Amanhã Vai Ser Maior, org. Giuseppe Cocco — Resumo
Sinopse
Amanhã Vai Ser Maior é uma coletânea que lê as Jornadas de Junho de 2013 não como episódio passageiro de protesto, mas como irrupção de uma multidão metropolitana, conectada em rede e hostil às formas clássicas de representação — o ponto de chegada de uma nova composição social urbana, jovem, precária e biopolítica que o pacto lulista-neodesenvolvimentista não conseguiu absorver. A tese central, formulada no prefácio de Michael Hardt e desenvolvida pelos diferentes autores, é que junho revelou um tipo diferente de organização política: horizontal, auto-organizada, territorialmente enraizada, capaz de articular diferenças sem reduzi-las a uma unidade artificial. O referencial teórico é o autonomismo italiano (Negri, Hardt, Tronti, Spinoza, Foucault, Benjamin), combinado com leituras jurídicas, memorialísticas e urbanísticas da experiência brasileira.
O volume organiza ensaios de diferentes autores — prefácio de Michael Hardt (“Junho maldito”), introdução de Giuseppe Cocco (“A dança dos vagalumes”) e capítulos por militantes e intelectuais como Fabricio Toledo, Adriano Pilatti, Carlos Meijueiro, Rociclei Silva, Eduardo Baker & Natália Damázio e Bruno Cava — divididos em cinco partes (Ruas, Redes, Afetos, Conceitos e Metrópoles). Cada ensaio tem autonomia forte mas todos giram em torno da mesma pergunta: o que exatamente apareceu no Brasil em junho de 2013 e o que isso revelou sobre o Estado, a esquerda, a violência policial e a crise da representação. O método é heterodoxo: memória militante, análise jurídica de boletins de ocorrência, filosofia política, etnografia urbana e ensaio literário coexistem.
Para o vault, o livro é útil por dois motivos convergentes. Primeiro, pela hipótese de Hardt sobre a inversão estratégia/tática — a multidão formula estratégia, a liderança cumpre função tática subordinada — que conecta com a discussão sobre novas formas de intermediação e participação. Segundo, pelo diagnóstico de que junho revelou os limites do modelo lulista de inclusão sem participação democrática substantiva: o capítulo de Rociclei Silva sobre a favela e a figura de Amarildo condensa a tese sobre thymos negado — a experiência de quem luta não por pauta, mas pela possibilidade elementar de existir com dignidade.
Este resumo foi escrito a partir do PDF enviado. A prioridade é reconstituir o argumento de cada texto com fidelidade ao vocabulário político do livro — multidão, comum, biopolítica, metrópole, resistência, pacificação — sem tentar normalizá-lo num idioma acadêmico mais neutro do que o dos autores.
Como se trata de uma coletânea, cada capítulo tem autonomia forte. Ainda assim, há uma linha comum: junho de 2013 é lido menos como um episódio passageiro do que como a irrupção de uma inteligência coletiva metropolitana, conectada em rede, hostil às formas clássicas de representação e frontalmente confrontada com a violência do Estado e com os limites do pacto lulista-neodesenvolvimentista.
O livro se organiza em cinco partes — Ruas, Redes, Afetos, Conceitos e Metrópoles —, mas, no fundo, todas giram em torno da mesma pergunta: o que exatamente apareceu no Brasil em junho de 2013, e o que isso revelou sobre o trabalho, a cidade, a juventude, os pobres, a esquerda, a polícia e a crise da representação? O que segue é uma reconstrução detalhada desse percurso.
Prefácio — Michael Hardt, “Junho maldito”
Hardt abre o volume comparando junho de 2013 às jornadas de junho de 1848 em Paris. A analogia não é ornamental. O ponto é que, assim como Marx viu no proletariado insurgente uma força derrotada no curto prazo, mas historicamente decisiva, Hardt propõe ler a multidão brasileira como uma potência que talvez não tenha vencido de imediato, mas expôs uma face nova da luta política contemporânea. O centro de sua leitura está menos nas reivindicações isoladas do que na forma de organização: horizontal, auto-organizada, sem comando central e, justamente por isso, capaz de articular diferenças sem reduzi-las a uma unidade artificial.
Para Hardt, chamar os protestos de “multidão” não significa chamá-los de espontâneos, desorganizados ou amorfos. Significa reconhecer um tipo diferente de organização política: uma coordenação distribuída, territorialmente enraizada, que não apaga antagonismos internos, mas os trabalha. A multidão não é partido, vanguarda ou povo soberano unificado. É composição. Por isso, o prefácio já demarca o vocabulário de todo o livro: o problema de junho não é a falta de liderança, e sim como pensar estratégia e duração em movimentos que não querem converter sua energia em hierarquia estável.
Hardt sustenta que essas lutas emergem de duas condições estruturais. A primeira é a produção do comum metropolitano: o conflito sobre transporte, espaço urbano, megaeventos e privatização de áreas públicas exprime um desejo de fazer da cidade um bem comum, não um negócio nem um simples objeto de administração estatal. A segunda é a emergência de uma força de trabalho nova, jovem, precária, altamente inteligente e conectada, cuja produtividade biopolítica — comunicação, cooperação, invenção, sociabilidade — entra em choque com as oportunidades miseráveis oferecidas pela ordem vigente.
O prefácio termina com uma hipótese estratégica: a velha distinção moderna entre massas espontâneas e liderança que pensa a estratégia talvez tenha se invertido. Inspirando-se em Mario Tronti, Hardt sugere que hoje os movimentos podem formular a estratégia, enquanto estruturas de liderança só fariam sentido como instrumentos táticos, temporários e subordinados ao controle democrático da própria multidão. O desafio, então, não é devolver a multidão à tutela de partidos ou chefes, mas inventar formas de contrapoder que não se cristalizem em novos aparelhos.
Introdução — Giuseppe Cocco, “A dança dos vagalumes”
Cocco interpreta o ciclo de junho a outubro de 2013, sobretudo no Rio de Janeiro, como um êxodo. O termo é decisivo: não se trata apenas de protesto, mas de uma saída coletiva das formas normais de sujeição que organizam a vida urbana brasileira. A revolta contra a tarifa é o estopim, mas rapidamente a insurgência se desloca para um campo mais amplo: megaeventos, remoções, violência policial, teleféricos, pacificação, empreiteiras, corrupção e negação prática do direito à cidade. O Rio aparece como laboratório extremo dessa contradição, porque ali o consenso entre governo, grandes obras, FIFA, mídia e polícia se mostra em sua forma mais brutal.
Uma das teses mais fortes da introdução é que a esquerda de governo reagiu a junho pela via da desqualificação. Primeiro chamou os protestos de conservadores ou golpistas; depois, de vandalismo; em seguida, de fascismo. Cocco considera isso não só um erro político, mas uma mistificação. Para ele, o fascismo real não está na multidão, e sim na lógica desenvolvimentista que combina racionalidade instrumental, militarização dos pobres, reprodução da casa-grande e governabilidade com empreiteiras. Ao inverter a acusação, ele afirma que o verdadeiro autoritarismo está no dispositivo que quer “desarticular o movimento” para impor obras, teleféricos, remoções e megaeventos sobre populações que não foram consultadas.
A introdução desloca então o problema da legalidade para o da justiça. Cocco argumenta que, no Brasil, a lei funciona muitas vezes como lei da força. Recorre a Spinoza, Paolo Grossi, Hannah Arendt, Bonhoeffer, Primo Levi, Benjamin e à tradição do êxodo para sustentar que direitos reais nascem na luta, apesar da lei, contra a lei ou nas suas brechas. É por isso que a repressão aos manifestantes, a aplicação expansiva de tipos penais e o uso arbitrário do aparato policial revelariam não um excesso ocasional, mas a verdade do Estado sobre os pobres. Amarildo, nesse sentido, torna-se mais que um nome próprio: converte-se em cifra da senzala contemporânea.
