.
O argumento é construído com método de observação antropológica e ensaio político. Rosana usa trabalho de campo numa periferia de Porto Alegre, acompanhando a passagem da inclusão pelo consumo ao ressentimento político, e analisa episódios paradigmáticos de 2007 a 2019 — a crise financeira global, Junho de 2013, os rolezinhos, a greve dos caminhoneiros, as eleições de 2018 e os novos feminismos. O livro dialoga com Durkheim (efervescência coletiva), Paulo Freire, Ernst Bloch, Ana Cecilia Dinerstein e a literatura sobre precarização; os dados são etnográficos e jornalísticos, não quantitativos.
Para o vault, o livro é referência direta para a tese sobre thymos e reconhecimento nas classes populares: a captura da revolta crua dos “batalhadores” pelo bolsonarismo é exatamente o argumento timico sobre megalothymia popular sem infraestrutura de pertencimento. A ideia de “revolta ambígua” — que não é nem de esquerda nem de direita até ser disputada — conecta-se à análise do centro poroso da locomotiva e ao argumento de por que o lulismo não produziu pertencimento duradouro. O método de Rosana é também um exemplo prático do tipo de pesquisa que o vault precisa para sustentar empiricamente as teses sobre emoção política.
Baseado no PDF enviado do livro de Rosana Pinheiro-Machado. Este resumo segue a estrutura dos ensaios/capítulos do volume e não trata os intertítulos de parte (“Prelúdio”, “Ato I”, “Ato II”, “Ato III” e “Réquiem da Desesperança”) como capítulos autônomos.
O eixo do livro é claro: o Brasil que desemboca em Bolsonaro não pode ser explicado só por arranjos institucionais, partidos, Judiciário, Lava Jato ou imprensa. Rosana quer deslocar o foco para a experiência comum da crise, para as emoções políticas, para as formas novas e ambíguas de revolta e para os sujeitos que, atingidos pela precarização e pela desagregação social, ora se movem à direita, ora constroem novas resistências.
Ao mesmo tempo, o livro não é apenas um diagnóstico do colapso. Ele tenta mostrar que, por baixo da ascensão autoritária, nasceu também outra coisa: uma nova cultura política feminista, antirracista e horizontal, formada nas ruas, nas redes, nas ocupações e nos coletivos. A disputa central do livro é, portanto, entre a captura reacionária da revolta e a reorganização democrática da esperança.
Prefácio
Debora Diniz apresenta Rosana Pinheiro-Machado como uma intelectual engajada que recusa a falsa neutralidade das humanidades. O ponto de partida do prefácio é que o livro não quer contemplar a crise brasileira de longe, com a assepsia da especialista que observa tudo a partir de categorias estabilizadas. Ele quer responder ao instante da perturbação quando a perturbação ainda está acontecendo, e isso o torna menos “disciplinado” no sentido acadêmico tradicional, mas mais vivo e, na leitura de Diniz, mais honesto.
O prefácio enfatiza que a pergunta que organiza o livro é simples e brutal: o que está acontecendo aqui? A resposta não virá de uma narrativa linear nem de uma explicação monocausal. Diniz destaca que Rosana acompanha as multidões, os protestos, os rolezinhos, a greve dos caminhoneiros e os novos coletivos feministas sem forçar uma síntese fácil. Em vez de encaixar tudo numa lógica única, o livro insiste na ambiguidade e na coexistência de forças contraditórias.
Outro aspecto central do prefácio é o método. Diniz chama atenção para a “cadeira de praia” de Rosana, isto é, sua disposição de sentar, escutar, conviver e observar a política em seu nível microscópico. Isso desloca o centro de gravidade da análise: a crise não aparece apenas como crise do sistema, mas como experiência cotidiana de gente comum. É ali, nos afetos, nos ressentimentos, nas pequenas frases e nos gestos triviais, que a antropóloga encontra matéria para pensar o Brasil recente.
Por fim, Diniz lê o livro como uma defesa da esperança feminista. Mesmo quando descreve o avanço do ódio, do patriarcado e do bolsonarismo, Rosana não abdica da possibilidade de transformação. O prefácio fecha nessa chave: o livro é duro, mas não resignado; descreve a derrota, mas identifica energias políticas novas, sobretudo entre mulheres, que sobreviveram à eleição de Bolsonaro e talvez sejam a base de outra imaginação democrática.
Introdução
Na introdução, Rosana formula o problema central do livro: desde 2013, o Brasil parece um trem desgovernado, e uma enorme parte da população não sabe mais como nomear o que está vivendo. Ela reconhece que já existe uma produção importante sobre o colapso democrático brasileiro, mas observa que, em geral, essa produção se concentra na política institucional: impeachment, Lava Jato, governabilidade, alianças partidárias, mídia, Judiciário, prisão de Lula, fake news. Tudo isso é importante, mas insuficiente.
O ponto da autora é que 2018 não foi uma eleição “normal” interpretável apenas pela lógica do sistema político organizado. Foi uma eleição do colapso, da exaustão, da desorganização afetiva e da captura de emoções difusas. Por isso, para entender a ascensão do bolsonarismo, é preciso olhar também para fora do radar institucional. A autora propõe seguir dois fios: de um lado, as classes populares atingidas pela crise e seduzidas pela mensagem autoritária; de outro, os novíssimos movimentos sociais, especialmente feministas, antirracistas e LGBTQIA+, que reconfiguram a resistência.
A introdução também situa o lugar de fala da autora. Rosana escreve como antropóloga e pesquisadora das classes populares, apoiada em anos de trabalho de campo, especialmente numa periferia de Porto Alegre, onde acompanhou a passagem da inclusão pelo consumo ao ressentimento político. Mas escreve também como intelectual pública e feminista, alguém que esteve nas ruas, falou com estudantes e coletivos e viveu a política não apenas como objeto de análise, mas como espaço de atuação e confronto.
No fim da introdução, ela apresenta a arquitetura do livro. O percurso vai de Junho de 2013 ao governo Bolsonaro, mas sempre com uma pergunta de fundo: como o Brasil chegou até aqui e que rotas concretas de fuga ainda existem? A metáfora do teatro organiza a narrativa. Há um prelúdio sobre ativismo e revoltas ambíguas, um ato sobre o avanço da direita, outro sobre o recuo da esquerda, um terceiro sobre o bolsonarismo e, por fim, um conjunto de capítulos voltados a formas emergentes de resistência. Desde a abertura, fica claro que o livro pretende ser diagnóstico e aposta ao mesmo tempo.
A Fraquejada do Touro
Este capítulo parte da crise financeira de 2007-2008 como grande rachadura do nosso tempo. O touro de Wall Street simboliza a vitalidade arrogante do capitalismo financeiro, e a “fraquejada” desse touro marca um momento em que o neoliberalismo perde sua aparência de inevitabilidade. Rosana não afirma que tudo decorre mecanicamente da crise, mas insiste que ela abriu uma fratura estrutural: revelou a promiscuidade entre Estado e corporações, desacreditou a austeridade como solução e espalhou a sensação de que a democracia vinha sendo sequestrada pelos interesses do mercado.
