Eles não são loucos, de João Borges — Resumo
Sinopse
Eles não são loucos reconstrói os bastidores da transição entre os governos Fernando Henrique Cardoso e Lula (2002–2003) — e os vinte anos que se seguiram — para sustentar que a sobrevivência econômica do Brasil àquela crise dependeu de uma cooperação improvável entre adversários políticos. A tese central é dupla: o campo petista não era radical de modo irresponsável (“eles não são loucos” é o resumo que Ilan Goldfajn fazia da campanha de Lula para interlocutores em Washington) e tanto Lula quanto FHC foram forçados, pela gravidade da situação, a agir com responsabilidade institucional que seus discursos públicos negavam. O livro argumenta que essa transição não foi nem automática nem nobre — foi extorquida pela ameaça concreta de colapso econômico antes da posse, e que os protagonistas nunca converteram o acerto institucional em cultura política duradoura.
O livro combina memória pessoal — João Borges chefiou a comunicação do Banco Central entre 2000 e 2003, o que lhe deu acesso direto a Arminio Fraga, Pedro Malan e ao aparato do Copom — com mais de cem entrevistas e reconstituição minuciosa do noticiário. A narrativa avança em dois planos simultâneos: o técnico-financeiro (reservas, risco-país, marcação a mercado, negociação com o FMI, o pacote de US$ 30,4 bilhões aprovado em setembro de 2002) e o político-humano (os bastidores da Carta ao Povo Brasileiro, os jantares de Palocci com tucanos, a viagem de Dirceu ao Colorado, a resistência interna ao tripé macroeconômico). O escopo temporal vai de 1998 — com a crise cambial e a virada do Real — até 2018, com a eleição de Bolsonaro como desfecho do ciclo PT-PSDB.
O livro é essencial para entender a Nova República como ciclo completo — de Collor a Bolsonaro — com ênfase no que o ciclo PT-PSDB representou como padrão de alternância democrática, por que colapsou e o que esse colapso revela sobre os limites do presidencialismo de coalizão brasileiro e a fragilidade do reconhecimento mútuo entre adversários. A análise dos mecanismos concretos da moderação lulista — como a Carta ao Povo Brasileiro foi negociada, quem convenceu quem, o que Palocci concedeu e o que Malan exigiu — é material direto para qualquer argumento sobre o papel do thymos, do pertencimento e da credibilidade na política econômica brasileira.
Capítulo 1 — Introdução
A introdução situa o livro num instante simbólico: a posse de Lula em 1º de janeiro de 2003. João Borges parte daquela cena para explicar por que decidiu reconstruir os bastidores da transição entre Fernando Henrique Cardoso e o presidente eleito do PT. O ponto de partida não é apenas biográfico; é também histórico, porque a chegada de Lula ao Planalto encerra uma sequência de derrotas e inaugura uma alternância de poder carregada de tensão econômica.
O autor se apresenta como alguém que acompanhou aquele período de dentro do aparelho de Estado. Depois de uma longa carreira no jornalismo econômico, ele aceitou o convite de Arminio Fraga para chefiar a comunicação do Banco Central em 2000. Essa mudança de posição lhe deu acesso a reuniões, personagens e informações que normalmente não chegam ao noticiário em tempo real.
O ano de 2002 aparece, então, como um ano-limite. O governo FHC vinha enfraquecido pelo racionamento de energia, que interrompera a retomada de crescimento e desgastara a popularidade presidencial. Ao mesmo tempo, José Serra se mostrava eleitoralmente frágil, enquanto Lula passava a liderar as pesquisas e, com isso, alimentava o temor de ruptura entre investidores e agentes econômicos.
A introdução formula a grande questão do livro: a crise do fim do governo FHC ameaçava também o futuro governo eleito. Não se tratava apenas de uma sucessão presidencial normal, mas da possibilidade de um colapso duplo — o de um governo que saía e o de outro que ainda nem começara. Esse risco, segundo Borges, explica a aproximação improvável entre quadros do governo e representantes da oposição.
Esse é o elemento central da narrativa anunciada logo de início: a cooperação entre adversários. Em público, a campanha foi dura, agressiva e marcada por ataques recíprocos. Nos bastidores, porém, começou a se formar uma espécie de engenharia política e econômica destinada a evitar que o país chegasse quebrado à posse do sucessor.
O livro combina memória pessoal, mais de cem entrevistas e uma reconstituição minuciosa do noticiário da época. Esse tripé serve para dar densidade à narrativa e, ao mesmo tempo, para corrigir lacunas, rever impressões e costurar fatos que, isolados, pareciam apenas episódios dispersos. Borges afirma que tentou não escrever como juiz dos personagens, mas como observador de um período crítico.
Capítulo 2 — “Não vamos ganhar”
O primeiro capítulo começa no início de maio de 2002, quando Fernando Henrique chama Pedro Malan para uma conversa reservada e resume o drama em uma frase brutal: o governo não venceria a eleição e talvez nem conseguisse aguentar até o fim. Essa percepção nasce da piora visível dos indicadores: o real se desvaloriza, a bolsa cai, os juros futuros sobem e o risco-país dispara. O problema, portanto, já não é só eleitoral; é de sustentação do próprio fim do mandato.
O sinal de alerta externo aparece num telefonema de Bill Clinton. Ao demonstrar preocupação com o Brasil por causa da implosão argentina, o ex-presidente americano sugere a FHC que o nervosismo internacional em relação ao país já era real.
O triângulo FHC-Malan-Arminio Fraga passa a operar em regime quase permanente de emergência. O problema central, para o governo, era que investidores e empresários liam a ascensão do petista como risco de reversão brusca da política econômica do Real. Serra, embora crítico em vários pontos, era considerado alguém que preservaria a disciplina fiscal e monetária. Lula, ao contrário, vinha cercado de discursos e documentos partidários que sugeriam uma revisão radical dos pilares do período FHC.
Com isso, a economia deixa de ser administrável apenas por Fazenda e Banco Central. A expectativa sobre janeiro de 2003 começa a corroer os meses restantes de 2002. O presente passa a ser governado pelo medo do futuro, e a crise eleitoral transforma-se em crise de confiança sistêmica. Não havia um manual para lidar com isso — uma situação em que quem ainda governava já não controlava plenamente as expectativas, enquanto quem provavelmente venceria ainda não podia responder institucionalmente por elas.
Ao mesmo tempo, Serra não oferecia ao governo a defesa pública de sua política econômica. Como também era crítico de Malan e de partes do legado do Real, não funcionava como escudo do oficialismo. Diante desse quadro, FHC conclui que será preciso reforçar as reservas e buscar novo acordo com o FMI.
O fecho é decisivo: Lula, que inicialmente se beneficiava eleitoralmente do agravamento do quadro, começa a perceber que a deterioração econômica do presente pode comprometer seu próprio futuro. A partir desse momento, a crise deixa de ser apenas uma arma contra o governo e vira também um problema para o candidato que lidera a sucessão.
Capítulo 3 — Uísque no Alvorada
O capítulo volta a dezembro de 1998 para reconstruir um encontro secreto entre Fernando Henrique, Lula e Cristovam Buarque. O episódio ocorre logo após a terceira derrota consecutiva de Lula para a Presidência e é apresentado como uma conversa improvável entre adversários que, em público, trocavam ataques duros.
O convite parte de FHC e chega a Lula por meio de Cristovam. Num primeiro momento, Lula recusa. Depois, muda de ideia, possivelmente após consultar José Dirceu. Ao aceitar, Lula vai ao Alvorada tarde da noite. O presidente faz questão de conduzir o adversário aos aposentos privados do palácio e lhe diz, em essência, que um dia aquele espaço poderia ser seu. A frase funciona ao mesmo tempo como provocação, reconhecimento e intuição política.
O encontro é banhado a uísque e recordações. FHC e Lula revisitam a trajetória compartilhada nas lutas contra a ditadura, as greves do ABC, as Diretas Já e as derrotas e vitórias da redemocratização. Cristovam Buarque registra a impressão de que os dois conversavam com grande fluidez.
No centro da conversa surge a Previdência. FHC tenta convencer Lula de que uma reforma seria necessária para qualquer governo futuro e sugere que a responsabilidade de governar acabaria impondo limites à retórica oposicionista. Outro trecho revelador é quando FHC diz a Lula que ele, e não o petista, seria o verdadeiro homem de esquerda naquela sala, porque Lula estaria ouvindo os economistas errados do PT.
O capítulo inclui ainda uma cena aparentemente lateral: a conversa com o garçom que votara em Joaquim Roriz porque se sentira ofendido pela forma como Cristovam o tratara no debate. A anedota serve para mostrar que a percepção popular nem sempre segue o eixo ilustrado do debate político. Apesar do clima amistoso, o diálogo não avança. O capítulo cumpre uma função estratégica: mostra que a aproximação entre FHC e Lula em 2002 não brota do nada — já havia entre os dois um precedente de reconhecimento recíproco.
Capítulo 4 — Lula vê a crise, e o PT ensaia o “Fora FHC”
Este capítulo recua ao segundo mandato recém-iniciado de Fernando Henrique para mostrar a raiz da vulnerabilidade econômica que explodiria em 1999. O modelo do real valorizado tinha trazido inflação baixa e ganho de poder de compra, mas cobrava um preço alto: déficits externos crescentes e dependência cada vez maior de capital estrangeiro atraído por juros elevadíssimos.
Borges explica o mecanismo com clareza. O país gastava em dólar muito mais do que gerava e precisava remunerar generosamente investidores externos para sustentar essa engrenagem. A alternativa econômica era dolorosa: desvalorizar o real significava encarecer importações, pressionar a inflação e reduzir o poder de compra da população.
É nesse contexto que FHC faz, em setembro de 1998, um discurso duro e pouco eleitoral sobre a necessidade de sacrifícios. A crise asiática, o colapso russo e o risco sistêmico associado à quebra do LTCM demonstram que os mercados estavam longe de ser a máquina racional descrita por seus próprios teóricos. Com a vitória de FHC, as negociações com o FMI se consolidam e desembocam no grande pacote de socorro de novembro de 1998 — robusto, mas amarrado a metas fiscais duras.
Após a desvalorização de janeiro de 1999, setores do PT enxergam nisso a chance de abreviar o ciclo tucano. Tarso Genro publica um artigo defendendo novas eleições presidenciais. Mas Lula e José Dirceu seguram a onda. O cálculo deles é frio: derrubar FHC em 1999 poderia produzir um efeito imprevisível. Melhor deixar o desgaste amadurecer e colher seus efeitos na eleição de 2002.
O capítulo termina com uma lição importante sobre o lulismo nascente. Mesmo quando o PT ainda abrigava discursos radicalizados, Lula já revelava instinto de conservação e espera. Em vez de apostar no atalho do colapso imediato do governo adversário, escolhe a estratégia de deixar o tempo trabalhar a seu favor.
Capítulo 5 — Trocando de piloto na turbulência
O capítulo entra no coração da crise cambial de janeiro de 1999. O primeiro problema não era só decidir pela desvalorização do real, mas escolher quem teria credibilidade para conduzi-la. Gustavo Franco estava identificado demais com a defesa do regime cambial anterior. Pedro Malan, muito próximo de Franco, chega a sugerir que também deveria sair. FHC recusa.
Itamar Franco adiciona pólvora ao quadro ao decretar moratória de Minas Gerais. O gesto amplia o medo de descontrole federativo. FHC então decide tirar Gustavo Franco e colocar Chico Lopes no Banco Central, ao mesmo tempo em que acelera a desvalorização — operação preparada sob sigilo extremo.
A chamada banda diagonal endógena entra em cena como uma solução heterodoxa, tecnicamente confusa e politicamente mal calibrada. O mercado reage muito mal, o dólar dispara, a bolsa desaba e as reservas seguem sendo consumidas. FMI e Tesouro americano se sentem pegos de surpresa e reagem mal à falta de consulta prévia.