A parte final da introdução é a mais lírica e talvez a mais característica do livro. Cocco lê os jovens mascarados como “vagalumes”, isto é, como lampejos frágeis e insistentes de resistência no meio da noite do poder. A tática black bloc aparece não como patologia, mas como invenção de resistência diante da violência estatal. A juventude, com sua mistura de potência, pureza e ingenuidade, é pensada como aquilo que ainda não se deixou capturar pela experiência burocrática e pelo cinismo do Estado. A “dança dos vagalumes”, assim, nomeia uma política da sobrevivência luminosa: pequenas luzes móveis, difíceis de apreender, que indicam a persistência do possível.
Parte I — Ruas
Capítulo 1 — Fabricio Toledo, “Insubmissão: a multidão forjando sua inteligência”
Fabricio Toledo parte da ideia de que algo “inominável” vinha sendo produzido muito antes de junho e explodiu então nas ruas. Esse algo não nasce do nada nem da inspiração súbita; é fruto de anos de encontros, contágios, afetos e pequenas práticas de insubmissão. O autor insiste que a multidão não é improviso puro: ela é trabalho, maturação e invenção coletiva. Junho aparece, nessa chave, como parto político de uma inteligência comum que estava sendo formada em condições de pobreza, precariedade e experimentação.
O capítulo associa essa emergência ao desejo e à vida entendidos afirmativamente. A revolta não é reduzida a carência, ressentimento ou mero protesto reativo. Há nela desejo de expansão, de intensificação da existência, de produção de conexões que excedem as reivindicações imediatas. Daí a centralidade de Negri, Spinoza e Foucault: a democracia vale porque pode ampliar a potência dos corpos e das mentes, e a insurgência vale porque rompe os bloqueios que impedem a vida de ir além do que lhe foi concedido.
Toledo descreve a polícia como expressão “cinzenta” da gestão biopolítica da cidade. Ela não entra em cena apenas para restabelecer a ordem quando os protestos aparecem; está permanentemente presente na administração desigual dos fluxos, dos pobres e dos territórios. Por isso, a violência das ruas não pode ser analisada moralisticamente, como se fosse desvio de um protesto idealmente pacífico. O que interessa ao autor é que a recusa, inclusive quando assume formas de confronto, pode ser momento constituinte de cidadania e não simples negatividade.
Na parte final, o texto desloca a luta para a cidade. A questão do transporte coletivo é lida como condensação estratégica porque a metrópole inteira se tornou espaço de produção e exploração. Se a cidade funciona como fábrica social, paralisar a circulação, ocupar espaços, interromper ritmos e redes é tocar o coração do processo produtivo. A insurgência, então, não carece de pauta: ela já exprime um conflito central sobre mobilidade, apropriação da riqueza comum e produção democrática da vida urbana. Seu horizonte não é a utopia abstrata, mas a liberação em ato.
Capítulo 2 — Adriano Pilatti, “O ano das maravilhas e dos pesadelos”
Pilatti escreve um diário político-analítico da experiência carioca de 2013. Seu ponto de partida é a sensação de que tudo começou “pelo clímax”: uma onda que concentrou insatisfações acumuladas — transporte precário, remoções, gastos da Copa, violência policial, privatização do espaço urbano, fadiga da representação — e lhes deu forma pública simultânea. A rua aparece, nesse texto, como lugar de convergência biopolítica: ali se encontraram movimentos, coletivos, desejos, denúncias e linguagens antes dispersos.
O autor dá grande ênfase à juventude e às redes. Junho é descrito como tomada da palavra por uma geração que não só foi às ruas, mas produziu suas próprias narrativas em tempo real, forçando a mídia corporativa a corrigir versões e disputar sentidos com midialivristas. Pilatti insiste que houve, de fato, decretos da multidão: revogação de aumentos, contenção temporária de remoções, arquivamento de medidas odiosas e humilhação momentânea das elites políticas. A democracia brasileira, por um breve período, foi reaberta pelo dissenso direto.
Mas o capítulo não romantiza o processo. A partir do sucesso inicial, vem o pesadelo: repressão crescente, tentativa de captura pela direita, campanhas de medo, uso da violência policial como estratégia de dissuasão e criminalização sistemática. É aqui que Pilatti acompanha a transformação do cenário: do grande fluxo heterogêneo de junho ao protagonismo posterior dos adeptos da tática black bloc, em meio à retirada de parte do “manifestante comum”. O texto recusa as caricaturas fáceis e tenta acompanhar, por dentro, a mutação do repertório das ruas.
Um dos pontos mais fortes do capítulo é mostrar como a própria repressão gerou infraestruturas de solidariedade: mídias independentes, equipes de socorristas, redes de advogados, debates públicos, manifestos universitários, assembleias e formas novas de apoio mútuo. Ao final, Pilatti sugere que, ainda que tudo se dissipasse logo depois, o aprendizado coletivo já teria sido extraordinário. Mas ele não entrega a última palavra ao desencanto. O ano foi de maravilhas e pesadelos porque abriu, ao mesmo tempo, um mundo futuro quase tocável e uma reação feroz do poder contra essa possibilidade.
Capítulo 3 — Carlos Meijueiro, “Um conto de ficção sobre noites drásticas”
Meijueiro escolhe a primeira pessoa e a memória fragmentária para contar junho. Em vez de oferecer interpretação sistemática, ele reconstrói a experiência vivida de quem esteve nas ruas do Rio e ficou marcado por aquilo. O texto é menos um ensaio conceitual do que uma narrativa nervosa, montada por cenas, objetos, cicatrizes, ruídos e restos: pedaços de lixeira derretida, pixações na ALERJ, cocos voando na polícia, fumaça, correria, tiros, escadarias ocupadas. A política aparece primeiro como corpo em estado de excitação.
Essa escolha formal não é mero capricho literário. O autor quer fazer sentir o que a normalização posterior apaga: a mistura de medo, vertigem, aprendizado e energia que constituiu aquelas noites. A experiência da rua é mostrada como escola improvisada. Não se entra nela com um saber pronto; aprende-se no meio do caos, observando, correndo, ajudando, errando, experimentando. O texto registra a maneira como junho alterou a percepção do centro da cidade e do próprio narrador, que passa a carregar aquelas cenas como memória permanente.
O capítulo também ajuda a entender por que o black bloc ocupou tão fortemente o imaginário daquele ciclo. Meijueiro não se define doutrinariamente por essa tática, mas se reconhece constantemente “lá na frente”, numa posição ambígua entre observação, participação e fascínio. Para ele, a linha de frente não é uma abstração ideológica; é um lugar físico e afetivo onde o confronto com a polícia reorganiza alianças, medos e formas de coragem. Os vídeos na internet, a circulação de relatos e a percepção de que a violência policial era sistemática reforçam esse deslocamento.
No fim, o texto fecha numa espécie de educação sentimental e política. Junho teria sido, para o narrador, ao mesmo tempo escola e faculdade: um processo acelerado de formação que nenhuma instituição convencional conseguiria oferecer. Não há aqui programa fechado, e isso é parte do argumento. O capítulo vale justamente por mostrar como, para muita gente, junho foi antes de tudo uma experiência transformadora da sensibilidade, da percepção e da disponibilidade para agir.
Capítulo 4 — Rociclei Silva, “A força de Jó nos levantes de junho”
Rociclei Silva leva o foco da análise para a favela e corrige um dos vícios centrais das leituras apressadas de junho: tratar a revolta como fenômeno vindo apenas do asfalto, da classe média ou do centro urbano formal. Seu argumento é que a favela nunca esteve adormecida. Ela vive em luta permanente pela possibilidade elementar de existir. Junho, nesse sentido, não cria a resistência da favela; apenas a conecta a um ciclo mais amplo de visibilidade e enfrentamento.