A autora percorre então a primavera global de protestos. Da Tunísia ao Egito, dos Indignados na Espanha ao Occupy Wall Street, de Hong Kong ao Brasil, ela lê esse ciclo como uma onda internacional de insurgência contra o neoliberalismo e a representação política tradicional. O que conecta esses protestos não é uma pauta única, mas uma atmosfera histórica: crise econômica, deslegitimação das elites e vontade de reinventar a política. A presença das redes digitais acelera a circulação das imagens, dos repertórios de ação e do sentimento de que a revolta é possível.
O núcleo analítico do capítulo está na ideia de prefiguração. Para Rosana, os novíssimos movimentos sociais não lutam apenas por objetivos futuros; eles tentam viver, no presente da ocupação, a sociedade que desejam construir. Daí a centralidade da horizontalidade, do acampamento, da assembleia, da partilha material e do corpo em aliança. A ocupação aparece menos como instrumento de pressão e mais como criação de uma sociabilidade antagônica à vida neoliberal: contra o isolamento, o coletivo; contra a alienação, a experiência comum; contra a hierarquia, a fala distribuída.
O final do capítulo recusa tanto o determinismo otimista quanto o determinismo catastrófico. A extrema-direita não nasce das ocupações; ela aproveita, com mais eficiência que a esquerda, a energia antissistêmica aberta pela crise. Ao mesmo tempo, os protestos também deixam legados progressistas profundos, sobretudo no feminismo e nas novas lutas antirracistas e LGBTQIA+. A lição de Rosana é que o pós-2008 não produziu um vencedor único: ele abriu um campo de disputa em que a direita ganhou muito, mas em que também se formou uma nova geração de resistência.
A Revolta dos 20 Centavos
Rosana abre o capítulo pelo sentimento, não pela cronologia. O que ela quer capturar em Junho de 2013 é a sensação de efervescência coletiva, a impressão de que a vida adquire intensidade quando o eu se mistura à multidão. Recorre a Durkheim para nomear isso, mas não o faz como quem encaixa a experiência num conceito; usa o conceito para mostrar que os participantes falam de despertar, de estar vivos, de sentir que tudo fazia sentido quando estavam juntos. Junho, na leitura dela, é primeiro uma experiência coletiva de potência.
Depois, a autora reconstrói os antecedentes das Jornadas. Ela aponta cinco processos: a emergência de cidadãos mais exigentes num país de ascensão social; a entrada de negros, pobres e indígenas na universidade e em novas esferas públicas; a frustração produzida por uma esperança material que não veio acompanhada de serviços públicos dignos; a geração órfã de um PT já identificado com a ordem e com a governabilidade; e, por fim, o recalque das elites diante da perda relativa de privilégios. Assim, Junho não aparece como aberração irracional em meio à bonança, mas como produto das próprias contradições do período lulista.
Um dos esforços mais importantes do capítulo é descentralizar Junho. Rosana combate a leitura que reduz tudo ao 20 de junho em São Paulo e insiste que as Jornadas foram processo nacional, desigual e multifacetado. Porto Alegre, Rio de Janeiro, Belém, Salvador, Santa Maria e tantas outras cidades tiveram dinâmicas próprias, frequentemente mais radicais e mais conectadas a pautas de direitos do que a narrativa posterior reconheceu. Nesse enquadramento, Junho aparece como revolta popular e anti-autoritária, atravessada por temas como transporte, direito à cidade, violência policial, corrupção sistêmica, Copa do Mundo e abandono dos bens públicos.
Na parte final, Rosana sustenta que Junho foi ao mesmo tempo cisão e coesão. Ele soltou as peças do sistema, ampliou a polarização e abriu uma janela que a direita soube explorar; mas também legou ocupações secundaristas, coletivos descentralizados e uma nova gramática de protesto para jovens ativistas. O erro, para ela, está em ler Junho apenas como “origem do golpe” ou como marcha coxinha sem foco. Essa leitura, além de historicamente injusta, apaga o que havia de democrático e progressista naquelas ruas. A tragédia brasileira, diz ela, não foi Junho em si, mas a captura posterior da crise por forças autoritárias.
A Revolta do Rolê
Neste capítulo, Rosana toma os rolezinhos como chave para entender o Brasil da virada de 2013 para 2014. A cena é conhecida: milhares de jovens periféricos marcam pelas redes encontros em shoppings, e a reação das elites é de pânico moral. Mas a autora quer desmontar os enquadramentos simplistas. O rolezinho não é apenas lazer despolitizado nem revolução anticapitalista. Ele é, antes, uma forma de presença ambígua, em que diversão, desejo de consumo, afirmação de dignidade e contestação social aparecem misturados.
A força do capítulo vem da etnografia. Rosana retorna a sua pesquisa sobre jovens periféricos e o consumo de marcas para mostrar que, para muitos desses meninos e meninas, vestir-se bem e circular no shopping não era uma imitação vazia da elite, mas uma tentativa de existir socialmente, de ser visto como gente. O problema é que o mesmo gesto que, para eles, significava orgulho e pertencimento, era lido pelo comércio e pela classe média como ameaça, invasão ou suspeita. O shopping vira então o palco condensado da segregação brasileira.
É aí que a autora introduz uma noção decisiva para o livro: a de “revoltas ambíguas”. Há, nos rolezinhos, uma dimensão política inegável, porque ocupar um espaço onde se sabe ser indesejado é desafiar uma ordem de classe e raça. Mas não há ali um programa coerente de esquerda, e muito menos uma crítica elaborada ao capitalismo. O desejo por marca, prazer e inclusão no consumo convive com a recusa do lugar subordinado. Em vez de resolver a contradição, Rosana a assume como traço do presente: o neoliberalismo produz revoltas sem forma acabada, difusas, contraditórias e abertas à disputa.
O desfecho do capítulo é duro. Quando a autora revisita os jovens anos depois, encontra trajetórias divergentes: alguns haviam se tornado bolsominions; outros estavam em lutas antirracistas, feministas ou antifascistas; muitos permaneceram politicamente indiferentes. A lição é que a ambiguidade não se resolve por si só: ela é capturada. E a direita, especialmente Bolsonaro, mostrou maior capacidade de acolher a revolta crua desses sujeitos do que a esquerda. Por isso, o rolezinho aparece como prenúncio de uma transição mais ampla: a reação brutal contra pobres e negros que começavam a ocupar espaços antes vedados.
A Revolta da Caçamba
Rosana trata a greve dos caminhoneiros de 2018 como outro exemplo de revolta ambígua. Em vez de comentar o episódio apenas de longe, ela e Lucia Scalco vão à estrada, sentam no meio-fio e escutam os manifestantes. O que encontram é um movimento que começa no preço do combustível, mas rapidamente se amplia para uma revolta generalizada contra a corrupção, contra a classe política e contra a sensação de que o país perdeu o rumo. A demanda econômica concreta se dissolve num grito mais difuso: “assim não dá mais”.