A escolha então se reduz a opções de emergência. O governo acaba deixando a moeda flutuar. Arminio Fraga, de Nova York, apoia a decisão e pede que o governo pare de inventar novas regras. Chico Lopes cai, Arminio assume e Malan é mantido por FHC. A dupla recomposta adota juros altíssimos, introduz o mecanismo de viés e reorganiza o regime de metas.
O saldo do capítulo é decisivo: a crise impõe um enorme custo político e institucional ao governo, mas cria a moldura da política econômica que seria herdada em 2002 — câmbio flutuante, metas de inflação e disciplina fiscal, o tripé cuja preservação se tornará o centro do drama da sucessão.
Capítulo 6 — Plebiscito para não pagar a dívida
Este capítulo mostra como a contestação da dívida externa ganhou força moral e política no início dos anos 2000. A campanha da CNBB se apoia no imaginário do Grande Jubileu convocado por João Paulo II e associa o perdão das dívidas à tradição bíblica de restauração da justiça.
A Igreja organiza um plebiscito nacional entre 2 e 7 de setembro de 2000. O texto do plebiscito flerta com a ideia de suspensão de pagamentos e com a denúncia de que o orçamento estaria a serviço de “especuladores”. Pedro Malan reage com dureza, argumentando que o apelo papal dizia respeito a países muito mais pobres e endividados, não ao Brasil.
Mas a racionalidade técnica do ministro esbarra numa memória social muito forte. Depois de duas décadas de inflação alta, baixo crescimento e sofrimento econômico, a narrativa de que a dívida “engolia” o desenvolvimento brasileiro tinha enorme poder de mobilização. Vozes como Frei Betto e Eduardo Suplicy traduzem o pagamento da dívida em uma coleção de oportunidades perdidas para os pobres.
Quando o resultado sai, ele impressiona. Mais de 5 milhões de pessoas participam, e cerca de 90% votam contra a manutenção do acordo com o FMI. O PT apoiou intensamente a mobilização sem assumir sua liderança formal — deixar a Igreja e a sociedade civil ocuparem a linha de frente enquanto o partido capitalizava o clima político.
O capítulo se fecha ligando esse plebiscito ao programa petista de 2001. A linguagem da auditoria, da denúncia ao FMI e da crítica à dívida reaparece, mais sistematizada, no documento que serviria de base para a campanha de 2002 e alimentaria o medo dos mercados.
Capítulo 7 — A ruptura necessária
Aqui o livro entra diretamente no programa do PT aprovado no XII Encontro Nacional, em dezembro de 2001. O documento, coordenado por Celso Daniel, é apresentado como a formulação mais clara da ambição petista de romper com a política econômica de Fernando Henrique.
O diagnóstico inicial é totalizante. O governo FHC é descrito como fracasso econômico, social e nacional. O termo central é justamente “ruptura” — o PT propõe abandonar o modelo ancorado em abertura, desregulação e submissão ao capital financeiro globalizado.
No plano concreto, isso inclui mecanismos de controle sobre o capital estrangeiro especulativo, a denúncia do acordo com o FMI, a auditoria e renegociação da dívida externa, a suspensão de privatizações e a revisão das já realizadas. O Banco Central entra na linha de fogo: o partido rejeita a autonomia operacional da autoridade monetária.
Borges deixa claro o efeito político do conjunto. Num país com reservas baixas e fortíssima dependência de capital externo, a simples perspectiva de um governo guiado por esse programa alimentava o receio de fuga de capitais. O capítulo termina mostrando que esse fantasma programático acompanharia Lula durante boa parte de 2002 — mesmo quando o candidato começasse a mudar de tom, o documento continuaria pairando sobre sua candidatura como prova material de que o PT ainda carregava, em sua formulação oficial, a promessa de uma ruptura de grande escala.
Capítulo 8 — Apagão acende a luz amarela
O capítulo do apagão descreve o momento em que a crise energética deixa de ser hipótese e se impõe como fato. Na reunião de 7 de maio de 2001, FHC é informado de que o racionamento é inevitável e de que havia até quem defendesse apagões programados. A reação do presidente é de choque e também de ressentimento por ter sido mantido na penumbra por setores do governo.
Fernando Henrique reconhece que o apagão marcou profundamente a memória pública de seu segundo mandato. O racionamento não foi apenas um problema administrativo; foi o evento que feriu a imagem de competência do governo e dissolveu a possibilidade de um final de ciclo triunfal.
Borges mostra que a reunião foi caótica porque o governo chegara atrasado ao problema. Os alertas sobre o nível dos reservatórios vinham desde o ano anterior, mas o Ministério de Minas e Energia e a Aneel preferiram subestimar o risco. A matriz excessivamente dependente de hidrelétricas deixava o país vulnerável, e a alternativa das térmicas a gás emperrava por causa do risco cambial e da indefinição regulatória.
Quando março e abril de 2001 trazem chuvas insuficientes, o problema se torna matematicamente incontornável. É nesse ponto que surge Pedro Parente como solução de governo. Malan o aponta a FHC como único nome capaz de centralizar a resposta. Parente aceita com uma condição: ter instrumentos reais de comando. FHC adiciona uma diretriz política decisiva: “abrir o jogo”, reconhecer o tamanho da crise e convocar a sociedade a participar da solução.
O capítulo termina justamente nesse ponto de inflexão. A partir dali, o governo deixa de correr apenas para preservar indicadores e passa a lutar para impedir que a crise energética se transforme em sentença política sobre seus oito anos de gestão.
Capítulo 9 — A mágoa de Malan
No fim de agosto de 2001, Pedro Malan chega ao Planalto dizendo que havia um “novo” candidato na praça: Lula. O que Malan percebe é uma mutação de forma e estilo — a barba mais aparada, o cabelo melhor cortado, a camisa azul, a apresentação visual mais moderada.
O capítulo mostra que Malan entendeu o processo com antecedência rara dentro do governo tucano. Ele viu antes de muitos o nascimento do “Lulinha Paz e Amor”. Ao mesmo tempo, a mudança de embalagem não significava moderação plena de conteúdo.
A ferida específica de Malan vem da entrevista em que Lula o retrata como uma espécie de Tio Patinhas guardião dos cofres públicos — alguém que esconderia dinheiro e o liberaria segundo conveniências eleitorais. Para o ministro, isso ultrapassava o limite da crítica política.
A carta aberta a Lula, divulgada em abril de 2002, é o clímax do capítulo. Nela, Malan diz que o tema é sua honra e o nome que deixará aos filhos. Antes disso, buscou interpelação judicial, exigindo que Lula confirmasse, explicasse ou provasse o que dissera. Ao não obter uma resposta satisfatória, o ministro transforma a disputa em caso público.
O capítulo expõe, assim, como a campanha de 2002 não era só choque de programas. Era também um conflito de reputações, em que o PT precisava atingir os arquitetos da política econômica tucana e o governo tentava se defender de ataques que considerava irresponsáveis.
Capítulo 10 — Uma crise termina, outra começa
Com o fim do racionamento de energia, março de 2002 parecia oferecer ao governo FHC uma chance tardia de recuperação. Borges sugere que, sem o apagão, o segundo mandato poderia ter encerrado com três anos seguidos de crescimento forte — o que teria mudado o humor do eleitorado e fortalecido Serra.
Só que no mesmo dia em que a eletricidade volta ao normal explode o caso Lunus. A Polícia Federal apreende R$ 1,34 milhão na empresa ligada a Roseana Sarney e a seu marido. A imagem do dinheiro empilhado cai como bomba no centro da sucessão.
A importância do episódio é dupla. Primeiro, porque Roseana era a peça mais promissora do campo governista. Segundo, porque o caso transforma a disputa interna entre PSDB e PFL numa guerra aberta de desconfiança. Roseana e seu entorno apontam o dedo para Serra e setores do governo federal, insinuando uso político da Polícia Federal.
O PFL ameaça romper, e o presidente percebe que, sem o partido, ficaria comprometida a governabilidade dos meses finais. Roseana acaba desistindo da candidatura. O rompimento da aliança PSDB-PFL liquida um dos pilares do arranjo político de FHC.
O capítulo termina apontando quem percebeu mais rapidamente o novo mapa: José Dirceu. Enquanto o centro governista se fragmentava, o PT começava a se mover para capturar esse espólio. A crise que enterrava a chance de Roseana também abria espaço para a construção da ponte entre Lula e setores conservadores antes distantes.
Capítulo 11 — Mário era o nome
Este capítulo explica por que a candidatura Serra já nasceu quebrada por dentro. A disputa pelas presidências da Câmara e do Senado, quando Aécio Neves atropela o arranjo costurado pelo Planalto, marca o início do colapso da confiança entre as principais lideranças da base.
Para FHC, o sucessor natural seria Mário Covas. O presidente conta que, em 1998, convenceu o governador paulista a disputar a reeleição e lhe deixou implícito que o caminho presidencial de 2002 estaria aberto. A doença destrói esse roteiro. O câncer retorna, Covas morre em março de 2001 e o PSDB perde não apenas um potencial candidato, mas talvez o único capaz de unificar setores divergentes do partido.
Serra quer ser candidato. Paulo Renato também. Tasso Jereissati se sente preterido. O jantar no Alvorada em que a cúpula partidária “decide” por Serra aparece menos como um momento de unidade do que como um acordo de superfície, construído num ambiente de desconfiança e cálculos individuais.
Havia também um problema substantivo. Serra tinha divergências antigas com Malan e com aspectos centrais da política econômica do governo. Isso o impedia de funcionar como herdeiro claro do legado de FHC — disputa a sucessão sem encarnar plenamente a defesa do governo que o lançava.
O capítulo desmonta a ideia de que o fracasso tucano em 2002 decorreu só do desgaste do governo. Houve também erro de engenharia sucessória. Sem Covas, com a aliança rachada e com Serra incapaz de defender integralmente o legado econômico, o campo governista chegou à disputa presidencial dividido, desconfiado e sem narrativa comum.
Capítulo 12 — Para deixar de ser sapo
Este capítulo acompanha a lenta metamorfose de Lula depois da derrota de 1998. O diagnóstico interno era duro: com a imagem antiga, agressiva e sindicalmente ríspida, seria muito difícil vencer. Era preciso ampliar o campo social e político do lulismo.
O passo simbólico mais forte é a contratação de Duda Mendonça. Para a militância petista, isso soa quase como sacrilégio, já que o publicitário vinha do universo de Paulo Maluf. Duda entende que a barreira principal é afetiva. Lula precisava parecer menos zangado, menos ameaçador, menos preso ao personagem do “sapo barbudo”. A operação é de suavização: sorriso, barba cuidada, ternos melhores, fala menos crispada.
Dentro do PT, essa mutação enfrentava resistência real. A eleição direta para a presidência do partido, em 2001, se converte em batalha estratégica. José Dirceu, apoiado por Lula, vence por margem apertada e garante a corrente favorável à abertura para o centro.
Há, porém, uma ambiguidade importante. Enquanto a estética do candidato se modera, o programa aprovado pelo PT em 2001 segue carregado de propostas radicais na economia. A conversão não acontece de uma vez — ela é gradual, contraditória e vive em tensão com a cultura histórica do partido.
O capítulo conclui com um contraste importante. No PT, muitos ainda resistiam à mudança. No PSDB, quase ninguém a levava suficientemente a sério. Essa assimetria de leitura ajudou Lula: enquanto seus adversários imaginavam enfrentar o velho candidato, estavam diante de alguém que já se redesenhava para conquistar um eleitorado muito mais amplo.
Capítulo 13 — Um raio caiu
No início de 2002, o assassinato de Celso Daniel cai como evento devastador. Borges narra o sequestro e a morte do prefeito de Santo André como um raio que atinge o PT no momento em que o partido se preparava para a campanha presidencial.
A suspeita da família de Celso Daniel é de que ele tenha sido morto em conexão com um esquema de propinas ligadas ao transporte público de Santo André. Várias testemunhas morreram em circunstâncias obscuras, alimentando ainda mais a aura de mistério. O assassinato passou a assombrar não só o PT, mas a percepção pública sobre o partido.
