A Forma Bruta dos Protestos, de Eugenio Bucci — Resumo
Sinopse
A tese central de Eugenio Bucci e que junho de 2013 nao pode ser entendido apenas como episodio politico, eleitoral ou policial: houve ali um acontecimento de linguagem, de estetica e de temporalidade. As ruas passaram a falar numa sintaxe propria, mediada por imagens, redes digitais e formas de violencia que eram tambem formas de comunicacao. A queda de Dilma em 2016, nessa leitura, foi desdobramento tardio de uma energia que o sistema politico nao soube compreender porque operava em outra velocidade e outra gramatica.
O livro importa para este vault porque oferece a dimensao comunicacional e estetica que falta nas analises sociologicas de junho. A tese do divorcio temporal entre Estado (lento, burotratico, processual) e sociedade civil conectada (instantanea, mimetica, horizontal) e diretamente relevante para a investigacao sobre intermediacao civica: se as instituicoes falam numa lingua que a sociedade ja nao entende, a crise de pertencimento se aprofunda. A analise do valor de gozo das imagens de protesto — fetiche, narcisismo, espetaculo — complementa a leitura timica ao mostrar que mobilizacao politica contemporanea opera tanto por reconhecimento quanto por desejo.
Bucci constroi o argumento partindo de cenas concretas (o insulto a Dilma no Itaquerao, a repressao do dia 13, a Marcha para Jesus) e avancando progressivamente para territorio teorico: Saussure, Bakhtin, Ranciere, Debord, Lacan. Os conceitos-chave sao o protesto como contradiscurso urbano, a violencia como linguagem, o black bloc como signo replicavel (nao organizacao), e a imagem como mercadoria investida de valor de gozo. O livro encerra “em gerundio” — sem catarse, com a constatacao de que as condicoes de combustao permanecem.
Nota inicial
Este resumo foi elaborado a partir do PDF do livro enviado na conversa. O objetivo aqui e ser fiel ao eixo argumentativo de Eugenio Bucci, preservando a logica do ensaio, o movimento dos capitulos e o vocabulario conceitual central. Quando o texto fala do prefacio, trata-se do argumento de Adauto Novaes; nos demais capitulos, o resumo acompanha Bucci.
1. Prefacio - Sobre uma imobilidade agitada (Adauto Novaes)
No prefácio, Adauto Novaes apresenta o livro como um diagnóstico da desordem contemporânea entre técnica, linguagem e política. O ponto de partida é o contraste entre o enorme desenvolvimento técnico de nosso tempo e a precariedade das formas de ação política que ele produz. Em vez de ampliar a reflexão, a técnica teria comprimido o pensamento, acelerado o tempo histórico e empurrado a política para o terreno do espetáculo.
Novaes lê o ensaio de Bucci como uma crítica ao esvaziamento de princípios. A política, que antes ainda procurava dialogar com ideias e fundamentos, mesmo para negá-los, teria entrado numa fase em que o gesto antecede a reflexão e a agitação substitui o projeto. Nesse ambiente, junho de 2013 aparece menos como organização de uma vontade coletiva e mais como explosão de voluntarismo, com forte recusa a estratégia, mediação e duração.
O prefácio insiste especialmente na questão da linguagem. Para Novaes, Bucci mostra como a linguagem vai deixando de ser grade de significações e passa a funcionar como simples veículo instantâneo, subordinado ao efeito, à velocidade e à visibilidade. A palavra perde espessura; a imagem ganha primazia; a história e a memória cedem lugar ao impacto imediato. O resultado é uma política cada vez mais espetacular e cada vez menos pensada.
Por isso, o prefácio valoriza o ensaio como um exercício de lentidão intelectual contra a aceleração mecânica do presente. Ao mobilizar autores como Valéry e Wittgenstein, Novaes sugere que compreender os acontecimentos exige reaprender a demorar-se neles. Bucci, assim, seria importante não só pelo tema de junho de 2013, mas porque oferece uma forma de resistência crítica à barbárie do imediato.
2. Apresentação
Na apresentação, Bucci propõe deslocar a explicação mais comum para a queda de Dilma Rousseff. Ele reconhece os fatores imediatos normalmente citados — corrupção, desorganização da base parlamentar, recessão, erro econômico e incapacidade de governar —, mas sustenta que esses fatores não bastam. A raiz mais profunda do colapso de 2016, diz ele, está em junho de 2013.
Aqueles protestos, segundo Bucci, produziram uma energia nova, inesperada e socialmente difusa, capaz de romper o discurso do governo e de corroer sua legitimidade muito antes do impeachment. Em 2013, o Estado foi publicamente confrontado por uma exasperação moral contra a corrupção e por uma revolta contra a baixa qualidade dos serviços públicos. O governo balançou naquele momento, ainda que só viesse a cair três anos depois.
O ponto decisivo da apresentação é que nem o governo nem a oposição entenderam o que aconteceu. Não entenderam porque estavam presos a paradigmas velhos: partidos, aparelhos, controles hierárquicos da vontade popular, rotinas clandestinas da política profissional, promiscuidade entre público e privado. Para decifrar junho, diz Bucci, a chave da política não bastava; era preciso uma chave da cultura.