A figura de Jó organiza o texto porque permite pensar a experiência do sofrimento persistente, da humilhação cotidiana e da resistência que não cessa mesmo sob devastação. A guerra policial, a “pacificação”, as chacinas, o desaparecimento de Amarildo e os assassinatos em favelas como Maré e Manguinhos aparecem como o pano de fundo real de qualquer análise sobre democracia no Rio. Insurgir-se, para quem vive nesses territórios, não é gesto simbólico elegante; pode equivaler a uma sentença de morte.
O autor insiste que a favela não é só vítima. Ela é também usina de cultura, de invenção e de organização. Sua resistência é territorial, estética e afetiva. Há um saber da sobrevivência que o Estado não produz e a mídia não entende. Quando a multidão das ruas se conecta a esse mundo, ganha outra densidade. O nome Amarildo, então, não designa apenas uma vítima específica, mas um ponto de condensação entre racismo, violência de Estado, pobreza e recusa coletiva em aceitar o desaparecimento como rotina.
O texto conclui defendendo que o amor constitui outro tempo. Essa frase, que poderia soar ornamental em outro contexto, aqui tem função política precisa. Significa que a resistência da favela não é feita só de enfrentamento, mas também de laços, cuidado, memória e afirmação da vida comum. A força de Jó não é resignação; é a obstinação de quem continua lutando para que a cidade deixe de ser organizada como máquina de guerra contra os pobres.
Capítulo 5 — Eduardo Baker e Natália Damázio, “A segurança nacional e o estilingue”
Baker e Damázio fazem uma arqueologia jurídica da repressão. O ponto de partida é simples e devastador: quem produz a ficção principal não são os manifestantes, mas o próprio Estado. A polícia fabrica “estórias” depois da prisão, seleciona provas, preenche autos, produz narrativas oficiais e arquiva sua versão dos fatos como se fosse verdade bruta. O capítulo lê boletins de ocorrência, inquéritos e documentos policiais para mostrar como a violência estatal se oculta justamente no momento em que se transforma em registro.
A análise desmonta episódios concretos de flagrantes forjados e acusações elásticas. Os autores mostram como tipos penais disparatados — sabotagem, associação criminosa, dano, incitação, porte de artefato explosivo — são mobilizados para dar aparência de legalidade a detenções arbitrárias. A invocação episódica da Lei de Segurança Nacional e, depois, da nova Lei de Organizações Criminosas, é apresentada como sintoma de um sistema que atualiza o velho estado de exceção em linguagem mais aceitável ao presente.
O caso de Rafael Braga Vieira ocupa lugar central. Morador de rua, negro, preso com produtos de limpeza transformados em “coquetel molotov”, Rafael se torna prova viva de que o direito penal atinge seletivamente os corpos mais vulneráveis. O capítulo mostra como a construção do inimigo depende de classe, cor, moradia e posição social. O aparato jurídico-policial não reage à violência em abstrato; ele decide quem pode ser lido como ameaça antes mesmo dos fatos.
No fim, o texto sugere que a criminalização dos protestos não é acidente nem excesso pontual. Ela faz parte de uma estratégia mais ampla de governo, em que a linguagem da segurança recobre a gestão da dissidência. O “estilingue” do título funciona como contraste irônico: de um lado, a desproporção material entre os meios dos manifestantes e o aparato estatal; de outro, a necessidade que o Estado tem de exagerar a ameaça para justificar o próprio endurecimento.
Capítulo 6 — Alexandre do Nascimento, “Ações afirmativas e jornadas de junho: tudo a ver!”
Alexandre do Nascimento rejeita frontalmente a tese de que junho teria sido um surto de classe média branca sem relação com as lutas dos pobres e dos negros. Para desmontar essa leitura, ele reconstrói a genealogia das ações afirmativas no Brasil: Marcha Zumbi dos Palmares, movimento negro, cursos pré-vestibulares populares, PVNC, lutas por cotas, SEPPIR, Estatuto da Igualdade Racial, PROUNI, REUNI, SISU, ENEM e a ampliação da presença negra e popular no ensino superior. Seu argumento é que junho só pode ser entendido à luz dessa transformação prévia.
O centro do capítulo está na mudança da composição social dos estudantes e do trabalho cognitivo. Aqueles que a imprensa chamou genericamente de “filhos da classe média” eram muitas vezes jovens oriundos da classe C, beneficiários de políticas de inclusão e de lutas históricas contra o racismo e a exclusão educacional. Para esse novo contingente, vinte centavos, bolsa estudantil, restaurante universitário e transporte público não eram detalhe: eram condição material de permanência, produção e circulação.
Nascimento faz então um movimento importante: redefine ação afirmativa não apenas como mecanismo estatal de compensação, mas como ação coletiva de afirmação de identidades e de produção de relações sociais mais democráticas. Nesse sentido, o elo entre junho e as ações afirmativas não é apenas sociológico, mas político. As lutas por acesso à universidade, igualdade racial, cultura, informação e mobilidade pertencem ao mesmo campo de constituição do comum.
O capítulo termina ampliando o horizonte. O problema não é somente garantir entrada em instituições existentes, mas criar novas instituições e novas formas de participação capazes de reduzir desigualdades, respeitar singularidades e universalizar direitos reais. Junho, então, aparece como expressão de uma nova composição do general intellect brasileiro: uma inteligência social mais negra, mais pobre e mais plebeia do que a narrativa convencional admitia.
Parte II — Redes
Capítulo 7 — Marcelo Castañeda, “As manifestações de 2013: imbricamentos sociotécnicos e perspectivas”
Castañeda escreve a partir da dupla posição de pesquisador da internet e participante dos protestos. O capítulo começa com um convite banal pelo chat do Facebook para uma manifestação na Cinelândia. Esse ponto de partida vale como chave: o texto quer mostrar que os protestos de 2013 não podem ser compreendidos sem o emaranhado sociotécnico que os atravessa. Não se trata de dizer que “a internet fez” as manifestações, mas que a ação coletiva foi moldada por novas formas de conexão, convocação, difusão e percepção.
O autor destaca que movimentos sem liderança formal, multicêntricos e reticulares não eram novidade absoluta — já haviam aparecido do zapatismo a Seattle —, mas ganharam nova velocidade e nova escala com Facebook, YouTube, Twitter, WhatsApp e celulares conectados. A mudança decisiva estaria na passagem de redes organizacionais mais estáveis para circuitos de contato pessoal e autocomunicação de massas. Isso altera a temporalidade da mobilização e o modo como singularidades entram na luta.
Castañeda é cuidadoso ao notar que o aparato repressivo também aprende. Policiais filmando, coletando dados e usando dispositivos digitais indicam que o “imbricamento sociotécnico” não é monopólio dos insurgentes. Ainda assim, o que se revela em junho é um desejo claro de participação que supera a simples entrada num mercado de consumo ou numa “nova classe média”. Havia vontade de decidir, interferir, falar e agir sobre aquilo que afeta a vida comum.
O capítulo fecha com a percepção de que, mesmo quando parecia haver refluxo, o movimento permanecia em latência. Redes, assembleias, pertencimentos e reconhecimentos mútuos continuavam ativos, à espera de novas fagulhas — como a greve dos professores no Rio. A conclusão é prudente, mas firme: mais do que um surto episódico, 2013 produziu formas duradouras de conexão política que o sistema institucional preferiu responder com repressão.
Capítulo 8 — Bernardo Gutiérrez, “Três anos de revoltas interconectadas”
Bernardo Gutiérrez alarga radicalmente a escala da análise. Em vez de começar pelo Brasil, ele pergunta o que conecta 15-M na Espanha, Occupy Wall Street, YoSoy132 no México, Parque Gezi em Istambul e as jornadas brasileiras. Sua resposta é que, apesar das causas locais distintas, essas revoltas compartilham uma gramática política emergente: redes distribuídas, tecnopolítica, identidades coletivas móveis, contágio transnacional, remix de repertórios e invenção de espaços híbridos entre rua e plataforma.