Celso Daniel tinha papel estratégico no desenho da campanha de Lula — era coordenador do programa e nome cotado para a Fazenda. Sua morte cria um vácuo de comando e de formulação, e ocorre exatamente quando Lula precisaria decidir se insistiria no programa da “ruptura” ou se abriria espaço para moderação econômica.
É aí que surge Antonio Palocci. O capítulo mostra que seu nome aparece muito cedo, quase imediatamente. Palocci carregava a vantagem de ser prefeito bem-sucedido, técnico e identificado com práticas administrativas mais palatáveis ao centro e ao mercado. Um exemplo revelador: a privatização do sistema telefônico de Ribeirão Preto sob sua gestão petista.
Quando a Executiva Nacional confirma Palocci como coordenador da campanha, em 25 de fevereiro, a moderação econômica deixa de ser apenas hipótese e passa a ter um condutor político relevante dentro do núcleo lulista.
Capítulo 14 — “À esquerda de Lula”
O último capítulo desta primeira parte entra na contradição central da campanha petista: a necessidade de ir ao centro sem perder a alma do partido. A escolha de Palocci para a coordenação convive, no mesmo dia, com uma entrevista de José Alencar que escancara o tamanho da inflexão em curso.
Alencar surge como figura ecumênica e desconcertante. Ex-PMDB, acaba se aproximando do PL, partido conservador ligado à Igreja Universal e comandado por Valdemar Costa Neto. Ele defendia a permanência de Arminio Fraga no Banco Central, criticava o MST, resistia à intervenção estatal na economia, rejeitava a união civil entre pessoas do mesmo sexo e ainda elogiava o golpe de 1964. Era um aliado útil, mas ideologicamente abrasivo.
Ainda assim, ele enxerga antes de muitos a mudança de Lula. Quando afirma estar “à esquerda de Lula”, não está fazendo graça gratuita. Está captando que o petista já se movia para um terreno mais pragmático.
Dentro do PT, a reação é explosiva. Heloísa Helena vocaliza a indignação e acusa a direção de empurrar o problema para debaixo do tapete. José Dirceu, por sua vez, responde com a frase que sintetiza a nova linha: o partido já teria ido ao centro havia algum tempo.
As convenções de junho explicitam isso. O PL aprova a aliança; o PT também, mas sob vaias e gritos de “Lula sim, Alencar não”. A coalizão vitoriosa de 2002 não nasce como consenso harmonioso, e sim como pacto tenso, disputado e considerado impuro por muitos petistas. No balanço final, Borges conclui que o cálculo funcionou — mas que a entrada de Valdemar Costa Neto nesse arranjo anuncia, em embrião, uma zona cinzenta que mais tarde explodiria na crise do mensalão.
Capítulo 15 — A tempestade se aproxima
O capítulo se abre com uma cena que concentra a tensão central do livro: Beny Parnes, da área internacional do Banco Central, prepara uma viagem a Nova York para acalmar investidores quando descobre, por meio do jornalista Ali Kamel, a apreensão de dinheiro ligada ao círculo de Roseana Sarney.
Parnes percebe imediatamente que o episódio não é simples fofoca eleitoral. Ao levar a informação a Arminio Fraga, ouve dele uma reação seca: trata-se do “worst-case scenario”, o pior cenário possível. Até ali, Roseana funcionava como uma espécie de amortecedor político — candidata competitiva do campo governista, capaz de conter Lula num eventual segundo turno.
O escândalo destrói esse equilíbrio. Roseana sai da corrida e, com ela, uma rota plausível de sucessão. Arminio Fraga surge como um dos primeiros integrantes do governo a entender a dimensão completa dessa virada, advertindo que o real ficará sob ataque, o dólar vai disparar e os juros talvez precisem subir.
Esse alerta não nasce de ideologia, mas de estrutura. O Brasil de 2002 é vulnerável: carrega dívida externa pesada, reservas utilizáveis limitadas e uma dívida pública interna de prazos curtos. A crise é, acima de tudo, uma crise de expectativas — candidatos de oposição criticam diariamente o modelo econômico vigente, mas não oferecem ainda uma alternativa crível. O resultado é que investidores passam a precificar medo, e não política pública concreta.
Capítulo 16 — Mercado marcado
Este capítulo explica como a crise política se converte em estresse financeiro técnico. À medida que os investidores passam a duvidar da capacidade do Brasil para honrar sua dívida depois da eleição, começam a vender títulos públicos com vencimento em 2003 e nos anos seguintes, criando distorções agudas no mercado doméstico de renda fixa.
A novidade de 2002 é que investidores passam a agir como se a incerteza pós-eleitoral pudesse contaminar o próprio coração do financiamento doméstico do governo. Até então, o país havia convivido com temores recorrentes em torno da dívida externa, mas não com um pânico comparável sobre a dívida pública interna.
A marcação a mercado se torna central. O Banco Central conclui que não dá mais para esconder o problema. A solução é politicamente explosiva, mas financeiramente coerente: obrigar todos os fundos a reconhecer imediatamente as perdas de valor. Na prática, muitos brasileiros abrem seus extratos e descobrem, de um dia para o outro, que aplicações supostamente seguras valem menos do que imaginavam.
O argumento central do capítulo é que o Banco Central escolheu a transparência em vez da ocultação. Na visão de Arminio Fraga, recusar a marcação a mercado preservaria uma aparência falsa de normalidade, mas elevaria muito a probabilidade de um colapso bem mais violento adiante.
O que emerge do capítulo é o retrato de um governo acuado. As autoridades são obrigadas a absorver a irritação pública para manter o sistema financeiro intelectualmente honesto, enquanto o ambiente eleitoral premia candidatos por denunciar o status quo sem arcar com o custo imediato de preservá-lo.
Capítulo 17 — A necessidade da carta
O capítulo começa com a ascensão de Antonio Palocci como força moderadora dentro da campanha de Lula. Confirmado como coordenador do programa de governo depois da morte de Celso Daniel, Palocci passa rapidamente a buscar interlocução fora do PT, conversando com banqueiros, industriais e economistas profundamente desconfiados de Lula.
Seu método importa tanto quanto sua mensagem. Em encontros com figuras como Roberto Setúbal, Palocci se apresenta primeiro como ouvinte, fazendo perguntas certeiras e absorvendo a preocupação central do mercado: a retórica de “ruptura” do PT está produzindo uma crise de confiança.
O contraste com José Dirceu é decisivo. Dirceu aparece associado a uma visão mais intervencionista e estatizante, enquanto Palocci surge como alguém temperamental e intelectualmente mais próximo da ala moderada do PSDB do que dos instintos econômicos mais duros do próprio PT.
Palocci recruta dois nomes externos: o jornalista Edmundo Machado de Oliveira e o sociólogo Glauco Arbix. O trabalho deles é quase clandestino. O primeiro salto conceitual é decisivo: o que começa como elaboração de programa de governo evolui para a ideia de um documento curto e público, capaz de declarar os compromissos básicos de um futuro governo Lula — respeito a contratos, controle da inflação, responsabilidade fiscal.
Ao fim do capítulo, a futura Carta ao Povo Brasileiro já existe primeiro como necessidade política, depois como proposta técnica. A discussão deixa de ser se Lula deve ou não acalmar o mercado; passa a ser se será convencido de que essa sinalização é indispensável para vencer e governar.
Capítulo 18 — O primeiro passo em direção a Bush
Este capítulo desloca o foco para a conexão com os Estados Unidos. José Dirceu, com a ajuda do empresário Mario Garnero, começa a abrir uma ponte com o governo George W. Bush — movimento improvável diante da história do PT e de sua retórica anti-imperialista.
O primeiro resultado é uma reunião com a embaixadora dos Estados Unidos, Donna Hrinak. A mensagem de Dirceu é deliberada e disciplinada: o PT está pronto para governar com responsabilidade, respeitará contratos, manterá a inflação sob controle e não pretende liderar um governo antiamericano, ainda que preserve divergências em temas como a Alca.
Os americanos reagem com cautela, mas também com receptividade. O despacho de Hrinak para Washington descreve a fala de Dirceu como sinal de que o PT se prepara para um exercício maduro do governo nacional. Ela se surpreende ao ver um dirigente do PT chegar de helicóptero ao escritório de um grande empresário — a cena resume visualmente a transição do PT de partido de protesto para partido de governo.
Dirceu, Garnero e Marcos Troyjo redigem uma carta em inglês destinada a Dick Cheney, Larry Lindsey e Donald Evans, propondo aproximação entre o campo de Lula e o establishment republicano. O “primeiro passo” do título é ao mesmo tempo diplomático e psicológico — marca o momento em que o entorno de Lula deixa de tratar o poder americano como fato externo a ser denunciado e começa a tratá-lo como estrutura com a qual será preciso dialogar.
Capítulo 19 — Ele chegou atrasado
Uma semana depois do encontro de Dirceu com Donna Hrinak, é a vez de o próprio Lula se reunir com a embaixadora. A cena é narrada com cuidado quase teatral, e o atraso de Lula vira uma pequena nota humana num capítulo sobre reposicionamento estratégico.
Hrinak diz ser filha de um operário siderúrgico de Pittsburgh e pede para ser tratada de modo informal, o que ajuda a reduzir a tensão. Lula repete as garantias que Dirceu já havia apresentado. Ainda assim, a conversa não é de submissão: Lula deixa claro que, no tema da Alca, ele tem pouca margem para ceder.
Hrinak responde com um pedido tão político quanto pessoal: que Lula pare de atacar o presidente Bush. Lula faz uma pausa, entende o peso do recado e concorda. O capítulo apresenta esse instante como um pequeno, mas revelador, gesto de disciplina.
Dirceu, retrospectivamente, liga explicitamente esse esforço ao precedente de 1998, quando o apoio internacional ajudou o Brasil a estabilizar outra crise eleitoral. Enquanto isso, dentro da campanha, o trabalho de reposicionamento econômico prossegue. Edmundo Machado prepara um texto para Lula ler num evento em Minas Gerais que já contém muitos dos temas que depois aparecerão na Carta ao Povo Brasileiro — mas Lula não o lê.
Capítulo 20 — Malan se prepara para conversar com o PT
Este capítulo recua no tempo para reconstruir a história longa e muitas vezes pessoal do embate entre Pedro Malan e o PT. Os primeiros ataques de Lula a Malan não eram simples golpes de campanha; eram movimentos calculados de um partido que, por algum tempo, suspeitou que o ministro da Fazenda pudesse até se tornar o candidato presidencial do governo.
O capítulo revisita vários confrontos parlamentares, sobretudo entre Malan e Aloizio Mercadante. Esses embates mostram a profundidade do antagonismo entre os dois lados e revelam como a disputa econômica já estava fundida à disputa eleitoral muito antes de 2002.
Ainda assim, o capítulo deixa claro que Malan nunca foi de fato um candidato natural. Quando o momento decisivo chega e ele reúne assessores próximos para discutir a hipótese, conclui que lhe faltam vínculos orgânicos com o partido e vocação para a política eleitoral. Essa decisão importa porque o libera para pensar não mais como postulante, mas como guardião da transição.
Durante a campanha de 2002, parte do PSDB queria que ele endurecesse o discurso contra Lula. Malan se recusou. Seu raciocínio era frio e estratégico: qualquer que fosse o vencedor, ele provavelmente teria de lidar com essa pessoa; queimar a ponte por ganho eleitoral imediato não fazia sentido.
A frase final do capítulo dá forma cristalina a esse pragmatismo. Malan não quer desempenhar o papel de atacante partidário porque sabe que, no fim, pode ser ele próprio quem se sentará diante do PT para ajudar a administrar uma transição que nenhum dos lados tem o direito de estragar.
Capítulo 21 — “Lula, você quer perder a quarta eleição?”
Este é um dos capítulos mais importantes do livro, porque narra a luta política interna que produziu a Carta ao Povo Brasileiro. O ambiente externo já se deteriorou bastante — os Estados Unidos são abalados pelos escândalos da Enron e da WorldCom, a Argentina está em colapso e o Brasil se torna cada vez mais vulnerável ao temor de que uma vitória de Lula provoque uma quebra financeira antes mesmo da posse.