O capítulo mostra bem a complexidade ideológica do episódio. Os caminhoneiros com quem elas conversam rejeitam Temer, desconfiam de toda a classe política, expressam desejo de ordem e, em vários casos, pedem intervenção militar. Mas esse pedido, diz Rosana, não equivalia automaticamente a um projeto consciente de nova ditadura. Muitas vezes era um pedido de socorro, uma tentativa desesperada de interromper o que percebiam como roubalheira, desgoverno e abandono. Ao mesmo tempo, os acampamentos produziam intensa coesão, solidariedade e politização improvisada, como se a convivência na paralisação ensinasse aos participantes seu próprio poder.
A autora extrai daí uma crítica severa à esquerda. O problema não é apenas não ter aderido plenamente à greve, mas não saber mais fazer trabalho de base em movimentos desse tipo. As formas de organização do precariado contemporâneo não passam pelos velhos sindicatos da maneira como a esquerda tradicional aprendeu a operar. Passam por WhatsApp, redes sociais, contágio e agregação frouxa. Por isso, insistir em perguntar se um movimento desses é “de esquerda” ou “de direita” é, para Rosana, uma forma de não entendê-lo.
No fecho, o capítulo transforma o caso dos caminhoneiros em lição estratégica. A esquerda não pode esperar o trabalhador ideal, perfeitamente alinhado a seu vocabulário e a suas pautas. Enquanto faz essa triagem moral, a direita acolhe os trabalhadores reais. A revolta da caçamba escancara um país sem freios, com democracia desacreditada e trabalho precarizado, mas escancara também que há energia política circulando. O desafio não é condenar essa energia por sua impureza, e sim disputar suas brechas.
A Antropóloga Alucinada
Este capítulo recua a 2014 para mostrar que a extrema-direita brasileira não caiu do céu em 2018. Rosana insiste que a rearticulação das direitas já vinha ocorrendo havia anos, por meio de think tanks, fóruns empresariais, colunistas conservadores, redes digitais e novas figuras públicas que se apresentavam como liberais, mas ajudavam a normalizar afetos autoritários. O argumento central é que o avanço conservador tem história, infraestrutura e linguagem próprias; não pode ser reduzido a um mero efeito colateral de Junho de 2013.
A autora mistura análise estrutural e experiência pessoal. Recupera sua própria perseguição nas redes depois de publicar textos sobre rolezinhos e depois de ser atacada por colunistas da grande imprensa. O episódio do “ping-pong com uma antropóloga alucinada” funciona como amostra do que estava em gestação: uma esfera pública movida por misoginia, linchamento digital, anticomunismo delirante e hostilidade à universidade. A violência não era acidental; ela já indicava um ambiente em que mulheres, intelectuais e vozes dissidentes passavam a ser alvos preferenciais.
Rosana amplia então o foco e descreve um ano saturado de sintomas: a defesa pública do linchamento por Rachel Sheherazade, a reação racista aos rolezinhos, a xenofobia durante o surto de ebola, a eleição de uma bancada fortemente conservadora, o ódio aos nordestinos após a apertada vitória de Dilma e a recusa de Aécio Neves em aceitar plenamente o resultado eleitoral. Tudo isso compõe um quadro em que a direita deixa o armário e passa a falar com menos pudor de violência, exclusão e hierarquia.
A conclusão do capítulo é importante porque nomeia a singularidade do fascismo brasileiro. Ele não se organiza apenas em torno do nacionalismo clássico; muitas vezes idolatra países centrais e projeta neles o ideal de civilização. Seu inimigo é difuso: pobres, negros, indígenas, mulheres, LGBTQIA+, nordestinos, “comunistas”, intelectuais. Rosana sustenta que a ameaça comunista é imaginária, mas a ameaça fascista é concreta. O capítulo, no fundo, serve para quebrar a ilusão retrospectiva de que o bolsonarismo foi surpresa.
Protesto e Panela Gourmet
Aqui, Rosana analisa os protestos pró-impeachment de 2015 e 2016, especialmente sua estética social e emocional. Ao contrário de Junho, essas manifestações aparecem como atos marcados pela presença das elites brancas, pela festa verde-amarela, pelo nacionalismo simplificado e por uma indignação que podia conviver com cachorros de estimação, babás, espumante e coluna social. A política se transforma em ritual de classe, em performance moralmente elevada de quem se considera o Brasil decente.
Um dos alvos centrais do capítulo é o MBL e sua capacidade de produzir uma direita jovem com aparência moderna. Rosana mostra como o movimento apropriou a linguagem da rebeldia, do anti-establishment e até mesmo certos gestos e formas de comunicação antes associados à esquerda. O efeito foi duplo: tornou a direita mais atraente para novos públicos e recobriu o processo do impeachment com uma aura de insurgência popular. A rebeldia, aqui, não era contra a ordem social brasileira, mas contra o PT e contra a presença, ainda que moderada, de setores populares no jogo político.
O capítulo ganha densidade quando a autora trata dos sujeitos que aderiram a essas manifestações sem já serem bolsonaristas convictos. Ela reconhece que havia ali antigos simpatizantes do PT, gente decepcionada desde o mensalão, órfãos políticos capturados pela Lava Jato e por Sergio Moro. Ou seja, não se tratava só de “coxinhas caricatos”, mas também de pessoas desorientadas que passaram a ver no antipetismo e na pauta anticorrupção uma saída moral. Rosana registra o custo pessoal dessa polarização, inclusive em suas relações próximas.
No final, ela volta ao presente para distinguir responsabilidades e possibilidades. Muitos dos que apoiaram o impeachment acabaram assustados com Bolsonaro e com os rumos do lavajatismo depois dos escândalos que atingiram Temer, Aécio e a própria operação. Sem absolver ninguém, Rosana argumenta que a derrota do autoritarismo exigirá uma frente democrática mais ampla do que a esquerda gostaria. O capítulo, portanto, não só descreve a “panela gourmet”; ele pergunta o que fazer com os arrependidos que ajudaram a acendê-la.
Apocalipse sobre a Terra Plana
O capítulo começa com episódios simbólicos: o cancelamento do Queermuseu, os protestos contra Judith Butler, o crescimento do Escola sem Partido e a perseguição a professores. O argumento, porém, vai além da denúncia moral. Rosana insiste que a nova direita não é simplesmente anti-intelectual ou inimiga abstrata do conhecimento. Ela disputa o conhecimento. Quer destruir certas formas de legitimidade acadêmica e cultural para substituí-las por outras. O campo de batalha não é só o governo, mas o regime de verdade.
A autora ilustra isso com sua própria experiência ao oferecer uma disciplina de pós-graduação sobre movimentos sociais na USP e ver o curso ser transformado, por redes conservadoras e pelo MBL, numa suposta “aula de protestos”. A caricatura seria risível se não viesse acompanhada de assédio, ameaças e tentativa de intimidação. O episódio mostra como a direita aprendeu a operar na fronteira entre o absurdo e o perigoso: ridiculariza, descontextualiza, mobiliza seguidores e constrói a ideia de que a universidade é uma máquina de doutrinação contra o povo.