É nesse ponto que ele anuncia o programa do livro. Seu objetivo não é estetizar os protestos nem celebrá-los, mas mostrar que linguagem, imagem, violência e temporalidade ajudam a explicar o que houve. Bucci avisa que o ensaio começará de modo mais jornalístico e factual e se tornará gradualmente mais teórico, chegando a questões de linguística, estética e psicanálise. A aposta é que sem esse percurso não se entende o fenômeno.
3. O prazer do insulto público
Bucci abre o primeiro capítulo substantivo com a cena do Itaquerão, na abertura da Copa de 2014, quando o público insultou Dilma Rousseff depois de cantar o Hino Nacional. A cena, para ele, vale como condensação simbólica de um Brasil em combustão: o mesmo público que se apropria solenemente dos símbolos nacionais também converte a presidente em alvo de um palavrão coletivo, ritmado e jubiloso.
O capítulo insiste no corte de classe dessa cena. Quem xinga Dilma não é o “povo” no sentido tradicional, mas uma elite socializada em ambientes de privilégio. Isso dá à cena um aspecto particular: uma classe dominante, diante das câmeras do mundo, transforma o estádio em palco de humilhação pública. Bucci lê aí uma disputa pelos signos da nação: o hino é reivindicado como emblema legítimo do país, enquanto a presidente é expelida como entulho.
Ele recompõe então o clima de 2013 e 2014: o medo do “Não vai ter Copa”, a repressão aos supostos black blocs, a militarização preventiva, a obsessão do poder com a imagem internacional do evento. Nessa moldura, a política inteira parece organizada como teatro visual: governo, polícia, Ministério Público, imprensa e manifestantes agem já com as câmeras em mente.
A chave do capítulo aparece quando Bucci comenta a conversa telefônica grampeada em que um manifestante descreve o confronto com a tropa de choque como “muito lindo”. A frase é decisiva porque revela, do ponto de vista do próprio participante, que a pancadaria não era vivida apenas como ação política, mas como experiência estética, como espetáculo capaz de produzir gozo. A violência, desde o início, aparece como linguagem visual e como deleite.
4. As perguntas deste ensaio
Aqui Bucci formula explicitamente as perguntas do livro. O ponto de partida é uma inversão importante: o senso comum imagina que linguagem e violência se opõem, mas os protestos mostram que pode haver violência na linguagem e violência como linguagem. Gestos, coreografias, palavras de ordem e confrontos físicos compõem um sistema de comunicação, ainda que não verbal.
Para sustentar isso, ele argumenta que a própria cidade é uma linguagem. Placas, monumentos, fluxos, avenidas, edifícios públicos, policiamento, iluminação, trânsito: tudo isso organiza sentidos e estabelece uma gramática da ordem urbana. O protesto de rua, então, funciona como contradiscurso. Ele interrompe o fluxo, sabota a sintaxe da cidade e produz pane para atrair olhar. A manifestação fala porque interrompe.
Bucci também insiste que a manifestação, para cumprir sua função, é necessariamente “do contra”. Manifestações favoráveis à ordem tendem a ser paradoxais, porque reafirmam justamente o quadro que deveria ser tensionado. A análise das passeatas de classe média alta e das marchas sindicais pró-governo serve para mostrar como certos atos podem ser ao mesmo tempo contra um governo específico e a favor do statu quo social.
No fim do capítulo, Bucci lista as grandes frentes do ensaio: de que modo os black blocs funcionam como signos; como a televisão e os jornais participam da sintaxe da violência; como o Estado e a sociedade passam a operar em tempos distintos; e por que a violência de junho parece ter sido menos a expressão de um programa político coerente do que a encenação de um embate entre signos, imagens e temporalidades.
5. O ato quer ser fato
Neste capítulo, Bucci interrompe momentaneamente a narrativa dos protestos para discutir o estatuto do fato jornalístico. Seu argumento é que o jornalismo costuma se apresentar como espelho de fatos objetivos, exteriores à linguagem, mas isso é uma ilusão. O fato jornalístico não existe fora do discurso que o constitui, recorta, nomeia e torna legível.
Para mostrar isso, ele distingue entre fatos produzidos e reconhecidos dentro de convenções humanas e fatos que poderiam, em tese, existir antes da linguagem, como certos objetos da ciência. O jornalismo, diz Bucci, não opera nesse segundo plano. Ele não alcança o “ser” em sentido metafísico; relata ações, enunciados, performances e versões produzidas em linguagem. Seu objeto é sempre mediado por códigos compartilhados.
Daí decorre a desconfiança que o autor pede ao leitor: quando o jornalismo trata acontecimentos como se eles simplesmente estivessem lá, prontos, naturais e inequívocos, ele esconde seu próprio trabalho de construção discursiva. Isso não significa negar a realidade, mas reconhecer que ela só entra no espaço público jornalístico por meio de enquadramentos, seleções, narrações e formas.
Aplicado a junho de 2013, o argumento é direto. Os protestos já nasciam como atos que aspiravam converter-se em fato jornalístico. Queriam explodir nas telas, entrar na narrativa, ganhar estatuto de evento nacional. Nesse sentido, o ato queria ser fato, e queria ser fato bombástico. A rua era também uma operação sobre a linguagem da imprensa.
6. Mas o que fazer com essa linguagem (e esses fatos)?
Bucci volta ao plano histórico e recompõe o trauma de junho de 2013. O capítulo mostra como a abertura da Copa de 2014 ainda estava inteiramente assombrada pelo que acontecera um ano antes. A aflição das autoridades não era irracional: em 2013, o país parecia ter sido tomado por uma força que ninguém no poder conseguia localizar, nomear ou controlar.