O conceito central do capítulo é tecnopolítica. Não se trata apenas do uso instrumental de tecnologia para organizar protestos, mas de uma forma de ação em que o próprio tecido da política muda. Hashtags, páginas, nós, memes, transmissões, convocações e identidades coletivas operam como infraestrutura de mobilização. O autor chama atenção para o fato de que, nessas redes, as velhas organizações deixam de monopolizar a coordenação; em seu lugar, surgem arranjos flexíveis, multipertencimentos e centros provisórios de influência.
Outro ponto decisivo é a hipótese de prefiguração. Gutiérrez pergunta se essas redes estariam começando a produzir sistema sem tomar o poder. Em vez da velha sequência revolução-tomada do Estado-nova ordem, ele sugere que protocolos, conexões e práticas colaborativas já contêm esboços de outra organização social. A revolução em rede não é apenas destrutiva; ela fabrica, em pequena escala, maneiras alternativas de coordenar, narrar e agir.
O Brasil entra nessa constelação não como caso isolado, mas como um dos grandes laboratórios do ciclo 2011-2013. O grito “o Rio vai virar outra Turquia” sintetiza bem o argumento: as revoltas viajam não porque sejam idênticas, mas porque conseguem citar-se, reconhecer-se e adaptar-se mutuamente. O autor prefere, por isso, falar menos em “movimentos” e mais em redes emocionais, tecnopolíticas e insurgentes, capazes de se reconectar em momentos de alta intensidade.
Capítulo 9 — João Telésforo e Edemilson Paraná, “Dentro do redemoinho: a internet e a revolução”
Telésforo e Paraná começam criticando a tendência de superestimar a capacidade da velha mídia de dirigir as manifestações. Sem negar seu peso, eles argumentam que a gênese e a dinâmica política de junho dependem sobretudo das redes sociais, em especial do Facebook. As plataformas digitais instauram uma nova forma de autocomunicação de massas, graças à qual multidões dispersas podem convocar-se sem depender da mediação organizativa tradicional.
O capítulo insiste, porém, que isso não autoriza entusiasmo ingênuo. As redes fortalecem preferências prévias, premiam performance, favorecem visibilidade, intensificam lógica espetacular e podem produzir formas empobrecidas de cognição política. Em outras palavras: a nova infraestrutura comunicacional abre possibilidades imensas, mas carrega também riscos de alienação, reforço narcísico e volatilidade. A internet não é automaticamente emancipadora.
É nesse ponto que o texto introduz sua preocupação estratégica. A esquerda não deveria responder às redes com desprezo nem com nostalgia do tempo dos aparelhos centralizados. Deveria, isto sim, disputar a lógica das redes, construir mediações à altura delas e articular conectividade com organização política real. O problema é menos o Facebook em si do que a incapacidade de parte da esquerda de reconhecer que a forma contemporânea da esfera pública mudou.
A conclusão amarra diagnóstico e tarefa. Se as redes atravessam as ruas e as ruas atravessam as redes, a política revolucionária precisa aprender a operar nessa composição. Isso implica valorizar a produção do comum, criar novas formas de comunicação e ação, e abandonar a fantasia de que bastaria denunciar a velha mídia para recuperar centralidade. A revolução, sugerem os autores, terá necessariamente uma dimensão midiática, distribuída e colaborativa.
Capítulo 10 — Pablo de Soto et al., “De Istambul ao Rio de Janeiro: as lutas pelo comum nas cidades rebeldes”
Este capítulo coletivo parte de uma cena muito concreta: um manifestante brasileiro mostra um grande galão d’água que serviria para apagar bombas de gás e diz ter aprendido a técnica com vídeos da Turquia. O episódio resume a tese do texto. As lutas metropolitanas contemporâneas conectam-se não só por semelhança de pautas, mas por circulação prática de saberes, táticas e sensibilidades. O eixo que as unifica é o comum: aquilo que o neoliberalismo privatiza, mercantiliza ou administra de forma expropriadora, e que os movimentos tentam reabrir como uso compartilhado.
O capítulo mapeia diferentes comuns urbanos em disputa. A mobilidade é central: transporte é direito, não mercadoria, e sua privatização limita materialmente o direito à cidade. Mas há outros comuns decisivos: praças, parques, assembleias, redes de cuidado, espaços de encontro, repertórios de ação coletiva. O texto mostra que as lutas não se limitam a defender bens já dados; elas produzem “commonning”, isto é, práticas de fazer comum, de instituir cooperação e uso coletivo ali mesmo onde antes havia fragmentação e captura.
A Cinelândia ocupa lugar privilegiado nessa cartografia. Ela é lida como espaço de condensação democrática, uma praça onde se cruzam história urbana, cultura, passagem e política. Ao acompanhar assembleias, ocupações, ações artivistas e campanhas contra o cartel dos ônibus, o capítulo mostra que o conflito sobre mobilidade se converte em escola prática de democracia metropolitana. A fronteira entre público e privado se torna então insustentável, porque Estado e empresas aparecem fundidos na gestão dos fluxos urbanos.
O encerramento do texto puxa o argumento para a esfera afetiva e estética. Resistir não é só negar; é também ficcionalizar, inventar cenas, gestos, linguagens e modos de cooperar. A arte deixa de ser suplemento e passa a integrar os circuitos de autoprodução do comum. A luta pelo comum, assim, envolve tanto a defesa de condições materiais de vida quanto a invenção sensível de outra cidade possível.
Parte III — Afetos
Capítulo 11 — Barbara Szaniecki, “Maré Amarildo: amor e arte”
Barbara Szaniecki acompanha a formação da “Maré Amarildo” como constelação de imagens, performances, memes, cartazes, projeções e atos de rua em torno do desaparecimento e assassinato de Amarildo. Seu interesse não é apenas denunciar o crime, mas entender como uma figura singular se transforma em operador simbólico da multidão. Amarildo deixa de ser só um nome trágico e se converte em dispositivo de conexão entre favela, centro, redes, arte e direitos humanos.
O capítulo é atento à ambivalência da circulação de imagens. Szaniecki reconhece o risco de superexposição midiática, de apropriação simbólica e até de uso oportunista da dor alheia. Mas sustenta que seria simplista reduzir o processo a isso. O que importa é que a imagem de Amarildo foi reapropriada por uma multiplicidade de práticas que produziram visibilidade coletiva para aquilo que o regime normal da cidade tenta apagar: a violência estrutural contra os pobres e os negros.
A autora aproxima essa dinâmica da monstruosidade da multidão. O “monstro” aqui não é insulto; é figura positiva daquilo que escapa às classificações do poder, do que mistura linguagens, corpos e territórios. Por isso, o capítulo aproxima Amarildo de ocupações, favelas ameaçadas de remoção e outras formas de existência urbana tratadas como ilegítimas pelo discurso oficial. A monstruosidade seria precisamente a forma de aparecimento do comum quando ele desorganiza a cidade partida.
A conclusão combina amor e arte como forças de recomposição. Amor, no texto, não é sentimentalismo; é capacidade de produzir laços e perseverar na luta. Arte não é ilustração da política; é modo de fabricar presença, memória e imaginação comum. A “Maré Amarildo” vale, portanto, como exemplo de como afetos e imagens podem tornar-se parte constitutiva de uma insurgência metropolitana.
Capítulo 12 — Murilo Duarte Correa, “Contra o rosto”
Murilo Duarte Correa elabora um ensaio fortemente filosófico sobre a máscara e a política. Seu ponto de partida é a noção, tomada de Deleuze e Guattari, de que o rosto é uma máquina de poder. Rostificar significa separar cabeça e corpo, capturar multiplicidades, codificar singularidades e transformá-las em identidades fixas. O rosto seria, assim, o análogo corporal da operação pela qual o Estado separa-se da sociedade e passa a governá-la como instância superior.