Na parte mais teórica, Rosana entra no debate sobre a alt-right e a chamada “metapolítica”. Ela mobiliza autores da nova direita europeia e norte-americana para demonstrar que esse campo pensa estrategicamente a disputa cultural. Seu discurso se ancora na ideia de que uma elite globalista, liberal e progressista capturou a universidade, a imprensa e os direitos humanos. A resposta seria reconquistar os espaços de produção de sentido, redefinir quem tem autoridade para dizer o verdadeiro e desmontar os pactos civilizatórios do pós-guerra.
A conclusão do capítulo é um alerta estratégico. Subestimar a direita como ignorante ou burra é erro grave. Ela possui projeto, referências, redes e ambição intelectual, ainda que frequentemente orientados para fins regressivos. Para enfrentá-la, não basta defender as instituições existentes de modo automático; é preciso também repensar criticamente os próprios termos da globalização, da democracia e dos direitos humanos, disputando a noção de verdade sem abrir mão do universalismo emancipador.
Ódio, Substantivo Masculino
Neste ensaio, Rosana desloca o foco para a dimensão masculina do ódio contemporâneo. A entrada se dá por Jack Donovan, intelectual da extrema-direita que radicaliza a misoginia e glorifica uma comunidade masculina baseada em força, violência, tribalismo e desprezo pelas mulheres. Mas Donovan interessa à autora menos como personagem exótico do que como síntese brutal de uma lógica muito mais disseminada. Ele ajuda a iluminar o núcleo patriarcal do bolsonarismo e da nova direita.
O capítulo argumenta que o patriarcado não é simples pano de fundo do fenômeno autoritário; é parte de seu motor. Homens em crise econômica, simbólica e identitária interpretam a ascensão feminista, a pluralização sexual e o enfraquecimento de antigas hierarquias como ameaça direta a sua posição no mundo. Rosana aproxima esse estado daquilo que Jason Stanley chama de ansiedade sexual: o medo de perder poder na hierarquia patriarcal. Nesse enquadramento, armas, dureza, agressividade e humilhação do feminino tornam-se promessas de restauração da ordem.
A força do texto está em ligar teoria e vida comum. Rosana se pergunta como ideias tão extremas ressoam no pai de família, no vigilante, no motorista de Uber, no jovem da periferia, e sua resposta é que eles não precisam ler Donovan para habitar um país que autoriza simbolicamente o extermínio das “fraquejadas”. O bolsonarismo fornece uma linguagem para essa crise masculina: armamento, punitivismo, antipetismo, desprezo pelas lutas das mulheres e nostalgia de um tempo em que os homens mandavam mais.
O desfecho deixa claro que o ódio bolsonarista não é neutro do ponto de vista de gênero. Ele é substantivamente masculino, mesmo quando mobiliza mulheres e mesmo quando se mistura com outras agendas. O ataque às mulheres, ao feminismo, à diversidade sexual e a qualquer sinal de vulnerabilidade é parte da gramática autoritária. Para Rosana, compreender isso é indispensável: sem entender o patriarcado como forma política ativa, não se entende por que tanta gente aderiu afetivamente ao bolsonarismo.
Da Esperança ao Ódio
Este é um dos capítulos centrais do livro porque condensa a pesquisa de longa duração da autora nas periferias de Porto Alegre. O ponto de partida é a ambiguidade da inclusão lulista: ela reduziu pobreza, ampliou o acesso ao consumo e elevou a autoestima de milhões, mas o fez sem reconstruir, na mesma medida, os bens públicos e as formas coletivas de vida democrática. Rosana lê esse processo como passagem de um momento de esperança material para um momento posterior de ressentimento e hostilidade.
A figura do “autovalor” é decisiva aqui. Para muitos sujeitos populares, comprar um tênis de marca, um boné ou outro objeto de prestígio não era frivolidade; era uma forma de contrariar a mensagem social de que não mereciam “coisas boas”. A autora insiste que essa dimensão não pode ser ridicularizada. Há um ganho subjetivo real na inclusão pelo consumo: gente que antes se sentia invisível passa a experimentar orgulho, presença e direito a ocupar espaços. O problema é que essa elevação subjetiva ocorreu num contexto de individualização e fragilidade das mediações coletivas.
Rosana contrapõe esse processo ao legado do orçamento participativo e de outras formas de mobilização popular, especialmente em Porto Alegre. Se o petismo original fomentava espaços de fala e decisão coletiva, o lulismo posterior apostou muito mais na cidadania como acesso ao mercado. Com a crise econômica, esse arranjo quebra. O consumo se retrai, a dívida aperta, os serviços públicos continuam ruins, e a sensação de ter enfim sido reconhecido começa a se converter em humilhação renovada. A promessa de ascensão se torna instável, e o ressentimento encontra terreno.
O capítulo não cai, porém, numa condenação moral do lulismo. Rosana reconhece seus efeitos democratizantes e sua capacidade de produzir insubordinação entre os de baixo. Mas sustenta que, ao privilegiar a inclusão pelo consumo e a conciliação, o projeto deixou um vazio político perigoso. Quando a esperança material recuou, faltaram laços, linguagem e organização para sustentar uma resposta coletiva progressista. O ódio, então, entrou como forma degradada de recompor sentido e pertencimento.
Bandido Bom é Bandido Morto
Neste capítulo, Rosana enfrenta um dos nós mais difíceis do campo progressista: por que sujeitos pobres, negros e periféricos, muitas vezes vítimas potenciais da violência de Estado, aderem a discursos punitivistas, defendem a polícia, a pena de morte e o armamento? Em vez de responder com desprezo, ela tenta entender a lógica interna dessa posição. O caso de Maycon, jovem negro de baixa renda que sonha em ser policial e defende a dureza contra “os mano”, funciona como entrada etnográfica para um problema maior.
A autora mostra que o punitivismo popular não nasce simplesmente de ignorância ou falsa consciência. Ele se forma na experiência cotidiana de insegurança, no contato permanente com o crime, com a precariedade e com a sensação de que o Estado só aparece tarde, mal e de forma seletiva. Em muitos contextos, o trabalhador pobre se percebe como alguém que venceu obstáculos por esforço e disciplina, e vê no “bandido” uma figura que ameaça sua moral do sacrifício. A distinção entre o pobre honesto e o vagabundo torna-se então um elemento central de autodefesa simbólica.
Rosana também sublinha o papel da cultura de violência e de sua espetacularização. Programas policiais, repertórios midiáticos e narrativas de bairro ajudam a naturalizar a brutalidade. Além disso, a esquerda teria cometido o erro de abandonar o tema da segurança pública, como se falar dele fosse ceder automaticamente ao autoritarismo. Com isso, deixou livres para a direita e para o bolsonarismo categorias como ordem, proteção, medo e justiça, justamente onde as classes populares sentem a política de maneira mais concreta.