O Movimento Passe Livre aparece como estopim, mas muito rapidamente o protesto se torna um recipiente de todas as insatisfações. As ruas passam a abrigar um “contra tudo” socialmente difuso, no qual cabem tarifa, serviços públicos, corrupção, gastos com a Copa e mal-estar mais geral com o poder. A expansão repentina, a escala nacional e a baixa organicidade partidária tornam o fenômeno opaco aos velhos intérpretes.
Um elemento importante do capítulo é a composição social das ruas. Bucci insiste que não se tratava, principalmente, da imagem clássica de setores populares tutelados por sindicatos ou partidos, mas de uma massa de gente comum, fortemente marcada pela classe média urbana. Jovens de colégios caros, profissionais liberais, famílias saídas de apartamentos confortáveis entram em cena e mudam o repertório simbólico do protesto.
Ao mesmo tempo, o capítulo sublinha a combinação entre fúria e linguagem. O uso da bandeira, do Hino Nacional, dos cartazes caseiros, do humor de rede social e do improviso verbal dá forma a uma nova gramática pública. O acontecimento era, claro, um fato. Mas era também linguagem — e sem perceber isso o poder não tinha como responder ao que estava vendo.
7. Valentias performáticas
Neste capítulo, Bucci concentra o foco nos black blocs. Sua primeira tese é que eles funcionaram como soldados de uma guerra simbólica. Seus alvos não eram escolhidos ao acaso: bancos, concessionárias, prédios públicos, vitrines, sedes do poder e símbolos do capital eram atacados como signos a serem humilhados, rompidos e expostos.
No começo, diz Bucci, os black blocs chegaram a produzir fascinação em muitos novatos das passeatas. Pareciam heróis exóticos, figuras de aventura cívica, personagens capazes de dar forma física ao inconformismo. A imprensa, ao separar obsessivamente “manifestantes pacíficos” de “vândalos”, julgava estar isolando a violência, mas acabou também ajudando a fabricar a aura imagética dos violentos.
A comparação mais provocadora do capítulo é entre black blocs e Papai Noel. O que Bucci quer dizer é que ambos são signos genéricos, personagens industrialmente reproduzíveis, dependentes de figurino, máscara e reconhecimento imediato. O indivíduo importa pouco; o que vale é a tipologia. O black bloc não é organização consistente, mas forma replicável, uma identidade visual disponível para uso.
Por isso mesmo, sua política é frágil. O black bloc é menos portador de programa do que operador de uma coreografia. Ele prolonga em ato a linguagem belicosa dos protestos, dessublima palavras como “luta” e “trincheira” e encena um heroísmo imagético aprendido em telas, quadrinhos, vídeos e noticiários. O resultado é uma hiperatividade simbólica de forte apelo visual e baixa densidade estratégica.
8. A métrica da violência em dois editoriais
Bucci mostra aqui como a medida da violência não se define só na rua, mas também no jornalismo. Em 13 de junho de 2013, Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo publicaram editoriais exigindo repressão mais dura aos protestos. A operação retórica é importante: o que se pede nos editoriais acaba funcionando como parâmetro de legitimidade para o uso da força pelo Estado.
Segundo Bucci, a Polícia Militar de São Paulo leu esses textos como senha. No mesmo dia, desencadeou uma repressão brutal contra uma passeata, atingindo manifestantes desarmados, pessoas comuns e jornalistas. O caso mais emblemático foi o da fotógrafa Giuliana Vallone, baleada no olho com munição de borracha enquanto trabalhava.
A ironia histórica é que essa violência produziu o contrário do esperado. Em vez de restaurar a ordem e isolar a “baderna”, a repressão trocou de sinal perante a opinião pública. A polícia apareceu como selvagem; o governo e a imprensa que haviam pedido rigor perderam o controle da narrativa; e muito mais gente comum desceu às ruas, agora também revoltada com os excessos da força pública.
A conclusão do capítulo é forte: a violência estatal também é linguagem, e o jornalismo participa de sua calibragem. O cassetete e a bala de borracha entram na sintaxe do espaço público já modulados por discursos que autorizam, normalizam ou condenam seu uso. Junho mostra, assim, que os editoriais não são comentário lateral: eles ajudam a medir o que a polícia entende poder fazer.
9. As ruas no cume do olhar
O capítulo acompanha o auge quantitativo e simbólico das jornadas. Depois de Rio e São Paulo recuarem no aumento das tarifas, seria lógico imaginar uma desmobilização. O que ocorre é o oposto: em 20 de junho de 2013, mais de um milhão de pessoas tomam as ruas em centenas de cidades. A redução das passagens não encerra o processo porque o protesto já se desligara da reivindicação inicial.
Bucci insiste que, naquele momento, os protestos ocuparam o topo absoluto do olhar nacional. Seu exemplo principal é a cobertura do Jornal Nacional, que chegou a dedicar quase toda uma edição às manifestações. O país parecia não ver outra coisa. Junho havia se tornado o centro da cena pública, a imagem dominante do Brasil diante de si mesmo.