O capítulo liga essa tese à passagem das sociedades disciplinares para as sociedades de controle. Nelas, as multiplicidades não desaparecem; tornam-se justamente o objeto a ser capturado, integradas e diferenciadas por dispositivos cada vez mais difusos. O rosto é a forma visível dessa captura. Ele fixa, individualiza, torna legível e governável. Por isso, a máquina de rostificação interessa tanto à polícia quanto à mídia e às instituições em geral: ela traduz a potência viva dos corpos em signos administráveis.
Nesse contexto, a máscara ganha sentido político preciso. Ela não serve apenas para esconder uma identidade individual. Serve para romper a obrigação de apresentar um rosto legível ao poder. Ao mascarar-se, o corpo se recusa a ser reduzido à figura administrável do cidadão identificável, abrindo espaço para outras formas de presença coletiva, anônima e mutante. A máscara não apaga a política; ela devolve o corpo à sua potência impessoal.
O ensaio termina convertendo essa recusa em crítica mais ampla da ordem contemporânea. Se o rosto é a superfície pela qual a multiplicidade é aprisionada, lutar “contra o rosto” é lutar contra os mecanismos que privatizam o corpo, domesticam o desejo e submetem a vida à gestão. A multidão das ruas aparece então como experiência de desrostificação: corpos que voltam a agir juntos sem aceitar a sobrecodificação identitária que o Estado lhes exige.
Capítulo 13 — Mariana Corrêa dos Santos, “Corpos em movimento: Black Bloc carioca e representações de resistência”
Mariana Corrêa dos Santos oferece uma das defesas mais claras, no livro, da face política da tática black bloc no Rio. Seu ponto de entrada é a manifestação de 15 de outubro de 2013, quando jovens vestidos de preto sobem a Rio Branco em direção à Candelária e são saudados por professores em greve. Essa cena importa porque desmonta a oposição fácil entre movimento “legítimo” e mascarados “externos”. O que o capítulo quer mostrar é precisamente a formação de alianças concretas entre categorias em luta e linhas de frente de resistência.
A autora recusa a imagem do black bloc como puro niilismo. Para ela, a tática precisa ser entendida em relação à repressão policial massiva que atravessou o ciclo carioca e à necessidade prática de defender manifestantes, ganhar tempo, romper cercos e sustentar a possibilidade de permanência na rua. A máscara, os escudos, a coreografia dos corpos e a disposição para o confronto não são lidos como patologia, mas como repertório político surgido dentro de uma situação específica de violência estatal.
O texto reconstrói também o contexto da OcupaCâmara e da greve dos professores, insistindo que a radicalização das ruas não caiu do céu. Ela se produz quando canais institucionais se fecham, acordos são rompidos e a polícia é usada para disciplinar categorias inteiras. Nesse quadro, o black bloc torna-se ponto de condensação de algo mais amplo: a descoberta de que certos conflitos só entram de fato na cena pública quando há disposição para resistir materialmente à repressão.
Ao fim, Mariana destaca o componente estético do problema. A tática não produz apenas proteção ou confronto; produz imagens, ritmos, alianças afetivas e novas representações de coragem e solidariedade. O corpo em movimento é aqui literal e conceitual: corpos negros, periféricos, docentes, estudantis e anônimos compondo formas inéditas de resistência, contra uma ordem que tenta fixá-los em papéis separados.
Capítulo 14 — Talita Tibola e Márcia Moraes, “Saiu do cinema e foi manifestar”
Talita Tibola e Márcia Moraes usam o cinema para pensar a sensibilidade política de junho. O texto começa com uma cena de filme aparentemente simples e a partir dela constrói uma pergunta: o que certas imagens nos fazem perceber sobre deslocamento, precariedade, silêncio, fronteira, classe e afeto? A ideia não é aplicar filmes a protestos de modo ilustrativo, mas sugerir que a experiência estética já contém uma educação do olhar capaz de deslocar o espectador para a rua.
Uma referência de contraponto é Marcelo Rubens Paiva, evocado para representar o gesto de quem “saiu do cinema e foi manifestar” de modo simplificador, como se bastasse opor cultura e política ou julgar a revolta por um padrão de racionalidade supostamente superior. As autoras fazem o caminho contrário. Mostram como o “simples” nunca é simples: atrás de cenas discretas e mínimos gestos movem-se relações de classe, de raça, de violência e de subalternidade.
O capítulo aproxima esse aprendizado da experiência da Rio+20, da Ocupa dos Povos e das marchas que não cabiam nos roteiros oficiais. A pergunta recorrente é quantas marchas cabem dentro de uma marcha, quantos povos cabem dentro de “muitos povos”, quantos caminhos cabem numa multidão. A resposta implícita é que a política contemporânea não se deixa mais reduzir a um cortejo unificado, com uma só direção, um só enunciado, uma só pedagogia.
Ao final, o cinema aparece como um dispositivo para alargar o sensível e sustentar a diferença. Ver filmes, sair às ruas, estranhar representações e recusar a demanda por clareza total fazem parte de uma mesma prática: aprender a perceber vidas e conflitos que a gramática dominante insiste em reduzir a ruído, ingenuidade ou desordem. O texto, assim, transforma crítica de cinema em teoria da atenção política.
Capítulo 15 — Cristina Ribas, “Contemporâneo… recombinante. Em busca de uma recomposição imanente das práticas artísticas”
Cristina Ribas escreve num registro híbrido, entre editorial, ensaio e intervenção crítica no campo da arte. Seu alvo é o uso confortável e repetitivo da ideia de “contemporâneo” nas artes brasileiras. Em vez de aceitar esse rótulo como evidência, ela propõe reconceituá-lo a partir da recombinação: misturas, atravessamentos, promiscuidades e recomposições que escapam aos limites do sistema artístico instituído.
A autora critica as noções pacificadas de circuito, inclusão, expansão e participação quando elas apenas reproduzem a distinção entre dentro e fora, centro e margem, arte legítima e resto indiferente. Para Ribas, há algo autoritário na autopercepção de um sistema artístico que se pensa sempre em expansão, como se tudo que toca se tornasse automaticamente enriquecido por sua mediação. Contra isso, ela insiste na centralidade das relações, dos afetos, dos processos e dos efeitos reais da produção estética.
O capítulo aproxima arte e resistência. Dialogando com Giuseppe Cocco e Suely Rolnik, Ribas sustenta que o que interessa na arte não é sua nobreza institucional, mas sua capacidade de operar ontologicamente: criar subjetividade, deslocar percepções, abrir espaços de comum. A noção de recomposição imanente aponta precisamente para isso: práticas artísticas que não esperam legitimação transcendente, mas se fabricam no próprio terreno das lutas, dos encontros e dos agenciamentos cotidianos.
Lido à luz de junho, o ensaio funciona como crítica do fechamento do campo da arte e defesa de uma arte em devir, mais suja, mestiça e atravessada pela vida social. A recombinação não é aqui um efeito de estilo; é uma política da forma. Significa recusar as fronteiras rígidas entre arte, ativismo, comunicação e produção do comum, abrindo espaço para uma prática estética inseparável da invenção de outros modos de viver.
Parte IV — Conceitos
Capítulo 16 — Mariana Faro, “Criação, vida e resistência nas ruas: biopolíticas das manifestações metropolitanas no Brasil”
Mariana Faro enquadra junho numa transformação mais ampla do capitalismo e do trabalho. O ponto de partida é que a história não acabou: apesar da pretensão do poder de impor um presente sem alternativa, a vida continua produzindo desvios e resistências. Nas sociedades de controle, o capital investe sobre a própria vida, produzindo subjetividades, afetos e linguagens. Mas é exatamente por isso que vida e resistência se aproximam. Aquilo que o capital explora é também aquilo de onde podem emergir novas potências políticas.