A primeira versão da carta é apresentada a Lula e José Dirceu e rejeitada quase de imediato. Ambos a veem como afronta à trajetória do PT e à militância. Quem começa a romper essa resistência é Luiz Gushiken. Sua pergunta repetida — se Lula quer mesmo perder a quarta eleição presidencial — desloca o problema da pureza ideológica para a necessidade estratégica.
Ao mesmo tempo, Palocci constrói uma ponte externa com a própria equipe econômica do governo. Do ponto de vista de Malan e Arminio Fraga, o ponto central não é uma conversão retórica qualquer, mas o compromisso de Lula com o tripé macroeconômico — metas de inflação, câmbio flutuante e superávits primários.
O texto final alcança uma dualidade delicada. Abre com retórica antigovernista adequada à campanha, mas espalha por dentro compromissos essenciais: respeito a contratos, recusa da inflação e preservação do superávit primário “o quanto for necessário” para manter a dívida sob controle. Alguns redatores queriam fixar um número explícito para o superávit, mas Lula não aceitava ficar amarrado a um valor que limitasse futuras decisões de gasto.
O capítulo termina com um gesto quase cinematográfico. Assim que a carta é divulgada, Malan pergunta a Palocci se pode traduzi-la para o inglês — e já está com a tradução pronta. O momento mostra que a ponte entre o mundo que saía e o que chegava vinha sendo construída antes, mais discretamente e com mais realismo mútuo do que o público imaginava.
Capítulo 22 — A pedra de Berlim
Este capítulo se afasta do calor imediato da campanha para explicar o pano de fundo intelectual de Edmundo Machado de Oliveira, um dos colaboradores improváveis da moderação econômica de Lula. A formação política de Edmundo se deu na esquerda estudantil radical dos anos 1970. Ele não nasceu moderado; chegou à moderação por meio da experiência, da viagem e da desilusão.
O episódio decisivo é sua travessia pela Europa Oriental depois da queda do Muro de Berlim. Em vez de encontrar um mundo socialista imperfeito, mas recuperável, ele se depara com escassez, decadência, desorganização institucional e moedas tão degradadas que beiram o absurdo. Quando Edmundo chega a Moscou e depois a Nova York, já incorporou uma lição dura: moeda estável não é obsessão burguesa, mas necessidade civilizatória.
A parte mais reveladora do capítulo vem quando Edmundo conta a Rui Mesquita que um discurso publicado de Palocci havia sido, na verdade, editado por ele. Depois, Edmundo deixa o Estadão para ir ao Ministério da Fazenda, aceitando uma redução drástica de salário.
Nesse sentido, a “pedra de Berlim” do título funciona como souvenir e metáfora. Edmundo traz consigo fragmentos de um mundo que desabou, e esses fragmentos passam a integrar os escombros intelectuais a partir dos quais um projeto lulista mais pragmático será construído.
Capítulo 23 — A Carta chega ao Colorado
O capítulo justapõe duas cenas simultâneas. Em São Paulo, Lula lê em público a Carta ao Povo Brasileiro; em Beaver Creek, no Colorado, Mario Garnero circula por um fórum fechado da elite republicana levando uma carta de José Dirceu destinada a figuras centrais do governo Bush.
O primeiro encontro decisivo é com o vice-presidente Dick Cheney. Ele inicialmente supõe que Garnero quer falar de José Serra. A resposta de Garnero muda a cena: ele tira a carta de Dirceu, completa com a estrela vermelha do PT, e a surpresa de Cheney vira a imagem simbólica central do capítulo. O Partido dos Trabalhadores já não quer ser julgado apenas pelos roteiros antigos.
A carta é cuidadosamente construída. Dirceu se apresenta, destaca o papel do PT na construção da democracia e propõe uma agenda informal de relações entre o PT, o Partido Republicano e líderes empresariais dos Estados Unidos. Não se trata de mera nota de cortesia — é uma oferta de reconhecimento.
Garnero também entrega cópias a Larry Lindsey e Donald Evans, indicando que a operação mira uma rede ao redor do presidente. O timing importa: as cartas têm a mesma data da reunião com Hrinak em São Paulo, revelando uma ofensiva coordenada. O humor em Beaver Creek é fortemente desfavorável a uma presidência do PT, e vozes influentes das finanças globais interpretam a turbulência brasileira sobretudo pela lente do risco eleitoral.
Capítulo 24 — A Carta chega a Nova York
Depois da divulgação da Carta, a campanha leva a mensagem para fora do país. Lula envia José Dirceu — e não Mercadante ou Mantega — aos Estados Unidos, em parte porque Gushiken acredita que Dirceu precisa de um “banho de realidade” sobre o que os atores internacionais realmente temem.
A primeira reunião, com a Standard & Poor’s, explicita o ponto central. A agência diz que números importam, mas a “vontade de pagar” importa tanto quanto eles — a disposição percebida de um governo para honrar obrigações é parte decisiva do risco soberano.
Dirceu se reúne com grandes atores financeiros, como o J.P. Morgan, e com Stanley Fischer, do Citigroup. A reação de Fischer é particularmente reveladora: a presença de José Alencar como vice de Lula o tranquiliza mais do que a própria Carta, porque a adesão voluntária de um empresário funciona como sinal mais persuasivo do que o papel.
Em Washington, Dirceu ouve advertências cada vez mais diretas de que o mercado teme sinceramente um calote brasileiro antes de janeiro caso Lula continue soando radical. No Institute for International Economics, Michael Mussa formula esse medo de modo brutal: se o PT vencer, o Brasil talvez nem chegue à posse sem cair em moratória.
O choque culmina num telefonema para Fernando Henrique. Dirceu diz que, em Washington, todos falam em moratória e default; Fernando Henrique responde, com clareza brutal, que isso acontecerá se Lula continuar dizendo o que vinha dizendo. A viagem opera em dois níveis: para fora, tranquiliza a elite americana; para dentro, educa a cúpula petista ao confrontar um de seus dirigentes mais poderosos com as consequências nuas e cruas da ambiguidade.
Capítulo 25 — Ele fugiu de helicóptero
Este capítulo amplia a narrativa usando a Argentina como espelho sombrio do Brasil. O chamado “efeito Orloff” organiza a análise: candidatos de oposição podem se beneficiar de uma crise econômica, mas, uma vez eleitos, podem herdar essa mesma crise em intensidade suficiente para destruí-los.
O capítulo desenha um padrão repetitivo: a estabilização temporária favorece eleitoralmente o governo; a estabilização fracassada favorece com igual força a oposição. Forma-se, assim, uma estrutura de incentivos perigosa, em que a política passa a cavalgar choques econômicos.
Fernando de la Rúa vence como alternativa de oposição ao modelo esgotado, mas sua vitória não resolve a crise. O retorno de Domingo Cavallo simboliza o limite da mudança eleitoral. Em seguida vêm o corralito, a revolta de rua, as mortes e, finalmente, a fuga de helicóptero da Casa Rosada. A imagem é inesquecível porque comprime num único instante televisionado a falência do Estado, a solidão política e a implosão econômica.
A função do capítulo é cautelar e diagnóstica. A Argentina não aparece como analogia preguiçosa, mas como demonstração próxima do que ocorre quando transição eleitoral, fragilidade econômica e colapso de confiança passam a se alimentar mutuamente mais rápido do que os governos conseguem reagir.
Capítulo 26 — Vamos fazer o que não gostamos
Neste ponto da narrativa, a equipe de Fernando Henrique chega a uma conclusão dura: o candidato do governo provavelmente não vencerá, e o país talvez não “aguente” sem apoio externo. A frase do título se refere à decisão politicamente desconfortável de trazer a oposição para uma arquitetura de resgate centrada no FMI.
Murilo Portugal, representante brasileiro no Fundo, torna-se peça central da operação. Quando levanta a possibilidade pela primeira vez, encontra a resistência habitual do FMI a negociar um grande acordo em ano eleitoral. A parte brasileira endurece o argumento: se o Fundo não ajudar antes da eleição, e Lula vencer, o novo governo poderá sacar imediatamente todo o dinheiro disponível logo após o pleito para se defender.
O FMI acrescenta sua própria exigência: qualquer novo acordo precisará do apoio dos candidatos de oposição. Essa condição transforma a negociação financeira em negociação profundamente política, porque o resgate só funcionará se os prováveis sucessores ajudarem a validá-lo.
É por isso que a Carta ao Povo Brasileiro surge aqui não como manifesto abstrato, mas como instrumento de crise. Ela é divulgada sob a pressão de mercados em piora, urgência institucional e a necessidade de provar que um governo Lula não converterá a transição em ruptura. A percepção dominante do capítulo é que a moderação não nasce da serenidade — ela é extraída do medo, da barganha e do encolhimento das opções, tanto do lado do governo que sai quanto do lado da oposição.
Capítulo 27 — Hora de conversar com o adversário
Este capítulo narra a passagem dos contatos secretos para o engajamento público. A viagem de Arminio Fraga a Nova York e Washington é tratada tanto como missão diplomática quanto monetária. Ele se encontra com grandes investidores, com o Fed de Nova York, a direção do FMI, Alan Greenspan e Paul O’Neill.
A tarefa de Fraga é delicada. Ele precisa convencer interlocutores externos de que o Brasil ainda dispõe de uma moldura macroeconômica responsável, mas sem fazer declarações que soem como tentativa de amarrar ou atacar diretamente a oposição em pleno processo eleitoral. A observação favorável de O’Neill depois de encontrar Fraga tem peso específico — oferece um breve aval público do Tesouro americano num momento em que até pequenas palavras de confiança produzem efeito desproporcional nos mercados.
A revelação mais importante ocorre quando Fraga reconhece que Aloizio Mercadante quer se encontrar com ele. Essa declaração anuncia um processo inicial de transição, no qual o aparato do Estado começa a informar a oposição antes mesmo de a eleição terminar.
Fraga também sugere publicamente que qualquer vencedor manterá as linhas gerais da política macroeconômica — trata-se menos de previsão do que de tentativa de fabricar uma expectativa autorrealizável. O que o capítulo captura, no fim, é a intimidade estranha entre adversários sob pressão: governo e oposição seguem lutando pelo poder, mas ambos são empurrados pelas circunstâncias para alguma forma de cooperação.
Capítulo 28 — Mercadante vai ao Banco Central
O capítulo se abre com um gesto altamente simbólico: Aloizio Mercadante, uma das principais vozes econômicas do PT, visita o Banco Central para uma reunião com Arminio Fraga. Jornalistas cercam o prédio porque o encontro é entendido como novidade — a primeira ponte institucional pública entre a equipe econômica do governo e a principal oposição.
A reunião permanece secreta até o último instante porque ambos os lados precisam de espaço para conversar sem transformar a conversa em teatro de campanha. Mercadante chega carregando suspeitas, e verbaliza o temor de que o Banco Central possa agir politicamente durante a eleição.
À medida que a reunião avança, o tom se suaviza. Uma vez expostos os dados técnicos, a atmosfera fica mais leve. Então surge o problema da imprensa: Mercadante precisa decidir o que dirá. O capítulo registra a tensão quase cômica desse momento — ele chega a cogitar dizer que o pior já passou, apenas para ser advertido de que tal formulação seria perigosa.
O encontro não é isolado — integra um roteiro maior desenhado no Palácio do Planalto, com Arminio Fraga funcionando como principal interlocutor oficial dos candidatos. Há também conversas com Serra e Ciro Gomes, enquanto Garotinho se recusa a participar. No fim, a ida de Mercadante ao Banco Central trata menos de acordo do que de aclimatação. O PT vai sendo puxado, passo a passo, para as responsabilidades do Estado.
Capítulo 29 — Nem um centavo a mais
Este capítulo se concentra no detalhe fino da negociação com o FMI. Malan e Fraga querem um pacote grande o bastante para tranquilizar os mercados não apenas até o fim de 2002, mas também ao longo do primeiro ano do governo seguinte.