Mas o capítulo recusa a sedução pura da escala e da visibilidade. Depois do pico, Bucci registra a queda gradual do apoio popular, os prejuízos econômicos, o desgaste da fórmula e a perda de vigor das mobilizações. O protesto de rua permanece como repertório, mas já sem o mesmo frescor, tornando-se mais episódico, mais previsível e, em certa medida, mais banalizado.
A parte mais dura do capítulo é o inventário dos mortos. Enquanto as ruas estão “no cume do olhar”, os mortos e feridos permanecem quase invisíveis, soterrados pela dramaturgia geral do evento. Bucci enumera atropelamentos, mortes ligadas a tumultos, vítimas de operações policiais e o assassinato do cinegrafista Santiago Andrade. O espetáculo ilumina muito, mas ilumina mal.
10. Um filme de terror nas esferas públicas interconectadas
Bucci parte de uma imagem da capa da Folha para mostrar como os protestos passaram a ser vistos através de molduras estéticas tomadas da indústria do entretenimento. A fotografia de manifestantes sobre o Congresso, com aparência fantasmagórica, lembraria um filme apocalíptico ou de zumbis. Não se trata de metáfora solta: a linguagem visual do noticiário já vinha contaminada por repertórios cinematográficos de catástrofe.
Essa estética produz efeitos políticos. Diante de cenas que pareciam saídas de um filme de terror, as autoridades entraram em pânico interpretativo. Procuraram um cérebro oculto, uma conspiração, uma central de comando, uma deep web maligna. Não conseguiam admitir que pessoas comuns, ativadas por redes horizontais e por processos miméticos, pudessem organizar protestos daquela escala sem um conspirador por trás.
O capítulo mostra que o erro do poder estava no uso de lentes velhas para um objeto novo. Em vez de enxergar processos de replicação e contágio próprios das redes interconectadas, buscava-se um sujeito oculto de tipo clássico. A forma de ver ainda era analógica, conspirativa, hierárquica; a forma dos acontecimentos já era digital, mimética e veloz.
No fundo, Bucci está preparando a passagem para uma tese maior: o intervalo entre ideia e ato, no âmbito da sociedade civil, encurtou-se drasticamente. A circulação de signos e convocações ganhou uma rapidez inédita. O Estado continuava operando em cadência antiga. O filme de terror não era apenas a forma da cobertura; era o nome da perplexidade do poder diante de um tempo que lhe escapava.
11. O divórcio temporal entre a língua do Estado e a da sociedade
Aqui Bucci formula com clareza a tese do choque entre temporalidades. O Estado fala numa língua lenta, processual, burocrática, dependente de ritos e cadeias de comando. A sociedade civil conectada pelas redes, ao contrário, delibera, reage, combina e age em velocidade muito superior. Junho de 2013 nasce desse desacerto entre relógios.
Bucci rejeita a ideia de que aquilo pudesse ser explicado apenas pelo velho “espontaneísmo das massas”. Para ele, houve algo novo: a ativação de cidadãos comuns sem necessidade de caudilhos, partidos ou aparelhos centralizadores. Isso não quer dizer ausência de política, mas surgimento de um modo de formação de vontade e opinião que escapa às mediações clássicas.
O conceito de mundo da vida reaparece aqui em chave concreta. As redes ampliam os ritmos próprios da vida social, adensam os circuitos horizontais de comunicação e tornam a esfera pública mais rápida, mais nervosa e mais imprevisível. O Estado, incapaz de acompanhar esse compasso, passa a parecer hardware obsoleto diante de outro hardware.
A conclusão é que o estranhamento não é só brasileiro. Bucci sugere um fenômeno mais amplo, visível também na Primavera Árabe, nos Indignados e em outras explosões contemporâneas. O velho poder se acostumara a usar cabeças paradas como passarela. Quando essas cabeças se moveram por conta própria, a terra tremeu sob os pés dos governantes.
12. Do Diário Oficial à rede social
Bucci prolonga a análise temporal e a torna mais institucional. Junho terminou no calendário, mas permaneceu simbolicamente em julho e agosto, em acampamentos, ressacas, imitações do Occupy e continuidade de um ânimo que se recusava a voltar à normalidade. O país oficial seguia o calendário; o país político seguia em atraso; o país social continuava convulsionado.
O centro do capítulo é a contraposição entre duas materialidades da linguagem pública. De um lado, o Estado do Diário Oficial: lento, formal, vertical, dependente de trâmites, publicações, carimbos e etapas. De outro, a comunicação em rede: instantânea, interativa, viva, atravessada pela temporalidade da TV ao vivo, do Facebook, do WhatsApp e da internet móvel.
Bucci relembra inclusive o pronunciamento de Dilma em cadeia nacional, em 21 de junho de 2013, como exemplo de resposta formalmente rápida, mas estruturalmente atrasada. O problema não era apenas responder logo; era responder numa forma de linguagem que já não correspondia à forma do conflito. O governo falava para um cenário que já havia mudado.
Daí a consequência institucional do capítulo. Não basta informatizar a máquina ou acelerar procedimentos. Seria necessário redesenhar a administração pública para acolher demandas de modo efetivo, permanente e inteligível dentro do novo tempo social. Junho explodiu como explodiu porque esses modelos institucionais ainda não existiam.