O capítulo mobiliza a categoria de trabalho imaterial para mostrar que a produção saiu das fábricas estritas e se espalhou pela reprodução social inteira. Comunicação, serviço, conhecimento, cooperação e circulação tornam a metrópole o espaço decisivo de exploração e também de luta. Nesse cenário, a multidão substitui o velho sujeito unitário do proletariado industrial como figura central da resistência: uma pluralidade produtiva que fabrica riqueza e, ao mesmo tempo, pode contestar sua captura.
Faro acompanha então as manifestações brasileiras como linha do tempo de um processo constituinte. A questão da mobilidade urbana tem lugar de destaque porque torna visível a centralidade da cidade na nova composição do trabalho. Mas o texto também enfatiza as micromanifestações, os deslocamentos, os atos localizados e a proliferação de experiências que, articuladas, dão espessura ao levante. Junho não é só explosão; é rede de atos, corpos e invenções que redefinem o espaço público.
A conclusão insiste no caráter criador das lutas. Não se trata apenas de dizer “não” ao aumento, à polícia ou ao Estado. Trata-se de criar outras formas de comunidade, de abrir espaços, de fazer da resistência um contra-poder positivo. A biopolítica, nessa leitura, não é só nome do controle; é também nome do terreno em que a multidão pode produzir novos modos de vida, novas instituições e novas formas de estar junta.
Capítulo 17 — Alexandre Fabiano Mendes, “A ética do anonimato, a vida da filosofia e as máscaras do poder”
Alexandre Mendes reage diretamente ao esforço de criminalização filosófica e midiática dos mascarados, sobretudo à fala de Marilena Chauí que associou black blocs ao fascismo. Seu argumento é que esse tipo de condenação não compreende a situação real das lutas urbanas e ainda fornece linguagem legitimadora para a repressão. O texto começa com a experiência das remoções forçadas e mostra que o poder já opera mascarado muito antes de os manifestantes cobrirem o rosto.
A tese central é que há uma ética do anonimato. A máscara não é simples artifício covarde, mas resposta política a uma situação em que se luta contra um aparato que combina polícia, mídia, inteligência, criminalização preventiva e guerra de opinião. Num contexto em que nomes, perfis e imagens podem ser usados para perseguir, a defesa do anonimato torna-se forma legítima de proteção e de despersonalização militante. Não é o rosto nu que garante a verdade da política.
Mendes também amplia a crítica para o campo da filosofia. Em vez de uma filosofia policial, que sentencia, classifica e tranquiliza o poder, ele reivindica uma filosofia capaz de produzir “centelhas de imaginação”. Recorre a Foucault e à figura do “filósofo mascarado” para defender que o papel do pensamento crítico não é pacificar o novo, mas acompanhar seus possíveis, mesmo quando desconfortáveis. A crítica à condenação sumária dos black blocs é, assim, também crítica à domesticação institucional da filosofia.
O capítulo termina mostrando que as máscaras do poder são mais perigosas que as dos manifestantes. O Estado fala em legalidade enquanto pratica violência, a mídia fala em ordem enquanto prepara consentimento repressivo, intelectuais falam em responsabilidade enquanto ajudam a estreitar o campo do possível. A ética do anonimato, nesse quadro, não é culto ao segredo; é recusa a entregar ao poder a chave de identificação total sobre quem resiste.
Capítulo 18 — Hugo Albuquerque, “Poder constituído: a pacificação como expropriação ontológica ou expropriação primeira”
Hugo Albuquerque interroga a ideia mesma de pacificação. A modernidade política, lembra ele, nasce prometendo paz mediante o monopólio legítimo da violência estatal. Hobbes é a referência-chave dessa promessa: contra a guerra de todos contra todos, o Leviatã organizaria uma violência racional, capaz de conter a irracionalidade difusa. O capítulo começa justamente desmontando essa narrativa, mostrando que o Estado moderno foi e continua sendo um dos maiores produtores históricos de morticínio.
A partir daí, Albuquerque desloca a discussão para o Rio de Janeiro contemporâneo. “Pacificação”, nesse contexto, não seria nome de uma paz real, mas marca de uma mercadoria: a paz armada vendida como condição de valorização da cidade no capitalismo cognitivo e nos megaeventos. A ocupação militar de territórios populares aparece como tecnologia de gestão, branding territorial e expropriação simultaneamente material e ontológica. Ela captura o comum antes mesmo de qualquer desapropriação econômica direta.
O autor recorre então a Negri e Spinoza para opor poder constituído e poder constituinte. O primeiro barra, fixa, drena e representa; o segundo flui, cria, inventa direito vivo e não se esgota na fundação de uma nova ordem. O erro clássico da modernidade teria sido encerrar a revolução no momento da constituição, convertendo a potência da multidão em legitimidade de um novo soberano. A “pacificação” é um nome contemporâneo dessa velha operação.
A conclusão insiste que a paz verdadeira não pode nascer da ocupação, do medo e da administração policial das populações. Quando o Estado se apresenta como único antídoto contra a violência, ele encobre a violência simbólica e material que estrutura sua própria existência. O capítulo devolve, assim, a pergunta ao leitor: seria possível pensar uma paz fundada não na expropriação do comum, mas na potência democrática da própria multidão?
Capítulo 19 — Vladimir Santafé, “O levante dos pobres entre Gláuber e Pasolini: fome de luce”
Vladimir Santafé lê junho a partir de uma disputa estética e política sobre a imagem dos pobres. As jornadas, para ele, quebraram ao mesmo tempo o discurso governista do progresso contínuo e o discurso neoliberal da cidade mercantilizada. Ao transformar ruas em assembleias permanentes, a multidão rompeu a linearidade das significações dominantes. Esse deslocamento é pensado por meio de um confronto entre duas linhagens cinematográficas: Pasolini e Glauber Rocha.
Em Pasolini, o pobre aparece como reserva de inocência ameaçada pela sociedade de consumo e pela ditadura midiática; em Glauber, ao contrário, a pobreza é potência que se apropria criativamente dos meios do dominador e os reverte. Santafé prefere a segunda vertente. Sua tese é que junho mostrou pobres não como vítimas a serem preservadas numa pureza perdida, mas como carne ativa da multidão, capazes de invenção, comunicação, luta e reapropriação dos instrumentos da época.
Esse argumento se articula à ideia de produção imaterial e biopolítica. Os pobres não estariam fora do circuito produtivo contemporâneo; ao contrário, ocupam posição central na geração de linguagens, desejos, estilos, afetos e formas de cooperação. Da criatividade funkeira ao conhecimento popular, há aí uma produtividade que o capital tenta capturar, mas que também alimenta antagonismos. Junho seria um momento em que essa carne multitudinária irrompeu politicamente.
O capítulo também diferencia multidão, massa e povo. O povo é o uno soberano; a massa, um agregado indiferenciado; a multidão, um múltiplo que age em comum sem suprimir diferenças. Ao aproximar os manifestantes de Glauber, Santafé insiste que a alegria, a irreverência, a máscara e o confronto de junho exprimem uma apropriação popular do mito contra o dominador. A fome de “luce” é, nesse sentido, fome de luz, imagem e expressão: um desejo de aparecer e produzir mundo em vez de apenas ser representado por outros.
Capítulo 20 — Pedro Dotto, “Junho de 2013: o acontecimento”
Pedro Dotto quer saber se junho foi apenas uma série de protestos ou um acontecimento em sentido forte. Para responder, mobiliza Foucault, Derrida e um vocabulário filosófico que tenta distinguir episódio de acontecimento. A hipótese do capítulo é que junho rasgou a “mesmidade” do presente brasileiro — seu tédio institucional, sua pacificação, sua tecnocracia e seu consenso administrado — e, por isso, não pode ser reduzido a um fato já encerrado.