O conflito mais duro com o FMI gira em torno da meta de superávit primário. Anne Krueger pressiona por um número maior, mas Malan resiste repetidamente. Sua frase — “nem um centavo a mais” de superávit primário — condensa essa lógica. Ele não argumenta que mais esforço fiscal seja necessariamente ruim; argumenta que seria politicamente imprudente pedir à oposição que assinasse austeridade extra em pleno ano eleitoral.
Em 1º de agosto, o dólar dispara, e a escassez de crédito externo passa a ser reconhecida abertamente. Em seguida ocorre um breve alívio quando vaza a notícia de que o pacote do FMI está próximo. Nos bastidores, Fernando Henrique reúne seus principais ministros, enquanto Pedro Parente costura o lado político com os candidatos.
Quando o Fundo anuncia os termos em 7 de agosto, o desenho fica claro: pacote robusto, desembolso imediato relativamente limitado e o grosso reservado para 2003. A mensagem é transparente: o próximo presidente terá acesso a apoio externo — desde que mantenha o caminho da responsabilidade. O próprio formato do arranjo é concebido para puxar os candidatos em direção à adesão pública.
Capítulo 30 — O fato sem foto
O capítulo gira em torno da reunião de 19 de agosto, no Palácio do Planalto, entre Fernando Henrique e os principais candidatos à Presidência. É um encontro historicamente incomum, mas o que o define visualmente é justamente aquilo que não acontece: não há foto de grupo.
Nenhum dos oposicionistas quer ser visto excessivamente próximo do presidente que vinha criticando. Antes da reunião, Fernando Henrique enquadra publicamente o encontro em termos de responsabilidade patriótica. Lula, por sua vez, calibra cuidadosamente sua posição — nos palanques, continua criticando o governo, mas internamente a direção petista já sabe que algum tipo de participação construtiva se tornou inevitável.
A reunião é organizada separadamente com cada candidato. Naquele momento, Ciro Gomes talvez fosse até mais preocupante do que Lula, porque seguia competitivo nas pesquisas e muito menos previsível em seu posicionamento.
Quando as conversas privadas terminam, os candidatos falam com a imprensa no térreo. Todos — exceto Garotinho — indicam que, se eleitos, honrarão o acordo. Lula vai além do protocolo: não apenas declara disposição para ajudar o Brasil a evitar uma crise mais profunda, como entrega a Fernando Henrique um documento escrito que reconecta explicitamente sua posição à Carta ao Povo Brasileiro e aos compromissos fiscais e inflacionários.
O “fato sem foto” torna-se, assim, um dos momentos mais importantes da transição. A ausência da imagem preserva as necessidades de campanha de todos, mas a substância do encontro — sobretudo a reafirmação documental feita por Lula — ajuda a travar em seu lugar o consenso emergente.
Capítulo 31 — O melhor de Lula, segundo Malan
O capítulo final desta sequência mostra como o governo tentou converter os entendimentos de agosto em confiança internacional. De volta ao Ministério da Fazenda, Pedro Malan manda sua equipe recolher as declarações mais tranquilizadoras feitas pelos candidatos, especialmente por Lula, e traduzi-las para o inglês.
A operação editorial é reveladora. Falas ambíguas, contraditórias ou inflamadas pela lógica eleitoral são descartadas, enquanto os trechos que mostram compromisso com contratos, seriedade fiscal e controle da inflação são preservados e empacotados para Washington. Murilo Portugal mais tarde chama o material recebido de “o melhor de Lula”.
Dentro do Planalto, da Fazenda e do Banco Central, o diagnóstico já está praticamente fechado: Lula deve vencer. O esforço então deixa de ser o de impedi-lo e passa a ser o de garantir que sua vitória não desencadeie uma catástrofe de financiamento.
O comentário retrospectivo de Ilan Goldfajn capta a posição insólita da equipe econômica. Em Washington, eles estão basicamente dizendo às autoridades estrangeiras que os dirigentes do PT “não são loucos”, enquanto esses mesmos dirigentes e seus economistas seguem criticando a política do governo dentro do Brasil.
Em 6 de setembro, o FMI aprova formalmente o pacote de US$ 30,4 bilhões, então o maior empréstimo de sua história. Mas mesmo aí o conflito não desaparece. Um pequeno ajuste para cima na meta de superávit primário de 2002 provoca críticas de Lula, Mercadante e Ciro Gomes. O capítulo termina preservando a ironia central do livro: a transição dá certo não porque a desconfiança desaparece, mas porque gente suficiente dos dois lados decide agir como se a responsabilidade fosse prevalecer.
Capítulo 32 — A ruptura quase fatal
O capítulo recua ao início de 2002 para mostrar o momento em que a crise cambial quase se converteu numa crise de dívida soberana de fato. Em janeiro, o Tesouro Nacional percebeu que o caixa estava reduzido a um nível crítico. A combinação de vencimentos elevados, restrição de liquidez e desconfiança dos mercados tornava o refinanciamento das LFTs — títulos pós-fixados indexados à Selic — cada vez mais difícil.
Arminio Fraga e Murilo Portugal acompanharam de perto o processo diário de rolagem da dívida, conscientes de que um fracasso num leilão poderia desencadear um efeito dominó. O autor descreve a tensão permanente dos meses seguintes: o governo entendia que estava literalmente a dias de um calote técnico em certos momentos. A margem de segurança era estreita.
O que impediu o colapso foi uma combinação de disciplina fiscal, coordenação com o FMI e o sinal gradual, ainda que contraditório, de que Lula absorvera a Carta ao Povo Brasileiro como compromisso real. Borges mostra que a ruptura quase fatal não virou ruptura efetiva porque atores de dois lados — governo e oposição — preferiram a sobrevivência institucional ao aproveitamento político da crise.
Capítulo 33 — “Três vivas para o Brasil” e o otimista solitário
No auge da turbulência, Joseph Stiglitz publicou um artigo elogiando a gestão econômica brasileira. O texto chegou como água num deserto para a equipe econômica, mas foi recebido com suspeita pelos mercados, que viam Stiglitz como heterodoxo e interpretaram o elogio como mau sinal.
O capítulo usa esse episódio para explorar o paradoxo de comunicação que a crise criou. Qualquer reconhecimento vindo de fora era imediatamente filtrado pelo viés de quem o emitia. A equipe econômica tinha dificuldade em encontrar vozes que fossem credíveis para os mercados financeiros e ao mesmo tempo dispostas a reconhecer publicamente os esforços do governo.
Borges mostra que o “otimista solitário” do título não é apenas Stiglitz, mas uma metáfora para a posição do próprio Malan e de Arminio Fraga dentro do debate público: insistindo que o Brasil não quebraria num momento em que essa afirmação soava, para muitos observadores, como wishful thinking.
Capítulo 34 — O envelope envenenado
O capítulo gira em torno de uma decisão de José Serra durante a campanha: recusar-se a usar material comprometedor sobre Lula que chegou até sua equipe. O “envelope envenenado” do título é uma metáfora para as tentações da campanha suja — e para a escolha de não abri-las.
A decisão de Serra é apresentada não como pureza moral abstrata, mas como cálculo estratégico e temperamento pessoal. Serra avaliou que atacar Lula com material de origem duvidosa poderia reverter contra si próprio e contaminar a imagem de seriedade que era o centro de sua campanha.
O autor contextualiza a decisão dentro da polarização crescente do segundo semestre de 2002. Naquele ambiente, qualquer gesto de campanha suja seria amplificado e poderia consolidar ainda mais o eleitorado de Lula. O envelope ficou fechado — e o capítulo termina sugerindo que essa escolha diz mais sobre Serra do que qualquer discurso que ele tenha feito.
Capítulo 35 — A lágrima de Serra
O capítulo descreve o momento em que José Serra tomou conhecimento, antes do dia da eleição, de que havia perdido. A cena central é privada: Serra recebendo informações de suas próprias pesquisas internas e reagindo com uma emoção contida que o autor capta numa imagem de lágrima — real ou metafórica.
Borges usa esse momento para explorar o que estava em jogo subjetivamente para Serra. A campanha de 2002 era vista por ele como talvez a última oportunidade real de chegar à presidência. A derrota não era apenas política; era o encerramento de uma trajetória construída ao longo de décadas.
O capítulo também funciona como ponte para o próximo: ao mostrar Serra derrotado mas lúcido, o autor prepara o terreno para a análise que Serra faria sobre as razões da vitória de Lula — uma análise que, como veremos, é generosa e politicamente honesta.
Capítulo 36 — A vez de Lula, segundo Serra
Logo depois da derrota, Serra fez declarações reservadas sobre por que Lula havia vencido. O capítulo reconstrói esse diagnóstico com detalhe. Serra não atribuiu sua derrota à crise econômica, nem a falhas de campanha: reconheceu que Lula representava um movimento histórico que tinha hora marcada para chegar ao poder.
A análise de Serra é apresentada como politicamente madura. Ele entendia que o PT havia construído uma base de legitimidade ao longo de vinte anos que nenhuma campanha adversária poderia desfazer em meses. A crise ajudou, mas não foi a causa.
Borges usa a perspectiva de Serra para iluminar algo que os analistas pró-Lula raramente admitem: a vitória de 2002 não foi um raio em céu azul. Foi o amadurecimento de uma força política que havia aprendido, ao longo de quatro derrotas, a falar para além de sua base.
Capítulo 37 — O discurso da vitória antes da eleição
O capítulo descreve uma reunião que antecipou a vitória. No Hotel Glória, no Rio de Janeiro, Arminio Fraga e Antonio Palocci se encontraram antes do segundo turno para discutir os cenários possíveis. Palocci chegou com um documento chamado “Pontos para o novo presidente” — uma agenda mínima para a transição econômica.
A reunião é apresentada como um dos momentos fundadores da continuidade macroeconômica que viria a marcar o primeiro mandato de Lula. Os dois homens que seriam responsáveis pela política monetária e fiscal falaram com franqueza sobre os limites e as obrigações que o próximo presidente enfrentaria.
Borges destaca o paradoxo: o “discurso da vitória” do título não era o discurso eleitoral de Lula — era uma conversa técnica sobre responsabilidade fiscal entre um ministro de FHC e o futuro ministro da Fazenda de Lula. A democracia brasileira se preparava para a alternância não com retórica, mas com planilhas.
Capítulo 38 — Reunião extraordinária
O capítulo narra a reunião extraordinária do Copom convocada nos dias ao redor da eleição para discutir a trajetória da Selic. A decisão de elevar os juros para 21% foi tomada num ambiente de pressão máxima: o real ainda estava desvalorizado, a inflação implícita nas expectativas seguia alta, e a transição política criava incerteza adicional.
Arminio Fraga conduziu a reunião ciente de que qualquer decisão seria interpretada politicamente. Subir os juros poderia ser visto como um presente envenenado ao novo governo; não subir poderia agravar a crise de confiança. O Copom optou pela alta.
O autor usa a reunião para mostrar que a independência operacional do Banco Central — ainda informal, não garantida por lei — dependia em última instância da disposição de Arminio de absorver o custo político de decisões impopulares. O capítulo termina registrando que a ata da reunião foi redigida com cuidado redobrado, pois todos sabiam que seria lida pelo próximo governo.
Capítulo 39 — Noite da vitória, véspera de trabalho
O capítulo descreve a noite de 27 de outubro de 2002. Lula discursa para uma multidão na Avenida Paulista com o texto “Compromisso com a Mudança”, no qual reafirma os compromissos da Carta ao Povo Brasileiro e acrescenta a promessa de responsabilidade na gestão pública.
Borges contrasta o tom festivo da vitória com a sobriedade do discurso. Lula poderia ter falado em ruptura; escolheu falar em continuidade seletiva. O autor interpreta isso como um sinal de que a equipe de transição já havia internalizado que o espaço para aventuras heterodoxas era zero.
A “véspera de trabalho” do título resume o argumento do capítulo: a festa durou uma noite, e na manhã seguinte o novo presidente acordou com um país endividado, uma moeda ainda frágil e uma equipe econômica a montar do zero.