A conclusão do capítulo é severa. Não se trata de absolver o punitivismo, mas de reconhecer que ele é expressão de um país em que a violência é vivida diariamente. Uma esquerda incapaz de falar de segurança, de polícia, de crime e de medo fala sozinha. Para Rosana, o trabalhador que pede violência é, muitas vezes, alguém profundamente violentado. Entender essa contradição não resolve o problema, mas é condição para sair do moralismo impotente.
As Malas do Geddel
Rosana usa este capítulo para recolocar a corrupção no centro do debate sem aceitar o enquadramento moralista da direita. Ela começa na banalidade do cotidiano periférico, onde o problema aparece não como abstração institucional, mas como experiência concreta de abandono: lixo acumulado, posto de saúde precário, burocracia humilhante, político que só aparece em época de eleição. Nessa perspectiva, a percepção popular de corrupção é muito forte porque o Estado parece falhar o tempo todo em entregar o mínimo.
A autora critica uma parcela da esquerda por tratar a corrupção como tema secundário ou puramente fabricado pela mídia. Embora reconheça o uso seletivo e oportunista do tema pela Lava Jato e pelo antipetismo, ela insiste que, para muita gente pobre, a corrupção é real e ofensiva. Quem paga caro pela passagem, sofre para acessar um serviço público e recebe no WhatsApp imagens de malas de dinheiro não escuta bem o argumento sofisticado de que tudo não passa de moralismo conservador. Escuta, antes, que ninguém leva a sério sua indignação.
O caso Geddel Vieira Lima é então mobilizado como prova da hipocrisia do processo pós-impeachment. As malas de dinheiro mostram que a corrupção não era propriedade do PT, nem tampouco desapareceria com a troca de governo. Mas, em vez de concluir que o tema deve ser abandonado, Rosana propõe o oposto: a esquerda precisa retomá-lo. Corrupção, em sua leitura, não é apenas desvio moral individual; é problema distributivo, destruição do público, captura oligárquica do Estado e negação da igualdade democrática.
O fecho do capítulo transforma a pauta anticorrupção em questão de esquerda. Combater corrupção é defender bens públicos, universalidade, transparência e respeito ao dinheiro comum. Quando a esquerda abre mão dessa bandeira, entrega à direita um poderoso canal de indignação popular. Rosana insiste, portanto, que não basta denunciar a manipulação conservadora do tema; é preciso reconstruir uma crítica materialista da corrupção que fale também aos de baixo.
Bolsonaro Sabe Meu Nome
Este capítulo procura explicar como Bolsonaro deixou de ser figura folclórica ou de nicho e se transformou, para muitos eleitores, em alguém que oferecia reconhecimento direto. Rosana chama atenção para o vazio produzido pela prisão de Lula e pela entrada tardia de Haddad, percebido por muitos como um substituto frágil, um “poste”. Nesse cenário, Bolsonaro não venceu apenas por máquina de fake news ou por rejeição ao PT. Venceu porque já vinha, desde 2014, construindo uma comunidade afetiva em torno de si.
A autora distingue os eleitores “raiz” de Bolsonaro, aqueles que já tinham motivos claros para apoiá-lo antes do pico da desinformação eleitoral. Segurança pública, armas, antipolítica e ordem moral aparecem como motivos recorrentes. Mas o ponto mais forte do capítulo está em mostrar que esses eleitores descreviam a campanha em termos de amor, fé, verdade e participação. Diziam sentir, pela primeira vez, que faziam política por convicção e não por favor, ameaça ou troca. Bolsonaro lhes dava a sensação de serem vistos.
Ao enfatizar isso, Rosana não minimiza o papel das fake news. Ela reconhece que a onda de desinformação foi massiva e decisiva, especialmente nas semanas finais. Mas insiste que o terreno para sua eficácia já estava preparado por uma militância digital orgânica, por um sentimento de pertencimento e por uma rede de engajamento autêntica. Em outras palavras, a mentira teve força porque encontrou sujeitos já afetivamente investidos na figura do candidato e no movimento que o cercava.
O capítulo termina com um diagnóstico duro para a esquerda. Para muitos eleitores, votar em Bolsonaro foi uma maneira de recuperar autovalor e entrar num coletivo politicamente excitante. O bolsonarismo ofereceu pertencimento onde a esquerda havia deixado deserto. A derrota de 2018, assim, não decorre só de manipulação ou ignorância do outro lado, mas também da incapacidade progressista de produzir, naquele momento, uma experiência de reconhecimento popular comparável.
Mano Brown Avisou
Rosana toma a fala de Mano Brown no comício de Haddad como síntese de um problema mais profundo: a esquerda se afastou da linguagem, das sensibilidades e das experiências concretas das periferias. O capítulo começa ironizando e criticando textos e comentários que tratam o povo pobre como incapaz de entender o próprio interesse. Quando a periferia vota “errado”, parte do campo progressista tende a concluir que ela foi manipulada, não que há ali um fracasso real de escuta e de presença política.
A autora volta então ao percurso do PT. Ela reconhece o impacto material gigantesco dos governos petistas, mas argumenta que esse impacto não foi acompanhado por um enraizamento duradouro no cotidiano popular. O trabalho de base foi minguando, o partido se institucionalizou, e o vínculo com os territórios foi sendo substituído pela aposta na gestão, na inclusão pelo consumo e numa linguagem cada vez mais distante. O resultado foi um paradoxo: o partido dos trabalhadores precisou encomendar pesquisas para entender as periferias que antes ajudara a organizar.
Rosana rejeita também a tese simplificadora de que “a periferia” seria essencialmente liberal ou conservadora. Para ela, não existe uma periferia una, mas muitas periferias, muitos valores e muitas contradições convivendo no mesmo território e no mesmo indivíduo. A política já está ali: na música, na igreja, no terreiro, no consumo, nas redes de ajuda mútua, nas brigas com a burocracia. O erro não é a falta de politização dos pobres; é a pretensão de que a política só existe quando aparece na forma reconhecível pela esquerda universitária e partidária.
A frase final do capítulo é a sua tese estratégica: não é preciso politizar a periferia; é a esquerda que precisa se periferizar. Isso significa abandonar a posição de superioridade pedagógica e reaprender a ouvir. Mano Brown, nesse sentido, não oferecia apenas um alerta eleitoral; oferecia um diagnóstico civilizacional. Sem falar a língua do povo e sem aceitar a complexidade dos sujeitos populares, a esquerda continuará confundindo derrota com manipulação alheia.
Espetáculo para o Tio do Pavê
Neste ensaio, Rosana desloca o olhar para a dimensão midiática do bolsonarismo. Seu argumento é que Bolsonaro não surgiu apenas como político, mas como produto de um longo treinamento na indústria do espetáculo. Programas de auditório, entrevistas escandalosas, enquadramentos televisivos e lógica de celebridade ajudaram a transformá-lo num personagem de entretenimento antes mesmo de ele se tornar presidenciável. A política, aqui, é tratada como show business para públicos que valorizam espontaneidade, grosseria e sensação de autenticidade.