O texto desenvolve dois conceitos fundamentais: iterabilidade e citacionalidade. Iterabilidade significa que o acontecimento se repete sem jamais ser idêntico a si mesmo. Junho reaparece em novas lutas, novos atos, novas composições, sempre mudando de forma. Citacionalidade significa que signos, palavras de ordem, repertórios e afetos são deslocados de seu contexto de origem e recolados em outros, preservando alguma correspondência, mas gerando efeitos novos. Os “20 centavos” transformam-se, assim, em linguagem disponível para múltiplas causas.
Essa operação explica por que, para Dotto, o acontecimento não cabe na explicação causal estreita do estopim tarifário. O que se abriu ali foi uma dimensão virtual capaz de atravessar greves, ocupações, confrontos, lutas locais e práticas de resistência posteriores. Junho não se repete como cópia, mas como espírito, como campo de possibilidades reativável em novas circunstâncias. É por isso que o autor insiste em acompanhar sua potência e não apenas sua cronologia.
Mas o capítulo também é cauteloso. A acontecimentalização de junho não está garantida. Há sempre o risco da desacontecimentalização, isto é, da redução do levante a lembrança inofensiva, efeméride ou episódio exótico. Para que o acontecimento se sustente, é preciso passagem ao ato, continuidade de práticas, multiplicação de resistências e construção do comum. O conceito, aqui, não serve para encerrar junho numa definição brilhante, e sim para sublinhar sua abertura ainda disputada.
Capítulo 21 — Ricardo Gomes, “A sociedade da modulação e as revoltas de junho”
Ricardo Gomes descreve o presente como sociedade da modulação. O poder contemporâneo, para ele, não age só por interdição rígida; deixa fluxos acontecerem para depois canalizá-los, extrair valor deles e reconfigurá-los segundo seus interesses. Essa flexibilidade, no entanto, não significa suavidade. Ela produz expropriação contínua, custo de vida sufocante, precarização e captura de cada mínimo avanço popular. Junho é lido como resposta da multidão a esse regime de controle modulador.
O autor opõe a essa sociedade do controle a lógica do devir, especialmente do devir minoritário. Contra hegemonias explícitas ou travestidas de tolerância, seria preciso multiplicar processos de diferenciação coletiva, abertos, anti-identitários e anti-majoritários. O devir revolucionário é pensado menos como linha reta rumo ao poder do que como processo de fuga, composição e reinvenção dos mundos possíveis. A crítica se dirige tanto ao poder constituído quanto às tendências hegemonizantes da velha esquerda.
Um dos trechos mais originais do capítulo é a valorização da conversa. Assembleias abertas, rodas paralelas, encontros desviantes e trocas laterais são tratados como prática política decisiva. Conversar não é, aí, mero suplemento deliberativo: é modo de produzir mundo, conectar demandas, acolher diferenças e fabricar composição. Nas ruas e ocupações, a conversação se torna técnica de abertura contra as formas centralizadas de decisão.
O texto termina retomando a metrópole como fábrica social. O controle modulado se exerce sobre fluxos urbanos, mas é também nesse espaço que a resistência se reorganiza antes do capital. As ruas e redes de 2013 teriam amalgamado um comum novo, difícil de fixar, feito de favelas, centros, bairros, praias, ocupações e culturas de resistência. A modulação é poderosa, mas parasitária: depende da produção viva da multidão que tenta conter.
Parte V — Metrópoles
Capítulo 22 — Natacha Rena e Paula Bruzzi, “As ocupações em Belo Horizonte: biopotência e estética da multidão”
Rena e Bruzzi analisam Belo Horizonte como um dos grandes palcos da insurgência metropolitana brasileira. A tese de partida é que as ocupações do espaço público aceleraram processos que já vinham se formando na cidade: contestação do urbanismo neoliberal, crítica aos megaeventos, práticas micropolíticas de resistência e experimentações estéticas de ocupação. Junho, nesse quadro, não inventa do zero a rebeldia belo-horizontina; ele radicaliza algo que já fervilhava.
As autoras mostram como o espaço supostamente público se revela privado quando o Estado envia imediatamente a polícia para defender sua administração. É nesse contexto que ganham destaque experiências como a Praia da Estação, o carnaval de rua reativado, a Assembleia Popular Horizontal e a ocupação da Câmara Municipal. Cada uma dessas práticas aparece como exercício de biopotência: produção afirmativa de espaço comum contra a organização mercantil e securitária da cidade.
O capítulo enfatiza fortemente a dimensão estética da política. Corações pintados nos escudos da polícia, cantos, cores, marchinhas, intervenções visuais, modos de circular e ocupar tornam-se parte da própria resistência. A estética não embeleza a política; ela altera signos, desarma dispositivos e produz novas percepções do espaço urbano. Em Belo Horizonte, essa estética insurgente se liga à invenção de uma cidade que volta a ser vivida, não apenas gerida.
A conclusão destaca espaços como o Comum Luiz Estrela como prolongamentos dessa imaginação política. O que está em jogo não é só barrar um projeto ou responder a uma repressão, mas manter vivos territórios de confluência, aprendizado e esperança. As ocupações, por isso, são lidas menos como tática passageira do que como ensaio de outra vida urbana possível.
Capítulo 23 — Clarissa Moreira, “Notas sobre os devires da metrópole”
Clarissa Moreira propõe pensar a metrópole a partir de seus “devires”, sobretudo do que chama de devir-cidadezinha. A ideia é provocativa: as grandes metrópoles contemporâneas podem ser atravessadas por desejos de fechamento, pacificação, higienização e segurança que reintroduzem nelas algo da lógica de uma pequena cidade idealizada — homogênea, controlável, pouco intensa, pouco aberta ao conflito. O conceito permite ler processos de gentrificação, retrofit, disneyficação e urbanismo de consenso.
A autora recorre a Dogville e a Richard Sennett para mostrar que essa pequena cidade não existe literalmente dentro da metrópole, mas como figura desejada e produzida. Ela organiza espacialmente o medo do outro, o recuo do corpo, o esvaziamento do encontro e a desintensificação da experiência urbana. Choque de ordem, monitoramento, espaços higienizados e city marketing aparecem então como técnicas desse devir-cidadezinha.
Mas o capítulo não se reduz ao diagnóstico sombrio. A própria metrópole carrega uma potência minoritária que a torna irredutível a esse fechamento. A concentração de diferenças, velocidades, conflitos e composições abre linhas de fuga que o urbanismo controlado não consegue suprimir totalmente. Junho é lido como momento em que essa outra face do urbano emerge: a cidade insurgente, capaz de reintroduzir conflito, encontro e invenção no coração da pacificação.
O mérito do texto está em mudar a lente. Em vez de pensar a cidade só por grandes estruturas econômicas ou institucionais, Moreira investiga afetos, imagens e desejos espaciais. Isso lhe permite mostrar que a luta pela metrópole é também luta sobre o que se deseja dela: segurança contra intensidade, fechamento contra mistura, gestão contra acontecimento. Junho recoloca a intensidade do urbano no centro do tabuleiro.
Capítulo 24 — Rogelio Casado, “Manifestações em Manaus: resistência em construção”
Rogelio Casado narra a tarde em que chegou ao Teatro Amazonas e encontrou uma cena que parecia impossível para Manaus: dezenas de milhares de pessoas mobilizadas por convocação difundida nas redes sociais. O caráter inesperado do episódio é parte central do argumento. As manifestações revelam linhas de conflito que uma esquerda acomodada e uma leitura institucional do país já não conseguiam enxergar. Manaus, longe de ser periferia passiva do ciclo, entra nele como laboratório singular.