Capítulo 40 — Continuidade com Lula, segundo FHC
No dia seguinte à eleição, Fernando Henrique Cardoso deu uma declaração pública sobre a vitória de Lula que surpreendeu pelo tom. Em vez de lamentar a derrota do PSDB, FHC reconheceu a legitimidade da vitória e sinalizou disposição para cooperar na transição.
O capítulo explora o que estava por trás desse gesto. FHC entendia que seu legado dependia em parte do que viesse depois: uma transição caótica destruiria não só o governo Lula, mas também a reputação de estabilidade construída pelo Plano Real. A cooperação era, portanto, ao mesmo tempo generosa e calculada.
Borges também mostra que a declaração de FHC teve efeito nos mercados. Um ex-presidente da República dizendo publicamente que confiava na capacidade de Lula de governar com responsabilidade funcionou como um sinal positivo adicional num momento em que qualquer sinal positivo importava.
Capítulo 41 — Sete meses na montanha-russa
O capítulo é uma recapitulação panorâmica do arco de janeiro a outubro de 2002. Borges organiza os meses em fases: a turbulência inicial do ano eleitoral, a aceleração da crise no segundo trimestre, o pico de desconfiança entre junho e agosto, e a lenta estabilização a partir da Carta ao Povo Brasileiro.
A metáfora da “montanha-russa” é trabalhada com precisão. O risco soberano brasileiro subiu de menos de 700 pontos-base para mais de 2.400, e depois recuou. O câmbio foi de 2,30 para mais de 3,90 e começou a ceder. A inflação implícita nas NTN-Cs chegou a superar 12% ao ano.
O que torna o capítulo mais do que uma revisão de dados é a análise que Borges faz da psicologia coletiva dos agentes envolvidos. Nenhum ator individual — nem Lula, nem Malan, nem Arminio, nem o FMI — controlava o resultado. O que funcionou foi uma combinação improvável de sinais, contrasinais e apostas num futuro que ninguém podia garantir.
Capítulo 42 — Malan, o confidente de Palocci
O capítulo descreve as conversas que Palocci iniciou com Pedro Malan ainda durante a transição. Palocci pediu ao ministro que estava de saída uma avaliação honesta sobre os principais técnicos da área econômica do governo federal — quem valia a pena tentar manter, quem era descartável, onde estavam as armadilhas institucionais.
A cena da “cadeira vazia” é central: Malan recebe Palocci num gabinete já em processo de esvaziamento, com caixas empilhadas e uma atmosfera de término. A conversa é descrita como franca e sem protocolo. Malan sugeriu o nome de Murilo Portugal como alguém de quem Palocci poderia depender nos primeiros meses.
Borges usa o encontro para mostrar a dimensão humana da transição. Debaixo da retórica de ruptura e herança maldita, havia uma transmissão discreta de conhecimento institucional entre dois homens que, em público, representavam campos opostos.
Capítulo 43 — Arminio, a cartada de Palocci
O capítulo narra a tentativa de Palocci de manter Arminio Fraga no Banco Central. A lógica era simples: Arminio tinha credibilidade internacional insubstituível no curto prazo, e a transição seria muito mais suave com ele no posto.
O obstáculo foi político. José Dirceu fechou a porta para a permanência de Arminio em 20 de novembro, argumentando que seria inaceitável para a base do PT ter um ex-sócio de George Soros comandando o Banco Central de um governo petista. Palocci entendeu a restrição mas registrou sua discordância.
O capítulo termina mostrando Palocci tendo de recalcular. Manter a política econômica sem poder manter o principal rosto dessa política exigia encontrar alguém que fosse novo o suficiente para ser aceito pelo PT e sólido o suficiente para ser aceito pelos mercados. Essa era a equação que levaria a Henrique Meirelles.
Capítulo 44 — Escalando o segundo escalão
O capítulo desce um nível na hierarquia e mostra como Palocci montou a equipe técnica do futuro Ministério da Fazenda. Os nomes que aparecem — Levy, Lisboa, Canuto — representavam o que havia de mais próximo de um consenso entre economistas ortodoxos dispostos a trabalhar com o PT.
O processo de recrutamento é descrito como delicado. Muitos técnicos qualificados hesitavam em aceitar: tinham dúvidas sobre se o PT deixaria a equipe econômica trabalhar com autonomia real, e não queriam comprometer suas reputações profissionais associando-se a um governo que poderia dar meia-volta nas primeiras turbulências.
A frase de Palocci usada para fechar recrutamentos difíceis ficou conhecida: diante das dúvidas de um candidato sobre se o PT aceitaria as políticas necessárias, Palocci respondeu “eu também não sei, eu também não gosto, mas eu também vou fazer”. A frase captura com precisão a tensão que definiria os primeiros anos do governo Lula.
Capítulo 45 — A hora do empresário
O capítulo descreve o processo de incorporação do empresariado ao projeto de transição. Uma reunião em Araxá reúne governadores do PSDB e lideranças empresariais com representantes do PT, sinalizando que a alternância não significaria ruptura com o setor privado.
Dois nomes aparecem como centrais no recrutamento empresarial: Roberto Rodrigues, que viria a ser ministro da Agricultura, e Luiz Fernando Furlan, da Sadia, que assumiria o Ministério do Desenvolvimento. Ambos representavam o agronegócio e a indústria — setores que o PT havia tratado com desconfiança ao longo dos anos 1990.
Borges interpreta esses recrutamentos como parte da mesma lógica da Carta ao Povo Brasileiro: Lula precisava mostrar que governaria para o Brasil inteiro, não apenas para sua base sindical e popular. O capítulo mostra que essa sinalização era simultaneamente estratégica e genuína — Lula entendia que sem crescimento econômico não haveria redistribuição sustentável.
Capítulo 46 — Washington abre as portas para Lula
O capítulo narra as gestões diplomáticas que culminaram na abertura do governo americano para o presidente eleito. Rubens Barbosa, embaixador brasileiro em Washington, foi peça central nesse processo. José Dirceu viajou pessoalmente à capital americana para reuniões preparatórias.
O clímax é a ligação de George W. Bush para Lula logo após a eleição, e depois o encontro no Salão Oval. Borges mostra que o governo americano, inicialmente cauteloso, havia sido convencido de que Lula representava uma esquerda moderada e democrática — não uma ameaça ao alinhamento estratégico brasileiro.
O capítulo também revela os bastidores da preparação para a visita. A equipe de Lula ensaiou respostas sobre Venezuela, Cuba e política econômica. O objetivo era evitar qualquer declaração que pudesse ser interpretada como ambiguidade diante dos aliados americanos ou como concessão excessiva diante da base petista.
Capítulo 47 — O Banco Central de Lula
O capítulo narra a decisão final sobre a presidência do Banco Central, tomada em 4 de dezembro com uma ligação telefônica de madrugada. Após o veto político a Arminio Fraga, Palocci havia convergido para Henrique Meirelles — então presidente mundial do BankBoston, em Washington.
A ligação foi feita à meia-noite no horário de Brasília, quando ainda era noite em Washington. Palocci fez o convite diretamente. Meirelles pediu uma noite para pensar. Na manhã seguinte, aceitou.
Borges detalha o que tornava Meirelles atraente para Palocci: era um banqueiro sem militância partidária conhecida, o que facilitava a aceitação pelo mercado financeiro; mas também era um homem que havia sido eleito deputado federal pelo PSDB em 2002, o que tornava sua nomeação politicamente legível. O capítulo termina com a imagem de Palocci tendo resolvido o maior problema da transição econômica — mas ainda faltando convencer o PT.
Capítulo 48 — A captura do tucano
O capítulo descreve o processo de confirmação pública de Meirelles. O título, “captura do tucano”, reflete a ironia de um governo petista nomear um deputado eleito pelo PSDB para presidir o Banco Central. O anúncio foi feito em 12 de dezembro e gerou reações mistas.
Fernando Henrique Cardoso, consultado por Meirelles antes da aceitação, teria dito a ele que saísse do PSDB se fosse assumir o cargo — não por lealdade ao partido, mas para não criar uma situação híbrida que pudesse constrangê-lo depois. Meirelles fez exatamente isso.
A audiência de confirmação no Senado foi tensa. Senadores do PT questionaram sua visão de mundo e suas conexões com o sistema financeiro internacional. Meirelles respondeu com calma e saiu confirmado. Borges usa a cena para mostrar que a legitimação do Banco Central independente no governo Lula não foi dada de antemão: foi conquistada numa audiência parlamentar em que o próprio partido do presidente votava contra seu escolhido.
Capítulo 49 — Horst, o amigo alemão de Lula
O capítulo reconstrói as conversas entre Lula e Horst Köhler, então diretor-gerente do FMI. O primeiro encontro foi em 7 de dezembro, em Brasília. O segundo, mais longo e mais pessoal, aconteceu em 28 de janeiro em Paris, à margem de uma conferência.
O que torna o capítulo memorável é a descrição da estratégia de Lula na reunião de Paris. Em vez de apresentar argumentos técnicos ou negociar condições, Lula contou sua própria história: a infância no Nordeste, o trabalho infantil, a migração para São Paulo, o sindicalismo. Köhler, filho de refugiados alemães do pós-guerra, reagiu com emoção visível — o autor sugere que chegou às lágrimas.
Borges interpreta a cena como reveladora de um talento específico de Lula: a capacidade de transformar sua biografia em argumento político. A conversa com Köhler não foi uma negociação — foi uma transferência de confiança pessoal que facilitou o relacionamento institucional entre o Brasil e o FMI nos meses críticos da transição.
Capítulo 50 — Palocci em dois tons e a pedra de João Cabral de Melo Neto
O capítulo examina a dupla voz de Antonio Palocci durante a transição. Em 27 de dezembro, Palocci fez um discurso duramente crítico ao estado das finanças públicas — falando em herança pesada, dívidas escondidas, desequilíbrios acumulados. Era o tom da “herança maldita”.
Em 2 de janeiro, o mesmo Palocci fez um discurso completamente diferente: conciliatório, voltado para a construção de pontes com o mercado e com os técnicos do governo anterior. O contraste entre os dois discursos em menos de uma semana revelava a tensão entre as duas audiências que Palocci precisava servir simultaneamente — a base petista e o sistema financeiro.
O título alude a João Cabral de Melo Neto porque a pedra — símbolo de resistência, dureza, precisão — é a imagem que o autor usa para descrever o estilo de Palocci: sem ornamento, sem concessão retórica, mas capaz de dizer coisas opostas conforme o interlocutor exigisse. O capítulo fecha o ciclo da transição e prepara a entrada no primeiro ano do governo.
Capítulo 51 — A herança maldita
O capítulo se abre voltando a 10 de outubro de 2002, quando Fernando Henrique Cardoso, a poucas semanas da vitória de Lula no segundo turno, editou um decreto determinando que os ministérios reunissem as informações de que a administração seguinte precisaria. Esse material foi organizado num volume de 276 páginas conhecido como o “livro branco” da transição, intitulado Transição e Democracia.
João Borges sublinha o caráter inédito da iniciativa. O Brasil não tinha tradição de um presidente em exercício preparar de maneira transparente a chegada de um sucessor da oposição. FHC tinha razões pessoais para se importar com isso: quando assumiu o Ministério da Fazenda, em 1993, encontrou pouquíssima memória institucional organizada à sua espera.
O autor também mostra o quanto a transição tinha peso simbólico. Seria a primeira vez, em quarenta e dois anos, que um presidente brasileiro eleito passaria a faixa presidencial a outro presidente eleito, numa alternância real de poder, do governo para a oposição.
Pedro Parente foi encarregado do trabalho, concentrando sua pesquisa nos Estados Unidos. Um dos principais empréstimos foi a chamada “Agenda 100”, um catálogo de todos os atos, prazos, obrigações e decisões esperados nos cem primeiros dias do novo governo. Uma área de 800 metros quadrados num centro de treinamento do Banco do Brasil foi reservada para a comissão de transição. Lula escolheu Antonio Palocci para chefiar seu lado; o governo FHC foi representado por Pedro Parente.