A autora aproxima Bolsonaro de figuras como Trump e Jesse Ventura para mostrar que o fenômeno não é exclusivamente brasileiro. Em todos esses casos, o outsider midiático cresce ao se apresentar como alguém que “fala o que pensa”, que rompe protocolos e que encarna o anti-establishment sem deixar de depender intensamente dos meios de comunicação. A performance da franqueza substitui a consistência do programa. O candidato se torna menos importante pelo que propõe do que pela energia cênica que projeta.
Rosana enfatiza que a grande imprensa teve papel decisivo nessa transformação ao oferecer holofote constante para suas barbaridades. Cada declaração chocante virava conteúdo, cada absurdo rendia audiência, cada aparição reforçava a familiaridade do personagem. Para o “tio do pavê”, figura que simboliza certa sociabilidade conservadora banalizada, Bolsonaro surgia como o homem comum que finalmente tinha coragem de dizer o que todos os outros escondiam. A vulgaridade era recodificada como sinceridade.
O capítulo, porém, não termina em determinismo midiático. Rosana reconhece a potência do espetáculo, mas sugere também seus limites. A política do entretenimento pode levar muito longe, sobretudo em tempos de crise e desmoralização institucional, mas dificilmente sustenta governabilidade indefinidamente sem resultados concretos. O bolsonarismo, nesse sentido, é forte enquanto performance, mas carrega sempre o risco de desabar quando o palco já não basta para encobrir a realidade material.
Va-Ga-Bun-Do!
Rosana investiga aqui a figura do “vagabundo” como inimigo interno do fascismo brasileiro. Diferentemente de muitos nacionalismos europeus, que organizam seu medo em torno do estrangeiro, o autoritarismo brasileiro frequentemente aponta para dentro: o morador de rua, o camelô, o jovem negro, o pobre informal, o manifestante, o “bandido”. A palavra vagabundo condensa esse desprezo. Ela permite transformar sujeitos precários em ameaça moral, justificando violência, limpeza social e humilhação cotidiana.
O capítulo articula episódios históricos e contemporâneos para mostrar a persistência dessa lógica. Da violência contra populações de rua à criminalização dos camelôs, dos indígenas aos jovens periféricos, o Estado e as elites produzem continuamente categorias de gente descartável. Rosana sublinha que, no Brasil de Bolsonaro e de Sergio Moro, o vagabundo se amplia ainda mais: já não é apenas o criminoso, mas também o ativista, o suspeito, o diferente, o terrorista em potencial. A fronteira entre controle penal e perseguição política se estreita.
Um ponto crucial do ensaio é a dificuldade de muitos sujeitos populares em se reconhecerem dentro dessa categoria de desprezo. Camelôs podem aderir ao discurso contra camelôs, moradores de periferia podem pedir mais dureza contra “vagabundos”, trabalhadores informais podem defender políticas que os colocam em risco. A autora vê nisso um problema de identidade nacional mal resolvida, atravessada por racismo, desejo de distinção e recusa em assumir a própria proximidade com os alvos da repressão.
Ao final, o capítulo mostra que Bolsonaro não inventa essa figura, mas a radicaliza e a normaliza. Sua força está em dar autorização simbólica para que setores sociais expressem sem constrangimento um ódio antigo contra o inimigo interno. O “vagabundo” é a peça que organiza a coalizão entre autoritarismo, elitismo e punitivismo. Nomeá-lo é, para Rosana, condição para entender o fascismo tropical em sua forma brasileira.
Uberminion
Rosana propõe neste capítulo uma tipologia dos eleitores de Bolsonaro para escapar da ideia preguiçosa de que metade do país virou fascista de uma vez. Seu ponto de partida é estratégico: não é possível agir politicamente sem distinguir perfis, motivações e graus de adesão. Ela separa, em linhas gerais, três grupos. Há os ricos que escolheram conscientemente o autoritarismo para restaurar privilégios e punir a “gentalha”; há um núcleo duro sectário, cada vez mais fechado em mundos paralelos; e há o vasto conjunto dos trabalhadores flexibilizados, empobrecidos e ressentidos, entre os quais o motorista de Uber funciona como tipo emblemático.
A análise desse último grupo é central. São sujeitos que trabalham demais, vivem inseguros, não têm vínculos coletivos fortes, sentem que o Estado não os protege e percebem que as políticas sociais do período anterior pouco chegaram a eles. Não são os paupérrimos, nem as elites; são os estratos intermediários, frequentemente precarizados, que se veem abandonados e ainda assim sem legitimidade para serem reconhecidos como vítimas. A narrativa bolsonarista lhes ofereceu uma explicação simples: o sistema beneficia corruptos, bandidos e minorias, não gente como eles.
Rosana distingue também os que podem ser disputados dos que já se tornaram seita. O núcleo duro bolsonarista reage à Vaza Jato, por exemplo, como comunidade religiosa: qualquer crítica é lida como ataque do mal aos heróis. Esse grupo autorizou a si mesmo fantasias de fechamento do Congresso, do Supremo e de violência aberta contra opositores. Mas nem todo eleitor de Bolsonaro está nesse ponto. Muitos aderiram por medo, ressentimento ou falta de alternativa visível e não necessariamente internalizaram integralmente a lógica paranoica do movimento.
O valor do capítulo está em recolocar a política no terreno da diferenciação. Não basta chamar todos de ignorantes, nem tampouco supor que todos são recuperáveis. É preciso decidir com quem dialogar, quem combater e como reconstruir narrativa popular para trabalhadores desagregados pelo neoliberalismo. O “uberminion” é justamente esse sujeito híbrido: não um monstro pronto, mas alguém capturado por um autoritarismo que encontrou terreno fértil na precarização social.
Abaixo a Ditadura da Baranga
Neste capítulo, Rosana observa um grupo de mulheres bolsonaristas do Leblon para entender como o antifeminismo feminino funciona por dentro. O título resume o mecanismo: a feminista é caricaturada como feia, mal-amada, malvestida, desleixada, em suma, como “baranga”. A defesa de Bolsonaro, por sua vez, vem associada a beleza, feminilidade, família, consumo de luxo e segurança. O que a autora encontra é um universo em que a política passa por padrões de corpo, classe e distinção social.
A análise mostra que esse bolsonarismo feminino combina falso nacionalismo e imaginação social colonizada. As mesmas mulheres que postam “Brasil acima de tudo” exibem viagens, compras e estilos de vida internacionalizados como símbolos de valor. Seu Brasil ideal é o condomínio branco, rico, familiarista, disciplinado e protegido. A rejeição ao feminismo nasce tanto da defesa de papéis tradicionais quanto da defesa de uma estética social específica, em que a boa mulher é bela, magra, bem-casada, materna e de classe alta.