13. O mundo da vida, que tudo arrasta
Este capítulo retoma o conceito de mundo da vida e o põe diretamente nas ruas. Quando as vias de comunicação se desobstruem, diz Bucci, as pessoas passam a se articular sem pedir licença à burocracia, aos partidos ou aos especialistas da representação. O mundo da vida sai das redes digitais e pisa o asfalto, tornando-se ação coletiva material.
A reação do governismo e de parte da esquerda intelectual, segundo o autor, foi profundamente defensiva. Incapazes de aceitar que mobilizações tão grandes pudessem brotar de formas horizontais de comunicação, muitos preferiram explicar tudo como manipulação fascista, complô reacionário ou ameaça autoritária. Bucci vê nisso um erro teórico e um reflexo conservador.
O uso do fascismo como chave explicativa geral serve, em sua leitura, para proteger os aparelhos ameaçados. O que alguns intelectuais rejeitavam não eram apenas os sintomas sombrios que de fato existiam nas ruas; rejeitavam sobretudo a possibilidade de mobilizações apartidárias rivalizarem com partidos e sindicatos na iniciativa política e na capacidade de mover massas.
Ao final, Bucci recorre à velha frase de Brecht sobre o rio violento e as margens violentas para mostrar a inversão do quadro. Em 2013, as autoridades e os partidos passaram a ocupar o lugar das margens opressivas, enquanto o rio da vida social escapava ao controle. Era um fluxo contraditório, instável e perigoso, mas real. E apontava para o desgaste do reinado dos aparelhos.
14. Outra mídia é possível?
Neste capítulo, a crise da representação atinge diretamente a imprensa. Os jornalistas aparecem também como alvo da violência das ruas e da polícia, e a instituição jornalística passa a ser interpelada por sua proximidade com o poder econômico e estatal. Nesse contexto, a emergência da Mídia Ninja aparece como sintoma central de junho.
Bucci descreve a Mídia Ninja como uma espécie de guerrilha midiática. Seus agentes produziam vídeos, transmissões ao vivo e relatos quentes a partir de dentro dos protestos, misturando posição de narrador e de participante. A rua, ali, não era só objeto de cobertura; era plataforma de lançamento de um novo circuito de visibilidade.
O autor reconhece a potência crítica dessa experiência. A Mídia Ninja expôs cegueiras do jornalismo tradicional, mostrou ângulos que as grandes redações não captavam e revelou que havia fome por mediações mais ágeis, menos solenes e menos alinhadas à lógica dos fortes. Ao mesmo tempo, Bucci faz questão de lembrar que ela não era neutra nem escondia vínculos políticos, especialmente com o circuito Fora do Eixo.
A lição que ele extrai não é a de que bastaria substituir a velha imprensa por mídia ativista. A lição é outra: quanto mais claros forem os compromissos e interesses de cada veículo, melhor para sua credibilidade. O jornalismo brasileiro, sustenta Bucci, seria mais forte se fosse mais crítico diante do poder e mais transparente sobre os compromissos que efetivamente tem.
15. A estética pedestre
Bucci toma a famosa formulação de Bruno Torturra — black bloc como estética, não movimento — e a examina com seriedade. A princípio, a expressão choca porque parece conferir dignidade artística à destruição. Mas o autor argumenta que a provocação contém um núcleo verdadeiro: o black bloc é reconhecido socialmente como código visual e comportamental simples de reproduzir.
A partir daí, o capítulo aproxima os black blocs, de maneira remota e degradada, das tradições de intervenção urbana ligadas ao surrealismo, ao dadaísmo e ao neodadaísmo. Essas vanguardas já buscavam interromper a rotina, produzir pane no cotidiano, deslocar o uso dos espaços e agredir simbolicamente a normalidade. Bucci lembra experiências brasileiras e argentinas desse tipo para mostrar a genealogia da forma.
A diferença decisiva, porém, é que o black bloc atravessa a fronteira entre discurso e destruição material. Onde a intervenção urbana queria reconfigurar percepções, ele quebra vitrines, depreda fachadas e atinge fisicamente signos da ordem. Continua operando no plano da linguagem, porque mexe com significados e visibilidades, mas o faz por via muito mais brutal, mais curta e menos reflexiva.
Por isso Bucci insiste: há, sim, um componente estético aí, mas degradado, enlouquecido, descosturado da consciência. Não se trata de obra de arte, nem de gesto emancipador em sentido elevado. Trata-se de um procedimento expressivo que, ao se entregar à pancadaria, leva a lógica da intervenção urbana até um limiar sombrio.
16. Nada a ver com arte (nem com teoria da arte)
O capítulo seguinte serve para evitar um mal-entendido. Bucci não quer dizer que protesto violento seja arte nem que a arte possa absolver a violência. Seu ponto é outro: política e espetáculo compartilham, desde a Antiguidade, recursos de oratória, encenação, corporeidade e visibilidade. Na era dos meios de comunicação de massa, essa vizinhança se intensifica dramaticamente.
Para pensar isso, ele recorre a Javier Cercas e à narrativa do golpe fracassado de 23 de fevereiro de 1981, na Espanha. O que impressiona em Cercas é que o gesto político decisivo — a recusa de alguns poucos em se jogar no chão — já nasce também como imagem televisionada. A política entra no arquivo visual do espetáculo sem deixar de ser política.