No plano humano, o ambiente inicial foi cordial. José Dirceu, que se tornaria ministro-chefe da Casa Civil, lembraria depois de uma afinidade imediata com Parente. Após longos dias de trabalho, os dois às vezes iam juntos ouvir música no Clube do Choro, em Brasília.
Essa cordialidade não durou. As tensões vieram à tona antes mesmo da posse, quando Lula e Palocci criticaram duramente a situação que estavam herdando. Foi então que entrou no vocabulário político a expressão “herança maldita”, dita primeiro por José Dirceu e depois repetida por Lula e outras lideranças partidárias ao longo dos anos. Borges trata a expressão como algo mais do que um slogan: ela virou o dispositivo narrativo por meio do qual o PT apresentaria os êxitos posteriores de Lula como obra construída sobre os escombros da administração anterior.
Capítulo 52 — Tudo igual, tudo diferente
O capítulo se abre com uma cena enganadoramente corriqueira: a primeira reunião da Câmara de Política Econômica do governo Lula depois da transferência de poder. A sala é a mesma usada no governo Fernando Henrique Cardoso, e boa parte dos ritos institucionais permanece de pé. Ainda assim, o ambiente mudou por completo.
Henrique Meirelles, recém-escolhido para comandar o Banco Central, sequer comparece à reunião. Em vez disso, orienta os diretores herdados do governo anterior a ficar quietos, sentar discretamente e evitar se expor. Sob Fernando Henrique, a Câmara funcionava como um fórum relativamente informal. Sob Lula, José Dirceu domina claramente a sala, parlamentares participam do encontro, e a antiga sensação de debate técnico protegido parece ter desaparecido.
O centro emocional do capítulo está na descrição de desorientação feita por Ilan Goldfajn. Ele olha em volta e vê as mesmas cadeiras ocupadas por pessoas completamente diferentes, cada uma carregando outra visão de mundo. A continuidade do Estado é visível, mas a ruptura também.
A primeira grande tensão de política econômica diz respeito aos juros. Numa ironia marcante, Guido Mantega, que mais tarde simbolizaria uma linha expansionista, sugere inicialmente um superávit ainda maior que o cogitado.
Os diretores do Banco Central também são lembrados de que continuam ideologicamente sob suspeita. Um deputado do PT, sem perceber que eles estão na sala, diz que deveriam ser demitidos porque servem ao sistema financeiro, não ao novo governo. José Dirceu, inesperadamente, o interrompe e sai em defesa deles.
O título do capítulo resume seu argumento inteiro. Tudo é igual no sentido de que instituições, formatos de reunião e restrições macroeconômicas permanecem em vigor. Tudo é diferente porque mudaram as pessoas, as relações de poder e a temperatura emocional. O novo governo começa não com uma ruptura limpa, mas com uma convivência tensa entre a ortodoxia herdada e identidades políticas que passaram anos combatendo justamente essa ortodoxia.
Capítulo 53 — Pressão na largada
O capítulo começa quase em tom de comédia, com Joaquim Levy num cruzeiro em família depois de aceitar o convite de Palocci para integrar o governo Lula. A comédia termina no instante em que uma mensagem urgente o alcança a bordo. Ele é chamado de volta a Brasília antes mesmo de a nova administração se acomodar.
Rosinha Garotinho, recém-eleita governadora do Rio de Janeiro, busca na Justiça impedir que o governo federal bloqueasse receitas estaduais porque o estado não havia honrado sua dívida com a União. Não se trata apenas de uma disputa jurídica. É um teste precoce sobre se Lula cumprirá os compromissos assumidos na Carta ao Povo Brasileiro. O novo presidente fica preso entre dois imperativos: preservar alianças ou preservar credibilidade.
O autor aprofunda o peso do problema ao relembrar o trauma de 1999, quando a moratória de Itamar Franco em Minas Gerais ajudou a intensificar a crise em torno da desvalorização do real. A solução de Levy é deslocar o conflito para o Judiciário e manter o tom contido. O primeiro resultado judicial é desfavorável, mas a equipe jurídica da União recorre, e o governo acaba vencendo.
Levy também oferece ao capítulo um de seus códigos morais mais nítidos. Ele diz que operava segundo um princípio de lealdade composto de três elementos: não trabalhar contra o governo, dizer sempre a verdade e não permitir que decisões erradas fossem tomadas. A formulação define lealdade não como obediência, mas como franqueza disciplinada dentro de uma coalizão cheia de diferenças ideológicas.
Capítulo 54 — Juros e desaforos
Este capítulo examina a relação de Lula com a política econômica por meio de sua volatilidade. Ele é capaz de sustentar a linha dura quando se sente encurralado, mas nunca deixa de ressentir-se dela.
Num primeiro momento, Lula acredita que o pior logo ficará para trás. Em junho de 2003 vai a São Bernardo do Campo e prevê que o Brasil está prestes a viver um “espetáculo de crescimento”. O problema é que a economia não obedece à teatralidade política.
A cena mais vívida do capítulo surge quando Gilberto Carvalho ouve Lula explodindo contra Palocci. O presidente diz que já fez tudo o que Palocci e Meirelles lhe pediram e, ainda assim, não vê o crescimento chegar. Lula sente que pagou o custo político da ortodoxia sem receber, em troca, a recompensa social que esperava.
Na véspera da reunião do Copom de janeiro, Lula tenta estabelecer contato direto com o Banco Central antes da decisão sobre os juros. Ilan Goldfajn barra o movimento. A pressão aumenta antes da reunião de fevereiro — durante o próprio Copom, Meirelles recebe um telefonema transmitindo a ansiedade de Lula.
Os diretores reagem preparando-se para o pior. Num almoço sem Meirelles, discutem a possibilidade de renúncia caso a interferência política impeça uma alta de juros que consideram necessária. O maior mérito do capítulo é definir Lula nem como um populista simples nem como um estadista ortodoxo convertido. Ele aparece como um líder capaz de tolerar austeridade quando não vê alternativa, mas incapaz de internalizar sua lógica.
Capítulo 55 — O vinho sem rótulo de Antonio Palocci
A primeira intervenção pública de Pedro Malan depois de deixar o governo fornece o ponto de partida do capítulo. Escrevendo em junho de 2003, ele afirma que o Brasil demonstrou maturidade política incomum nos doze meses anteriores. O juízo de Malan pesa justamente por vir do ex-ministro da Fazenda do adversário derrotado.
O texto de Malan é generoso, mas não ingênuo. Ele elogia o governo Lula por serenidade, pragmatismo e visão, mas também adverte contra a tentação de tratar essa primeira fase como um “Plano A” temporário antes do “verdadeiro” governo Lula começar.
O capítulo ganha profundidade ao mostrar que Malan não comenta apenas de longe — durante sua quarentena, ele aconselha Palocci silenciosamente, assim como Arminio Fraga faz. O elogio é em parte o elogio de alguém que sabe quão intensas são as pressões internas.
A cooperação escondida assume forma social nos famosos jantares na casa de Palocci. Lula sabe deles e os incentiva, mas eles ficam fora da agenda oficial. Os jantares criam um canal privado no qual governo e oposição podem discutir estratégia, legislação e o estado da economia sem hostilidade performática. O vinho sem rótulo — que se revelaria um Sassicaia servido em decanter para que a garrafa não aparecesse — vira um símbolo perfeito do próprio Palocci: polido, discreto e sempre escondendo tanto quanto revela.
O capítulo termina sob uma sombra. A antiga irritação de Lula com os juros altos retorna, e a ala desenvolvimentista do PT está cada vez mais inquieta. A garrafa sem rótulo funciona como metáfora da fragilidade: a aliança existe, mas não pode ser exibida abertamente sem provocar reação.
Capítulo 56 — Um prêmio para dois
Este capítulo é construído em torno de uma cerimônia que pode parecer meramente protocolar: um prêmio internacional concedido conjuntamente a Fernando Henrique Cardoso e Lula pela qualidade da transição presidencial brasileira. O prêmio da Universidade de Notre Dame é apresentado como reconhecimento de espírito público acima do combate partidário.
O discurso de Fernando Henrique é contido e elegante. Lula responde em outro registro: informal, improvisado, politicamente instintivo. Diz que a transição mostrou ao mundo que a democracia brasileira era madura o bastante para separar disputa política intensa de destruição pessoal. Também nomeia figuras dos dois lados que fizeram a passagem funcionar.
O que torna o capítulo mais que uma celebração simples é a distância entre o calor daquele momento e o que vem depois. Fernando Henrique recorda uma conversa cordial antes da cerimônia, na qual Lula lhe diz que o convidará para um café no Alvorada. Há também um acordo para que cada um doe o valor do prêmio a uma causa associada ao outro. Nenhuma das promessas é cumprida.
O autor sugere que a transição foi exemplar porque ambos os lados compreenderam a gravidade do momento imediato, não porque se tivesse construído uma confiança mais profunda entre eles. O texto insinua que o Brasil conseguiu evitar a ruptura, mas falhou em converter esse êxito numa cultura duradoura de reconhecimento mútuo.
Anos depois, outro prêmio de Notre Dame seria entregue a Sergio Moro, então celebrado internacionalmente como símbolo de integridade no combate à corrupção — e Moro condenaria Lula no caso do triplex do Guarujá. O capítulo transforma a cerimônia de 2004 numa espécie de momento democrático perdido.
Capítulo 57 — O desembarque na hora errada
A chegada de Murilo Portugal vindo de Washington é uma dessas cenas em que o tempo privado colide com a crise nacional. Ele volta ao Brasil esperando reforçar a posição de Palocci no Ministério da Fazenda, apenas para encontrar, antes mesmo de sair do aeroporto, a capa de revista que expõe a corrupção nos Correios.
Então Roberto Jefferson detona o mensalão. O capítulo reconstrói com cuidado como o escândalo dos Correios se transforma numa acusação mais ampla de que o governo compra apoio parlamentar com pagamentos mensais. A habilidade de Jefferson está em defender-se escalando o dano e, ao mesmo tempo, poupar Lula enquanto concentra fogo em Dirceu.
A queda de José Dirceu é a consequência política imediata. Ele deixa a Casa Civil com um discurso que mistura autodefesa, convicção ideológica e lealdade ao governo. Paradoxalmente, o colapso de Dirceu parece inicialmente favorecer Palocci. Mas Lula escolhe de outra forma: em vez de um moderado petista experiente, nomeia Dilma Rousseff para a Casa Civil.
O capítulo usa essa reflexão para sublinhar o controle de Lula sobre as nomeações: ele gosta de colaboradores fortes, mas nunca esquece que a fonte final da autoridade política é ele próprio. O sentido mais amplo é que escândalo de corrupção não apenas destrói poder; ele o redistribui. Dirceu cai. Palocci parece subir, mas Dilma entra num papel mais central — e as consequências de longo prazo só serão visíveis mais tarde.
Capítulo 58 — A fraqueza do homem forte
No centro deste capítulo está uma ambição tecnocrática de escala incomum: eliminar, em dez anos, o déficit nominal do setor público. Palocci e os economistas ao seu redor veem o momento como histórico. O projeto não é sobre simbolismo de curto prazo — é sobre alterar estruturalmente a relação do país com juros, dívida e crescimento.
Palocci não está sozinho nessa empreitada. Paulo Bernardo apoia o plano a partir do Ministério do Planejamento, Delfim Netto o respalda de fora, e economistas como Paulo Levy e Fabio Giambiagi também trabalham em versões da ideia. Mesmo Lula, de início, autoriza Palocci a desenvolvê-la.
O perigo chega com as acusações de Roberto Jefferson no escândalo do mensalão. O capítulo capta vividamente esse timing ao mostrar economistas chegando a Brasília prontos para discutir a estratégia de dívida, apenas para perceber que o governo está sendo devorado pelo escândalo.