Rosana mostra também como essas mulheres incorporam a narrativa de que Bolsonaro protegeria as mulheres, especialmente por sua retórica de endurecimento penal e defesa da família. A violência masculina real, sobretudo a doméstica, é deslocada para um inimigo externo e socialmente marcado: o criminoso, o estuprador de fora, o vagabundo. Assim, o bolsonarismo consegue se apresentar a muitas mulheres não como ameaça, mas como abrigo. O patriarcado aparece aí não só como dominação masculina, mas como ordem também reproduzida por mulheres.
O fecho do capítulo alarga a questão. Não é estranho que mulheres apoiem Bolsonaro; estranho seria imaginar que elas estivessem automaticamente fora do jogo patriarcal. Rosana lê esse apoio como parte de um regime maior de controle dos corpos femininos, de racialização da beleza e de adesão a valores conservadores que continuam fortes no Brasil. O bolsonarismo feminino, portanto, não é desvio exótico; é componente essencial de uma ordem social que se pretende natural.
Bolsominions Arrependidos
Rosana escreve este capítulo no começo do governo Bolsonaro, quando já aparecem sinais visíveis de decepção. O dado que estrutura o texto é a rápida queda de popularidade do presidente, inclusive em comparação com outros inícios de mandato. A autora argumenta que o fenômeno do arrependimento não era surpreendente: muitos eleitores foram seduzidos por uma onda de esperança vazia, por promessas morais e por sensação de ruptura, mas esse investimento afetivo precisaria se confrontar cedo ou tarde com a realidade do governo.
Ela identifica diferentes vetores de frustração. Há os “estratos esmagados” da crise econômica, para os quais emprego, renda e melhoria material não chegam. Há homens atraídos pela promessa de restauração viril que não veem sua vida mudar. Há ainda eleitores que esperavam um governo tecnicamente eficiente e encontram nepotismo, trapalhadas, conflitos internos e ausência de resultados. Ou seja, o bolsonarismo produz arrependimento quando deixa de parecer remédio para a crise e passa a aparecer como parte do problema.
Ao mesmo tempo, Rosana não simplifica o processo. O arrependimento não dissolve automaticamente o bolsonarismo, porque a adesão ao movimento foi construída também sobre conservadorismo moral, fundamentalismo religioso, fake news, identificação afetiva e desejo de pertencimento. Em alguns setores, a decepção não gera moderação, mas radicalização: o governo seria ruim não por excesso, mas por insuficiência, por não ser duro o bastante. O campo bolsonarista pode, portanto, perder apoio e endurecer ao mesmo tempo.
A conclusão do capítulo sugere que o arrependimento é politicamente relevante, mas não garante por si só recomposição democrática. É preciso compreender quais grupos se desiludem, por quê e com que linguagem se pode recebê-los. O risco, para a oposição, é supor que o fracasso governamental fala por si. Para Rosana, fracassos materiais só se tornam reorientação política quando encontram narrativas capazes de organizar de novo a experiência social.
A Revolta das Vedetes
Neste ensaio curto e importante, Rosana retorna ao universo dos rolezinhos para reparar uma cegueira analítica: o foco excessivo nos meninos que viraram bolsonaristas fez com que ela e Lucia demorassem a ver o que acontecia com as meninas. As “vedetes”, apelido usado nos bailes e nos rolezinhos, aparecem agora como sinal de uma mudança decisiva. O Brasil recente não produziu apenas masculinidade ressentida; produziu também uma geração de meninas politizadas que se apropriam do debate público em nova chave.
A autora articula essa transformação à primavera feminista e às ocupações secundaristas. O que surge é um espírito de contestação que atravessa escolas, bairros, redes e relações familiares. Meninas discutem política, enfrentam pais e irmãos bolsonaristas, recusam a subalternidade e se movem em torno de pautas de gênero, raça e direitos. Essa emergência feminina não acontece separada do avanço da extrema-direita; acontece como resposta e contraponto a ele, em meio a uma forte reação masculina.
Rosana mostra que a figura de Bolsonaro opera, para muitos homens, como emblema de virilidade armada num contexto de insegurança e perda de poder. Mas esse mesmo processo intensifica a consciência política das mulheres. A cisão de gênero nas eleições de 2018 não é acidental. Ela expressa uma reconfiguração mais funda: homens e mulheres reagindo de modos diferentes à crise, à violência e à transformação dos costumes. O bolsonarismo mobiliza o medo masculino; o feminismo mobiliza uma recusa crescente da sujeição.
O capítulo termina afirmando que a “revolta das vedetes” não é detalhe sociológico, mas um dos acontecimentos políticos mais relevantes do período. Se o país se moveu para a direita, moveu-se também, simultaneamente, para um feminismo de massa entre as jovens. Rosana sugere que esse processo talvez tenha sido subestimado justamente porque muita análise política continua olhando primeiro para os homens, mesmo quando o novo vem delas.
A Extrema-Direita Venceu, as Feministas Também
Este capítulo aprofunda a intuição do anterior e desloca o centro da análise para o feminismo contemporâneo. Rosana reconhece que, durante um tempo, sua atenção e a de muita gente ficou presa à bolsonarização dos meninos periféricos. Mas, ao olhar melhor, surgem figuras como Maria Rita, adolescente que enfrentava o bolsonarismo dentro de casa e convencia a mãe com argumentos, não com raiva. A autora enxerga aí não um caso isolado, mas o indício de uma geração inteira.
Rosana conecta o Brasil a um movimento internacional de jovens mulheres que se organizam de formas menos hierárquicas, mais afetivas e mais ousadas. No caso brasileiro, o ponto culminante é o EleNão, que ela descreve como o maior protesto de mulheres da história do país. O aspecto decisivo, porém, não está só no tamanho da marcha, mas no modo como o movimento circulou: por conversas entre mulheres, por redes informais, por convencimento de parentes, amigas, chefes e vizinhas. A política reaparece como persuasão horizontal em larga escala.
A autora também reage à tentativa, vinda inclusive de setores da esquerda, de responsabilizar o EleNão por eventual crescimento de Bolsonaro no primeiro turno. Para ela, essa crítica não apenas erra causalmente; ela não enxerga o que havia de novo no processo. O movimento não foi simples ato identitário, mas politização concreta de mulheres em defesa da democracia e dos direitos humanos. Mesmo derrotado eleitoralmente, produziu ganhos organizativos e subjetivos que não se dissolvem com o resultado das urnas.
O capítulo fecha com uma tese forte: o cenário atual não pode mais ser lido apenas no eixo esquerda-direita. Há também uma divisão que passa por gênero, raça, sexualidade e posição social. De um lado, o homem branco de direita como tipo ideal do poder ameaçado; de outro, a mulher negra, lésbica, trans, pobre e progressista como figura da resistência emergente. A extrema-direita venceu a eleição, diz Rosana, mas o feminismo venceu historicamente algo talvez ainda maior: a formação de uma geração que não aceitará voltar ao lugar anterior.