Bucci então mobiliza Jacques Rancière e a noção de partilha do sensível. O que aproxima pessoas em manifestações não é apenas programa ou doutrina, mas um tecido perceptivo comum, formado por cinema, música, performance, gestos, visualidades e experiências sensíveis partilhadas. A manifestação assume algo do registro performativo porque a política contemporânea respira nesse meio.
Mas o autor fecha a porta para qualquer romantização da violência. Que guerra e terror possam gerar imagens poderosas não significa que haja valor artístico no assassinato ou no delírio destrutivo. A arte não legitima a morte; e toda tentativa de encontrar beleza redentora na barbárie traz de volta o mau cheiro histórico do fascismo e do nazismo.
17. Radicalismo político ou esporte radical?
Aqui Bucci insiste na diferença entre antigas vanguardas de alta densidade teórica e a forma vazia do black bloc. Os grupos de intervenção artística do passado, mesmo quando buscavam choque e escândalo, estavam amparados por reflexão, manifestos, referências e experimentação consciente. Já o black bloc brasileiro, em sua leitura, opera quase sem conteúdo e quase sem pensamento.
Isso não quer dizer ausência de linguagem. Quer dizer banalização da linguagem performática. O radicalismo aparece como pirueta, pirotecnia, descarga corporal, um tipo de estética aeróbica na qual o corpo funciona como projétil significante. A violência entra como recurso expressivo e, ao mesmo tempo, como compensação narcísica para sujeitos que desejam aparecer como personagens heroicos.
Bucci chega a sugerir que, em muitos casos, há ali menos política do que esporte radical. A rua vira pista; a tropa de choque vira obstáculo; a adrenalina substitui o projeto. A energia pode até ser real, o ódio pode até ter objeto, mas a forma da ação já está muito mais próxima do circuito do espetáculo do que da organização de uma força transformadora.
A conclusão do capítulo é que o corpo, nas manifestações, funciona como veículo e como signo. Isso ajuda a entender por que a linguagem performática pode ser tão poderosa mesmo quando intelectualmente pobre. O corpo que corre, desvia, atira, posa e explode já comunica antes de qualquer palavra, e justamente por isso pode arrastar tanta carga de sentido.
18. Signos truculentos
Este é um dos capítulos mais teóricos do livro. Bucci vai a Saussure para reconstruir sua noção de linguagem: a língua como sistema social de signos, o signo como união de significante e significado, a diferença entre língua e fala, a ideia de que a linguagem é talvez o fato social mais decisivo na constituição de uma coletividade.
A aposta é transplantar parte desse aparato para a era das imagens. A teia visual que amarra a sociedade contemporânea passa a exercer funções análogas às da língua. Não se trata de dizer que imagem e palavra são a mesma coisa, mas de reconhecer que as imagens já operam como repertório comum, com capacidade de produzir laço, repetição, reconhecimento e disputa coletiva.
É aí que entra Bakhtin. Bucci recorre a ele para mostrar que os signos não ficam parados: são arenas de conflito, marcadas por índices de valor contraditórios. Em junho de 2013, bandeira nacional e Hino Nacional foram precisamente isso: signos disputados, apropriados e resignificados por atores diferentes. A linguagem política do período foi uma guerra pelos emblemas.
No fim, Bucci define ideologia quase como momento de fixação provisória do sentido. O significante desliza, a linguagem não premedita tudo, mas em certos instantes o vínculo entre forma e significado se cristaliza temporariamente. Junho, então, é lido como grande guerra linguística, na qual a violência física aparece sobreposta a um combate contínuo pela significação dos signos nacionais e políticos.
19. O perverso gozo estético
Bucci amplia o problema da estética ligando-o ao capital. Com Wolfgang Fritz Haug, ele mostra que a estética da mercadoria não é ornamento lateral, mas mecanismo de fabricação de fetiche. A mercadoria se apresenta sensivelmente de um modo calculado para ampliar desejo, valor de troca e adesão imaginária.
A partir daí, o autor desloca a análise para Lacan e para a noção de valor de gozo. A imagem que seduz não vale apenas porque informa ou representa; ela vale porque se oferece como resposta fantasiosa à falta do sujeito. O objeto a, nessa chave, não é um objeto simples, mas um traço, uma imagem, uma voz, um detalhe ao qual o desejo se cola.
Bucci aplica esse esquema às imagens dos protestos. Elas passam a circular não só como informação política, mas como mercadorias imaginárias investidas de valor de gozo. O black bloc, a massa, a bandeira, o confronto, o fogo, a fuga, o risco: tudo isso pode funcionar como fetiche, isto é, como signo no qual o sujeito projeta uma promessa de intensidade e sentido para si mesmo.
Por isso a imagem frequentemente trai a palavra. O discurso consciente pode condenar, moralizar, explicar, racionalizar. Já a imagem fala mais perto do inconsciente, do sentir, da identificação. O protesto, nesse plano, não é só convicção; é também circuito de desejo. Onde a palavra pontifica, diz Bucci, a imagem trai — e trai porque revela outra economia de adesão.
20. Olhar é trabalhar
Se o protesto produz valor de gozo, pergunta Bucci, quem fabrica esse valor? A resposta do capítulo é ousada: o olhar. Ver não é atividade passiva; é trabalho. O olhar inscreve imagens no repertório comum, costura significações, atualiza signos e participa da produção social de valor.