O título aponta para a conclusão decisiva. O “homem forte” é Lula, e sua fraqueza não é falta de poder. É sua dificuldade crescente de privilegiar a estratégia de longo prazo diante da necessidade política imediata. A virada ocorre quando Dilma ataca publicamente o plano de ajuste de longo prazo, chamando-o de tosco e equivocado. Palocci entende imediatamente que ela não poderia ter falado daquele jeito sem autorização de Lula. Essa é a traição decisiva — não pessoal em sentido melodramático, mas estratégica. Lula está escolhendo um novo caminho político e usa Dilma para anunciá-lo.
Capítulo 59 — Palocci, o candidato de Lula
O capítulo começa no instante em que Palocci deixa o Ministério da Fazenda, em março de 2006, e Guido Mantega assume seu lugar. Lula está visivelmente emocionado. Palocci não é apenas mais um ministro — é o médico improvável que ajudou a conduzir Lula da moderação de campanha à credibilidade econômica.
A queda em si está ligada ao caso Francenildo. Um caseiro diz ao Congresso que o ministro frequentava um imóvel ligado ao seu grupo. A posterior quebra ilegal do sigilo bancário da testemunha torna-se o ponto de inflexão. O capítulo é especialmente incisivo ao mostrar por que esse escândalo é tão destrutivo para o PT: Francenildo é pobre, obscuro e socialmente vulnerável. A decisão de escrutinar sua conta se apoia na suposição de que alguém como ele não poderia possuir legitimamente aquela quantia — preconceito de classe que soa especialmente mal num partido que se apresenta como representante dos trabalhadores.
Quando Palocci cai, encerra-se também a breve experiência de cooperação econômica suprapartidária. Os senadores tucanos que o apoiavam se recolhem. O capítulo apresenta isso como o fechamento de um caminho possível no qual as duas principais forças políticas do país poderiam ter convergido em torno de uma base macroeconômica compartilhada.
O capítulo abre ainda um contrafactual fascinante: em 2005, Lula diz a Palocci que, se não puder concorrer, o candidato terá de ser Palocci ou Ciro Gomes. Palocci recusa de imediato. Mantega promete continuidade, mas sinaliza outro estilo — mais pressão por juros menores, mais interação com a autoridade monetária e compromisso mais explícito com crescimento via ativismo estatal. Palocci sai como ministro bem-sucedido e, ao mesmo tempo, como ponte fracassada para um futuro alternativo.
Capítulo 60 — O jantar esfriou
Henrique Meirelles é o protagonista aqui, mas o verdadeiro tema é a relação mutável de Lula com ele ao longo do tempo. Em 2009, Meirelles volta à política partidária pelo PMDB e sonha com um lugar na chapa de 2010. O capítulo recua a 2005 e 2007 para mostrar por que Meirelles sempre foi vulnerável: Lula jamais concedeu ao Banco Central a autonomia legal prometida no início do primeiro mandato, o que significava que Meirelles era protegido pela necessidade, não pelo desenho institucional.
Em 2005, Lula diz abertamente a Meirelles que os juros altos podem custar ao governo a próxima eleição. Em janeiro de 2007, depois do lançamento do PAC, Lula liga diretamente para Meirelles antes do Copom e diz que o Brasil precisa crescer 5%, não 3%. A fúria de Lula é encenada quase fisicamente — por dois meses, os dois mal se falam.
Em 2008, Lula acha que chegou a hora de se livrar de Meirelles. A cena que dá título ao capítulo nasce do pedido estranho de Lula para ser convidado a jantar na casa de Meirelles. A segurança ocupa a residência, a refeição é preparada, os anfitriões esperam, e Lula nunca aparece. O jantar literalmente esfria — o episódio é engraçado, mesquinho e psicologicamente rico ao mesmo tempo.
O que salva Meirelles afinal é a conquista do grau de investimento pela Standard & Poor’s. Lula recua imediatamente da demissão. Em seguida, vem o colapso do Lehman Brothers, e Meirelles se torna peça crucial para atravessar o choque global. A lição do capítulo é simples: Lula repetidas vezes quis tirar Meirelles, mas a história continuou premiando os momentos em que resistiu a esse impulso.
Capítulo 61 — “Presidente, vamos contratar uma psicóloga”
O capítulo se abre em clima de triunfo. Lula está encerrando o segundo mandato com popularidade extraordinária, e Dilma Rousseff, a mulher que ele escolheu pessoalmente, está prestes a se tornar a primeira presidente do Brasil. O autor, porém, toma cuidado para não reduzi-la ao clichê de mera preposta.
A famosa piada de Gilberto Carvalho sobre contratar uma psicóloga porque Dilma é louca dá ao capítulo seu título. A frase é humorística, mas o livro a utiliza para marcar uma percepção recorrente entre os que conviviam com ela: Dilma é brilhante, enérgica e capaz de impulsos abruptos, desestabilizadores.
Uma cena reveladora surge já no governo, quando Dilma decide que quer romper com Michel Temer e com o PMDB. Palocci, alarmado, telefona para Lula e pede que acalme a presidente. O episódio mostra por que Lula havia colocado Palocci no Planalto como força moderadora — conhecia o temperamento de Dilma e temia exatamente esse tipo de movimento brusco.
A realidade começa a divergir do plano em 2011. À medida que caem ministros associados a Lula, Dilma transforma a limpeza ministerial em estilo de governo, cultivando a imagem de presidente disposta a faxinar e a decidir sozinha. A doença de Lula acelera esse afastamento.
As páginas finais são sombrias. Dilma vence a reeleição, em parte porque Lula afinal faz campanha por ela, mas não há alegria na vitória. Quando Belluzzo lhe pergunta por que escolheu Dilma, Lula responde com simplicidade brutal: porque, quando era sua ministra, ela fazia tudo o que ele mandava. A implicação é devastadora — ela deixou de fazê-lo ao se tornar presidente, e todo o desenho sucessório começou a ruir.
Capítulo 62 — Elogio, ciúme e intriga
Este capítulo acompanha a relação triangular entre Dilma Rousseff, Lula e Fernando Henrique Cardoso depois que Dilma assume a Presidência. Num primeiro momento, Dilma parece disposta a estabelecer com Fernando Henrique o tipo de convivência civil que Lula jamais construiu de fato ao longo de seus oito anos no poder.
Os primeiros gestos são calorosos e públicos. Dilma convida Fernando Henrique para o almoço de Barack Obama no Itamaraty, ao lado de outros ex-presidentes. Lula, de forma conspícua, falta. A ausência se torna o primeiro sinal forte de que os gestos de Dilma em direção a Fernando Henrique também podem ser lidos como afirmação silenciosa de autonomia diante de Lula.
O calor atinge seu pico quando Fernando Henrique completa oitenta anos. Dilma lhe envia uma carta afetuosa, elogiando o acadêmico, o arquiteto da estabilização e o democrata comprometido com o diálogo. Fernando Henrique se comove, mas imediatamente contrasta o comportamento de Dilma com o de Lula — diz que Lula deve ter alguma dificuldade psicológica de lhe fazer gestos desse tipo.
Então entra a intriga. Não é Dilma quem redige sozinha a carta, mas Palocci, junto com Thomas Traumann. O detalhe não é lateral — mostra como gestos de conciliação muitas vezes são produzidos por operadores de bastidor cuja posição no jogo de poder é instável.
A relação não resiste a um teste político mais consequente. Em 2012, Fernando Henrique publica um artigo dizendo que Dilma herdou um legado pesado de Lula. O efeito pretendido talvez fosse separar Dilma de Lula. O efeito real é forçá-la a escolher — e ela escolhe Lula de maneira decisiva, contrapondo à herança do FMI um “legado bendito”.
O título do capítulo se resolve por inteiro: elogio descreve os gestos iniciais de Dilma; ciúme descreve o desconforto de Lula com esses gestos e o ressentimento de Fernando Henrique; intriga descreve a autoria oculta e as alianças móveis que estruturam todo o episódio.
Capítulo 63 — Ciclo encerrado
Este capítulo final começa não com Lula nem com FHC, mas com uma cena de 2 de fevereiro de 2017, na Câmara dos Deputados. A eleição para a presidência da Casa ocorreu sob condições políticas extraordinárias. Dilma Rousseff já havia sido derrubada pelo impeachment, Michel Temer herdara a Presidência, e Brasília estava tomada por especulações de que o próprio Temer também poderia cair.
O resultado da disputa condensou as premissas dessa velha ordem. Rodrigo Maia venceu com folga, obtendo 293 votos. Jair Bolsonaro, apesar de anos de Câmara, terminou em último lugar, com apenas quatro votos, menos até do que os votos em branco. Borges enfatiza o quanto Bolsonaro ainda parecia pequeno para a elite de Brasília — um deputado barulhento e folclórico, não como figura nacional séria.
A partir daí, o capítulo recua para a chegada de Dilma ao poder, em 2011. O Datafolha registrou, em março de 2011, 47% de avaliação “ótimo” ou “bom”. As manifestações de junho de 2013 mudaram o ambiente, e a aprovação positiva de Dilma despencou para 30%. O segundo mandato é apresentado como uma descida contínua: em agosto de 2015, a aprovação caíra para 8%, enquanto a avaliação negativa subira a 71%, pior do que a de Fernando Collor no auge do impeachment.
O impeachment, nessa leitura, não foi o começo da crise — foi o desfecho institucional de uma autoridade que já havia implodido na esfera pública. Depois que Dilma foi afastada em 2016 e definitivamente cassada em agosto, a coalizão que se unira para derrubá-la virou a base de sustentação de Michel Temer. A ironia é áspera: a força política que derrubara Dilma em nome da responsabilidade logo se viu submersa na sua própria crise de legitimidade — a gravação de Joesley Batista, a crise de maio de 2017, Cunha preso em Curitiba por Sergio Moro.
Em junho de 2018, o Datafolha registrava para Temer apenas 3% de aprovação positiva e 82% de rejeição. Lula também estava fora do jogo institucional, preso em abril de 2018 no caso do triplex. Entre um incumbente desmoralizado, um ex-presidente encarcerado e um sistema partidário em frangalhos, abria-se o terreno para uma candidatura de tipo outsider.
O resultado de 2018 não foi apenas a vitória de Bolsonaro sobre Fernando Haddad. Foi o esgotamento do eixo PT-PSDB que estruturara a política presidencial brasileira desde 1994. Bolsonaro capturou os votos do desencanto muito à maneira de Collor em 1989: oferecendo velhos instintos políticos fantasiados de novidade antissistema. O PSDB implodiu de forma ainda mais dramática — Geraldo Alckmin obteve apenas 4,76% dos votos. Os dois polos que haviam organizado a era democrática já não eram capazes de monopolizar esperança, medo ou indignação.
A conclusão de Borges é brutal e simples: em 2018, o ciclo político inaugurado pela alternância PT-PSDB havia terminado. Bolsonaro não surgiu do nada; surgiu dos escombros.
Ver também
singer_sentidos_do_lulismo_resumo — análise sociológica do lulismo como fenômeno eleitoral e identitário; complementa a narrativa de bastidores do livro com estrutura de classe e reconhecimento popular.
abranches_presidencialismo_coalizao_resumo — o presidencialismo de coalizão como moldura institucional de toda a narrativa: governabilidade, barganha orçamentária e os limites do tripé macroeconômico.
partidos_novarepublica — mapa dos partidos da Nova República; contextualiza a polaridade PT-PSDB e o colapso do sistema em 2018 descrito no capítulo final.
limongi_operacao_impeachment_resumo — análise institucional do impeachment de Dilma; leitura paralela ao capítulo “Ciclo encerrado”, com ênfase nas condições parlamentares que tornaram o afastamento possível.
barros_pt_uma_historia_resumo — história do PT desde a fundação; pano de fundo essencial para entender as tensões internas entre ruptura e moderação descritas ao longo do livro.
Thymos e os Ciclos Partidários Brasileiros — Reconhecimento, Pertencimento e Identidade Nacional na República — leitura dos ciclos políticos brasileiros pela chave do reconhecimento e do thymos; conecta a moderação de Lula em 2002 e a ascensão de Bolsonaro em 2018 a uma narrativa mais profunda de pertencimento e humilhação coletiva.