Amanhã Vai Ser Maior
Rosana organiza este capítulo em torno de um episódio pessoal: a reação a uma palestra sua em São Borja, cidade carregada de simbolismo político no imaginário gaúcho. A partir daí, constrói duas narrativas sobre o Brasil contemporâneo. A primeira é a do ataque: mentiras espalhadas por WhatsApp, fotos descontextualizadas, jornal local convertendo a professora em inimiga política, homens ofendidos pela presença de uma mulher crítica ao bolsonarismo. Essa é a versão do país dominada pelo ressentimento patriarcal e pela desinformação mobilizada.
A segunda narrativa é a do encontro. O auditório lotado, os estudantes vindos de longe, as perguntas agudas, o interesse genuíno pela reflexão, o desejo de debate. A conferência, nessa chave, mostra um outro Brasil, especialmente mais jovem, mais aberto e mais disposto a pensar criticamente o presente. O capítulo contrapõe, assim, dois tempos históricos coexistentes: o da geração mais velha agarrada a mitos autoritários e o de jovens que já habitam outra sensibilidade política.
Rosana usa o caso de São Borja para refletir sobre o Sul do Brasil, sobre a mística gaúcha, sobre nostalgia e sobre a adesão regional à Lava Jato e a Bolsonaro. Há, segundo ela, uma fantasia de passado heroico e masculino que se torna terreno fértil para o autoritarismo em contextos de crise econômica e perda de posição. Mas essa fantasia convive com uma transformação geracional irreversível. As novas gerações já não cabem nessa moldura, e o conflito entre elas e o núcleo duro bolsonarista torna-se cada vez mais visível.
O fecho é ao mesmo tempo esperançoso e exigente. Rosana não cai no conforto de dizer simplesmente que acredita “na rapaziada”. Ela afirma que a mudança geracional é real, mas que precisa de instituições preservadas para se realizar politicamente. Cabe aos adultos que ocupam hoje escolas, universidades, imprensa, justiça e sociedade civil defender esse espaço de transição. O amanhã será maior não por automatismo biológico, e sim porque os jovens já mudaram o país por baixo e agora precisam poder ocupá-lo por cima.
Esperança, Substantivo Feminino
O último capítulo fecha o livro contra o derrotismo. Rosana parte de Noam Chomsky para dizer que, diante da catástrofe, há duas opções: desistir e esperar o pior, ou reconhecer as oportunidades reais de resistência e agir sobre elas. A autora não minimiza a dimensão da derrota brasileira. Ela fala de adoecimento, fuga de cérebros, exílio, sensação de fracasso nacional. Mas insiste que a esperança só tem valor se for tratada como escolha política e prática organizada, não como consolo sentimental.
Nesse ponto, ela faz um movimento conceitual importante. A desesperança é reconhecida como fato histórico, não como fraqueza individual. Ela decorre de autoritarismo persistente, desigualdade estrutural, captura do público e violência cotidiana. Mas Rosana recorre a Paulo Freire, Ernst Bloch e Ana Cecilia Dinerstein para sustentar que a esperança verdadeira é concreta: ela nasce quando sujeitos e coletivos, ao lutar, já produzem pequenas formas de outro mundo. Esperança não é esperar; é instituir, mesmo em escala limitada, práticas de democracia, solidariedade e imaginação comum.
Por isso, a autora volta a olhar para os jovens e para os coletivos do presente. A geração pós-2013 aparece como mais radical nas pautas de raça, gênero e sexualidade, mais horizontal nas formas de organização e mais atenta às opressões reproduzidas inclusive entre aliados. Mas Rosana evita transformar isso em fé cega na juventude. O ponto não é idealizar os novos, e sim perceber que já existem, espalhadas pelo país, experiências que desafiam a lógica neoliberal do hiperindividualismo e do autoritarismo.
O capítulo se encerra enumerando essas experiências concretas: reação à censura na Bienal do Livro, redes autogestionadas de distribuição de livros, cursinhos populares, iniciativas feministas e antirracistas, slams, escolas de formação, mobilizações estudantis. São exemplos de que a sociedade brasileira não se resume ao bolsonarismo nem ao esgotamento institucional. O livro termina, portanto, onde queria chegar desde o início: não na negação da tragédia, mas na recusa de aceitá-la como destino.
Fecho
Lido em conjunto, Amanhã vai ser maior é menos uma narrativa linear sobre “como Bolsonaro venceu” do que um mapa de forças em disputa no Brasil pós-2013. O livro insiste em três ideias que voltam o tempo todo: a revolta contemporânea é frequentemente ambígua; a esquerda fracassou em compreender e disputar parte decisiva dessa ambiguidade; e, apesar disso, surgiram formas novas de resistência, especialmente feministas, que já alteraram a paisagem política do país.
A contribuição mais forte de Rosana está em não escolher entre estrutura e afeto. Ela lê crise econômica, neoliberalismo, erosão democrática, precarização do trabalho, ressentimento de classe, punitivismo, patriarcado e desinformação como dimensões entrelaçadas. Com isso, consegue mostrar por que a política brasileira recente foi vivida por tanta gente não como debate programático, mas como experiência emocional de perda, humilhação, raiva, pertencimento e desejo de reconhecimento.
Por fim, o livro sustenta uma posição rara: a esperança não é retórica consoladora nem ingenuidade histórica. Ela é uma prática de observação e de organização. Só pode ser afirmada se estivermos dispostos a olhar para onde a vida democrática ainda pulsa, mesmo sob derrota. É essa escolha que dá sentido ao título: o amanhã pode ser maior, mas apenas se alguém trabalhar para ampliá-lo.
Ver também
- thymos — O ressentimento e o desejo de reconhecimento que Rosana descreve nas classes populares precarizadas é, na chave teórica do vault, thymos negado: a demanda de ser visto, respeitado e pertencente que o bolsonarismo soube mobilizar quando a esquerda não soube.
- resumo_amanha_vai_ser_maior — A coletânea organizada por Cocco/Hardt lê o mesmo ciclo pós-2013, mas pelo vocabulário autonomista da multidão; a comparação entre os dois livros revela duas apostas políticas opostas sobre como nomear a mesma energia.
- Desiludidos ou Desmotivados — O Centro Poroso da Locomotiva — O eleitor do centro que Rosana deixa implícito como ausência: quem se afastou da política sem aderir ao bolsonarismo, o avesso simétrico dos “batalhadores” que aderiram.
- resumo_os_sentidos_do_lulismo — André Singer analisa a base social do PT no poder — o subproletariado lulista — que Rosana acompanha na sua passagem do entusiasmo ao ressentimento; os dois livros juntos descrevem a mesma trajetória por dentro e por fora do eleitorado.
- pablo_marcal — Fenômeno posterior ao livro de Rosana, mas que confirma sua tese sobre captura da revolta ambígua: Marçal mobiliza o mesmo desejo de reconhecimento das classes populares precarizadas num formato ainda mais radical do que o bolsonarismo.