O autor relaciona esse despertar a uma crítica da modernização petista. As políticas de inclusão social, embora reais, não teriam sido acompanhadas de inclusão política equivalente. O resultado foi a ampliação de capacidades, desejos e expectativas sem abertura correspondente de canais de decisão. Junho surge então como momento em que a multidão tenta falar por conta própria, fora das mediações habituais do poder econômico, político ou religioso.
Casado amplia o foco para lutas amazônicas que frequentemente ficam fora do radar nacional: Encontro das Águas, comunidades ribeirinhas, questão agrária no entorno da Zona Franca, cartografias de povos tradicionais. Seu ponto é que a produção biopolítica contemporânea também passa por esses territórios, e que a multidão amazônica não pode ser entendida com categorias velhas demais para captar novas formas de cooperação, subjetivação e resistência.
Por isso o subtítulo “resistência em construção” é preciso. O capítulo não apresenta Manaus como caso plenamente consolidado, mas como processo em curso. Há uma crítica forte à universidade e à intelectualidade que seguem presas a esquemas insuficientes para pensar a potência do homem comum e das novas lutas. Junho, nesse cenário, não resolve o problema amazônico; torna visível que há ali muito mais política em formação do que supunha a imaginação oficial.
Capítulo 25 — Pedro B. Mendes, “O verão da multidão”
Pedro B. Mendes reconstrói a temperatura política do Rio entre Occupy Rio, junho, o pós-junho e a proliferação de manifestações espontâneas no segundo semestre. Seu argumento é que a cidade já vinha esquentando havia tempo, com lutas contra remoções, megaeventos, pacificação e privatização da vida urbana. Junho entra nesse cenário como aceleração e como inscrição do Rio no circuito global das lutas contemporâneas.
O capítulo mostra que, por um breve período, abriram-se na cidade espaços em que a violência usual da polícia e da mídia parecia perder eficácia. Esses espaços — ocupações, assembleias, fluxos de manifestação, zonas de debate — funcionaram como politopias: composições instáveis de sujeitos diversos que experimentavam, na prática, formas mínimas de democracia que o Rio ordinário quase não conhecia. A cidade maravilhosa revelava, sob a superfície, grades, cercos e uma pedagogia de medo que a multidão começou a expor.
Mendes não esconde as tensões internas do movimento. Ele discute os problemas da representação indevida, da espetacularização por parte de certos grupos de mídia independente, das tentativas de aparelhos cristalizados de barrar experimentos e da disputa sobre o que conta como manifestação legítima. Essas fricções não aparecem como sinal de falência, mas como parte do amadurecimento político de uma multidão que ainda estava aprendendo a lidar consigo mesma.
O “verão” do título não designa apenas estação do ano, mas clima de abertura. A conclusão sugere que a multidão se forma lutando e, ao lutar, transforma o cenário em que age. Ela não apenas denuncia a cidade existente; produz espaços e alternativas de vida, mesmo que provisórios. A própria instabilidade dessas experiências é parte de sua verdade: o comum não aparece pronto, ele se constrói em meio ao conflito.
Capítulo 26 — Bruno Cava, “A cidade da peste e seus carnavais”
Bruno Cava fecha o livro conectando junho aos rolezinhos e propondo uma leitura da cidade a partir das figuras da peste e do carnaval. O ponto de partida é o escândalo produzido por jovens periféricos, majoritariamente negros, que entram em massa nos shopping centers. O gesto não é lido como simples denúncia de exclusão, mas como afirmação de presença. Depois do lulismo, esses jovens já consomem, já circulam, já pertencem parcialmente à cena urbana. O rolezinho indica algo mais inquietante: a reivindicação de produzir sentido dentro de espaços que antes eram apenas atravessados como consumidores disciplinados.
Para explicar essa mutação, Cava recorre ao debate sobre o lulismo, sobretudo a André Singer e Jessé Souza. Ele aceita a percepção de que houve mudança social profunda, mas considera insuficiente uma leitura apenas eleitoral ou economicista. Os “batalhadores” do lulismo não seriam nova classe média estabilizada, e sim novo proletariado precarizado, carregado de dívida subjetiva, expectativa e mobilidade incerta. O problema analítico decisivo é converter composição social em composição política.
Junho aparece então como momento em que essa composição começa a adquirir forma conflitiva. O black bloc, os mascarados, os rolezinhos, as marchas plebeias e os contágios carnavalescos são lidos como expressões de uma cidade tomada pela peste no sentido positivo: disseminação imprevisível, desorganização dos cordões sanitários da ordem, perda de controle pelas instâncias que calculavam tudo. A peste, ao contrário da higiene do poder, desperta virtualidades e torna os riscos incalculáveis.
O capítulo termina numa chave aberta. À primavera de 2013 deveria seguir-se um carnaval diferente, mais obstinado, em que máscaras, marchinhas, cortejos e jovens periféricos voltariam a desafiar a normalidade da cidade. O ano não pede síntese pacificadora. O que Cava oferece é um fecho coerente com o livro inteiro: a organização do futuro próximo continua em disputa, e o que junho revelou foi justamente a presença de forças sociais e afetivas que já não cabem nos enquadramentos tradicionais da política brasileira.
Fecho
Lido em conjunto, Amanhã Vai Ser Maior é menos um balanço frio de junho de 2013 do que uma tentativa de fixar conceitualmente a surpresa antes que ela fosse absorvida pela linguagem rotineira da política, da imprensa e da academia. O livro aposta que junho não foi só uma crise de representação, nem apenas um protesto contra tarifa, nem um ensaio geral da direita que viria depois. Foi, para seus autores, a emergência de uma multidão metropolitana, conectada, produtiva e difícil de capturar, que escancarou a violência estrutural do Estado brasileiro e os limites do pacto lulista.
Ao mesmo tempo, o volume é um documento de posição. Ele toma partido da multidão, da horizontalidade, do anonimato, das ocupações, do comum, da tática black bloc e das leituras biopolíticas e autonomistas. Quem lê o livro não encontra neutralidade sociológica. Encontra uma gramática de combate, construída para interpretar junho como acontecimento ainda aberto, e não como episódio encerrado.
É isso que dá unidade ao conjunto. Mesmo quando varia de tom — jurídico, memorialístico, filosófico, estético, urbano — o livro inteiro insiste na mesma intuição: houve no Brasil de 2013 uma irrupção plebeia cuja inteligência não cabia mais nos velhos esquemas do Estado, do partido, da mídia e da esquerda governista. A pergunta que permanece, ao fim da leitura, não é apenas o que foi junho, mas o que, daquilo, continuou a agir depois que o calendário avançou.
Ver também
- resumo_amanha_vai_ser_maior_capitulo_a_capitulo — Rosana Pinheiro-Machado lê o mesmo ciclo pós-2013 com método oposto: não o autonomismo biopolítico de Cocco/Hardt, mas a antropologia das “revoltas ambíguas” — convergência sobre o diagnóstico da falência lulista, divergência sobre o sujeito político.
- resumo_a_forma_bruta_dos_protestos — Aborda o mesmo momento de junho de 2013 mas com foco na economia moral dos protestos e na forma do repertório de ação coletiva, complementando a leitura biopolítica desta coletânea.
- thymos — O impulso de reconhecimento que Hardt e Cocco nomeiam como “potência da multidão” é, na chave deste vault, o mesmo thymos que a democracia brasileira não soube canalizar; os dois vocabulários descrevem o mesmo fenômeno.
- Máquinas de Megalothymia — Thymos, Redes Sociais e a Promessa Moderadora da IA — Junho como momento de thymos distribuído nas redes antes da captura pela megalothymia das plataformas digitais — uma leitura que prolonga o argumento de Hardt sobre a inversão estratégia/tática.
- democratic_erosion — O fecho implícito da pergunta que o livro deixa em aberto: o que aconteceu com a energia de junho quando a democracia começou a erodir.