Por isso olhar é comparável a falar. Assim como a fala ativa palavras dentro de uma língua, o olhar ativa imagens dentro de um sistema compartilhado de visualidades. Ver um protesto, um black bloc, uma bandeira ou uma passeata televisionada não é apenas receber informação. É também participar da fabricação do signo que se consolida socialmente.
Bucci radicaliza o argumento ao afirmar que toda imagem circula como mercadoria. A imagem só ganha existência pública plena quando revestida de forma mercantil, e o consumo visual contribui para reforçar seu valor. O espectador não é simples destinatário: ele coopera na produção da potência significante do que vê.
Isso fecha o circuito da análise anterior. A beleza atribuída ao confronto com a tropa de choque não era mera metáfora individual. O protesto pôde parecer “lindo” porque havia um trabalho social do olhar fabricando aquela imagem como valor, como objeto de desejo, como signo investido de gozo. A sociedade do espetáculo não só mostra; ela põe todos a trabalhar naquilo que mostra.
21. E veio vindo a Lava Jato
Bucci desloca então o foco para 2014-2016. Os protestos continuam, mas com outra cadência: menos massivos, mais espasmódicos, mais canalizados. O Estado permanece surdo a quase tudo o que junho dizia. A única demanda que parece encontrar eco real é o combate à corrupção — e mesmo assim não pelo sistema político, mas contra ele.
Nesse sentido, a Lava Jato aparece como a única instância estatal que, de algum modo, “escutou” junho. Não porque tenha traduzido suas demandas sociais mais amplas, mas porque encarnou o vetor moralizante anticorrupção que percorria o mal-estar nacional. O eco institucional não veio do Planalto nem do Congresso; veio de Curitiba, da tríade juiz-Ministério Público-Polícia Federal.
Bucci descreve a operação como centro da política brasileira em 2015 e 2016, muito maior do que o mensalão. O volume de dinheiro, a escala das prisões e a queda de figuras centrais do lulismo e do petismo transformaram a Lava Jato em eixo de reorganização do sistema. A operação passou a concentrar o imaginário da limpeza e da punição.
É nesse quadro que Sérgio Moro vira imagem nacional. Ele surge em cartazes e capas de revista como figura quase salvífica, o homem que parece ouvir o que as ruas gritavam. Bucci não o celebra; mostra antes como o juiz se converte em personagem imagético, síntese de uma autoridade que, ao contrário das demais, parecia ao menos entender a linguagem do momento — ou saber instrumentalizá-la.
22. Eleições de mentira
O capítulo sustenta que a eleição de 2014 ignorou arrogantemente junho de 2013. Dilma e Aécio conduziram a disputa como se fosse possível voltar à rotina da propaganda tradicional, do marqueteiro onipotente, das promessas calibradas e das respostas formatadas para um país anterior à convulsão das ruas.
Aécio aparece como político que tenta falar aos jovens em registro artificial, enquanto Dilma é descrita como absolutamente crédula no poder da engenharia publicitária. Para Bucci, sua campanha baseou-se em mentiras conscientes, sobretudo na recusa enfática de políticas de ajuste que passariam a ser adotadas imediatamente depois da vitória.
O autor dá peso especial ao reconhecimento posterior do próprio Lula, que admite a ruptura entre discurso eleitoral e prática governamental. Isso reforça a ideia de fraude simbólica: a campanha prometeu uma coisa, o governo entregou outra, e a ruptura de confiança aprofundou o desgaste já aberto em junho. A mentira eleitoral passa a funcionar como combustível da crise.
Ao mesmo tempo, o vazio deixado pela velha política abre espaço para novos grupos pequenos, digitais, ideologicamente mais à direita, capazes de convocar novas passeatas via redes sociais. O ambiente que em 2013 permitira ao MPL crescer agora está disponível para atores de outro sinal. A forma permanece; o conteúdo vai se deslocando.
23. Um rio se parte em dois
Bucci descreve março de 2015 como momento de bifurcação irreversível. O grande fluxo aberto em junho de 2013 deixa de ser massa indiferenciada e se divide em dois rios: de um lado, a maioria que quer derrubar Dilma; de outro, um veio menor que, apesar de inúmeras restrições, ainda defende a permanência do governo.
A comparação entre 13 e 15 de março é central. As manifestações pró-governo, na sexta-feira, aparecem como procissões burocráticas, vermelhas, de baixa espontaneidade e escasso vigor. As anti-Dilma, no domingo, são muito maiores e socialmente mais vistosas, embora Bucci faça questão de notar que nelas cabia também gente de esquerda desiludida com a corrupção.
O autor vê, porém, uma ambiguidade decisiva nas marchas anti-impeachment. Elas eram contra o governo, sem dúvida, mas também a favor do statu quo social. A cordialidade entre manifestantes de camisa da seleção e policiais, os selfies e o ambiente de promenade revelavam passeatas sem fricção real com a ordem urbana ou de classe.
Daí o sentido do título. O rio de junho, antes caudaloso e confuso, já não corre num leito único. A energia se reparte, e o braço mais forte vai claramente à direita, ainda que abrigue nuances. O governo, sem base moral e sem consistência econômica, fica espremido entre a erosão política e a crise de confiança.
24. O ego, o self e o pau de selfie
Neste capítulo, Bucci lê as manifestações pelo impeachment também como fenômeno narcísico. Se junho de 2013 misturava fúria, improviso e risco, março de 2015 é descrito como uma grande cena de autocontemplação. A multidão posa para si mesma, fotografa-se incessantemente e transforma o protesto em espelho.
O símbolo material dessa transformação é o pau de selfie. Ele condensa a fusão entre protestar, registrar e aparecer. O sujeito que fotografa e o sujeito fotografado tornam-se quase a mesma pessoa. A relação entre olhar e ser olhado, que já era estrutural no espetáculo, ganha aqui sua forma mais banal e ao mesmo tempo mais transparente.
Bucci associa esse universo a um figurino muito claro: camisa da seleção, corpo asseado, clima de editorial de moda cívica. Não se trata de negar a força política do processo que acabará derrubando Dilma, mas de notar sua forma sensível: um impeachment vivido também como desfile, como consumo de si, como experiência social protegida e quase higienizada.
A consequência é que essas multidões, embora eficazes politicamente, são menos abertas ao imprevisto e menos transformadoras do que as de 2013. Elas vivem dentro de uma redoma narcísica e asséptica. Querem mudar o governo, não a estrutura do espelho em que se olham. Daí sua força institucional combinada com sua pobreza imaginativa.
25. O muro de Brasília
Bucci amplia a análise da polarização e a leva ao seu símbolo maior: o muro erguido na Esplanada dos Ministérios durante a votação do impeachment na Câmara. Antes de chegar a ele, o capítulo insiste que nem as marchas vermelhas pró-Dilma nem as amarelas anti-Dilma tinham, naquele momento, grande qualidade dramática ou potência inventiva. Os vermelhos eram burocráticos; os amarelos, chochos.
A crítica à dramaturgia das caricaturas — Pixuleco e Pixuleca — reforça esse diagnóstico. Os bonecos infláveis tentavam dar graça à política, mas revelavam sobretudo egos inflados, imaginação pobre e uma sátira já vazia de surpresa. A crise continuava, mas a forma expressiva parecia murchar, como os próprios balões.
Tudo muda quando as multidões de 13 de março de 2016 levam milhões às ruas e, logo depois, a Câmara transforma o processo em espetáculo televisionado grotesco. Do lado de fora, a cerca policial dividindo vermelhos e amarelos na Esplanada faz do país uma imagem literal de si mesmo: a alma nacional toma a forma de uma cicatriz que segrega.
Bucci fecha o capítulo lembrando que os protestos seguem depois do afastamento de Dilma, em registros muito diferentes — das ocupações estudantis eficazes a encenações universitárias ocas. A forma bruta dos protestos comporta desde energia política real até fantasia narcísica vazia. Mas, em todos os casos, permanece a combinação entre espetáculo, volatilidade e capacidade de produzir consequências duríssimas.
26. Conclusão em gerúndio
Na conclusão, Bucci recapitula o argumento central sem oferecer uma profecia definitiva. Os protestos seguem fazendo parte da paisagem urbana brasileira, mas os que vieram depois de 2013 parecem, perto dele, caricaturas menores. Ainda assim, a fúria não foi resolvida. O país permanece polarizado, violento, saturado de signos em conflito e de energia represada.
O primeiro ponto retomado é que a violência dos manifestantes e a violência do Estado operam como linguagem. A tropa de choque fala em nome da ordem; os protestos falam em nome do dissenso; e os meios de comunicação transformam ambas em espetáculo que se realimenta. Nesse quadro, Bucci revê Debord: a forma bruta dos protestos não é o contrário do espetáculo, mas seu prolongamento.
Ele retoma também a tese da mercadoria e do valor de gozo. As imagens dos protestos circularam como fetiche, colando-se ao olhar social como objetos de desejo, medo, excitação e identificação. O choque entre sociedade e Estado foi também choque entre temporalidades. As ruas aprenderam a falar num tempo para o qual as instituições não tinham ouvido.
O livro termina sem catarse. A velha política continua em pé, a polícia continua matando, os fascismos e as místicas primárias continuam disponíveis, e o Brasil segue vivendo numa combinação perigosa de intolerância, impaciência e espetáculo. A faísca futura pode não repetir junho tal como ele foi, mas as condições de combustão permanecem. O gerúndio da conclusão expressa isso: o processo não acabou.
Ver tambem
- Treze, de Angela Alonso — Alonso oferece a analise sociologica que complementa Bucci: onde ele ve linguagem, estetica e temporalidade, ela ve campos de ativismo, redes civicas e zonas de conflito. Juntos, os dois livros cobrem junho de 2013 por inteiro.
- mcluhan — A tese de Bucci sobre o divorcio temporal entre Estado e sociedade conectada e uma aplicacao pratica da ideia mcluhaniana de que o meio reestrutura a percepcao e a acao politica.
- byungchulhan — A analise de Bucci sobre narcisismo, selfie e autocontemplacao nas manifestacoes de 2015 converge com a critica de Han a sociedade da transparencia e do desempenho.
- habermas — Bucci usa o conceito de mundo da vida e esfera publica de Habermas, mas mostra como a aceleracao digital rompe os pressupostos de deliberacao racional que sustentam a teoria habermasiana.
- twitter_and_tear_gas_ensaio — Tufekci analisa os mesmos fenomenos (protestos conectados, horizontais, de escala rapida) de um angulo sociologico-digital que complementa a leitura estetico-comunicacional de Bucci.