A Plataforma Se Chamava Rousseau — Decisão Sem Autoria
Em 8 de setembro de 2013, no Forum Ambrosetti de Cernobbio, Gianroberto Casaleggio — consultor de empresas que se tornaria o arquiteto do maior partido da Itália — citou no mesmo parágrafo Rousseau e Thomas Jefferson como as origens da democracia direta que a internet realizaria. Este ensaio abre aquele parágrafo cláusula por cláusula e reconstrói, a partir do que ele assinou (sete livros, os vídeos Prometeus e Gaia, a entrevista de 2013 a Serena Danna, o próprio discurso), de onde vinha de fato a doutrina que produziu a plataforma Rousseau.
Importa a este vault por três razões. É um estudo de caso de reintermediação: um homem que pregava a eliminação de toda estrutura intermediária construiu, no mesmo movimento, uma associação privada que possuía a plataforma, cobrava 300 euros mensais de cada parlamentar e detinha o cadastro dos filiados — e só o entregou por ordem do Estado. É um contraponto à ideologia californiana: o vocabulário antiparlamentar italiano não veio do Vale do Silício, veio de 1944, do Uomo Qualunque de Guglielmo Giannini, e a rede chegou como o instrumento que faltava. E é um exercício de método sobre atribuição — as duas frases mais citadas do dossiê Casaleggio saem do mesmo artigo de 2018 e nenhuma das duas é dele.
A tese é que Casaleggio quis instituições de decisão sem instituições de autoria. A “citação” de Rousseau em Cernobbio é uma compressão de três passagens do Livro III do Contrato Social, com um acréscimo que é vocabulário do século XX; a de Jefferson é real pela metade, e guarda a única frase jeffersoniana que soa rousseauniana, descartando representação, separação de poderes e constituição escrita. A máquina confirma a doutrina: o Garante italiano multou a Associazione Rousseau em 50 mil euros registrando que a plataforma «non gode delle proprietà richieste a un sistema di e-voting»; foram 232 votações entre 2012 e 2019, sem quórum, com uma base habilitada equivalente a cerca de 1% do eleitorado do partido, sobre perguntas redigidas pela direção — e, no caso das expulsões, o verbo oficial era ratificar. Deseriis chamou isso de “direct parliamentarianism”: escolher entre opções definidas noutro lugar.
Villa d’Este, Cernobbio, na margem oeste do lago de Como, 8 de setembro de 2013. É a 39ª edição do Forum Ambrosetti, o encontro anual em que a elite econômica italiana passa um fim de semana ouvindo a si mesma. Enrico Letta, primeiro-ministro havia cinco meses, falaria pouco depois. Mario Monti, que o antecedera no cargo, e Renato Brunetta, líder parlamentar do centro-direita, estavam na sala. Sobe ao palco, antes deles, um homem de 59 anos que quase nunca falava em público — rilasciava pochissime dichiarazioni ai giornalisti ed evitava i fotografi, diria dele o obituário do Il Sole 24 Ore três anos depois. Atrás dele, projetado, o Partenon. Ao chegar, avisa a que veio: «Sono qui per spiegare le idee del movimento e per spiegare l’evoluzione delle reti e della politica.»
Em algum momento do discurso — que o blog de Beppe Grillo publicaria por escrito cinco dias depois, assinado com o nome dele —, ele diz isto:
«La democrazia diretta e Internet sembrano compiere la stessa traiettoria, ma non è una traiettoria che nasce con Internet, nasce da molto lontano. Rousseau nel Contratto sociale disse: “nel momento in cui i cittadini permettono di essere rappresentati essi perdono la loro libertà, così ogni legge non ratificata dal popolo è invalida, i rappresentanti si trasformano in una oligarchia e i cittadini diventano sempre più alienati.” Thomas Jefferson, uno dei padri della democrazia americana disse: “la volontà popolare è l’unica legittima fonte di ogni governo, anche un governo popolare, non efficiente, è preferibile al miglior governo autocratico”.»
O nome dele era Gianroberto Casaleggio.
O que existe, assinado por ele
Comecemos pela etiqueta, porque este é um ensaio sobre atribuição e não pode dispensar-se do próprio método.
O corpus publicado de Gianroberto Casaleggio são sete livros, e a lista completa é mais reveladora do que a de quatro títulos que costuma circular no jornalismo. O primeiro é Movie Bullets. Cinema e management, do Il Sole 24 Ore, 1998: gestão empresarial lida pelo cinema. Vêm depois Il Web è morto, viva il Web (Pro Sources, 2001), WebDixit (2003) e Web ergo sum (Sperling & Kupfer, 2004). O primeiro título político é de novembro de 2011 — Siamo in guerra. Per una nuova politica, com Beppe Grillo, pela Chiarelettere, sob o subtítulo la Rete contro i partiti; em 2013 sai Il Grillo canta sempre al tramonto, com Grillo e com o Nobel Dario Fo; e o último assinado só por ele, Veni, vidi, web, é de novembro de 2015, cinco meses antes da morte, com introdução de Fedez, rapper. O Dizionario Biografico degli Italiani registra ainda Insultatemi! (2013) e Aforismi (2016), sem ficha de catálogo localizada — fonte única, não item confirmado.
Treze anos separam o livro sobre cinema e management do primeiro livro sobre política. A origem do personagem é consultoria de empresa, não militância digital.
O segundo título é o que gerou tudo o mais, e não é mistério bibliográfico nenhum: está na Treccani, tem ISBN e tem prefácio de Renato Mannheimer, o mais conhecido pesquisador de opinião pública da Itália. Some das listas jornalísticas porque elas costumam começar em WebDixit. O próprio Casaleggio contou o episódio ao Corriere.it em 30 de maio de 2012, em primeira pessoa:
«Ho scritto molti articoli e alcuni libri sulla Rete. Nel 2004 Beppe Grillo ne lesse uno: “Il Web è morto, viva il Web”, rintracciò il mio cellulare e mi chiamò. Lo incontrai alla fine di un suo spettacolo a Livorno e condividemmo gran parte delle idee.»
Um comediante leu um livro sobre a internet, achou o celular do autor e o procurou no fim de um espetáculo em Livorno. Segundo o obituário do Il Sole 24 Ore, assinado por Biagio Simonetta em 12 de abril de 2016 — e aqui a citação é de jornalista narrando, não de documento —, a proposta que Casaleggio fez naquela noite foi: «Facciamo il tuo blog. Sarà il più letto d’Europa.»
E a tese do livro de 2001, na leitura que o prefácio de Mannheimer lhe dá, não é constitucional: é de reengenharia de processo. A web não seria mais um canal a acrescentar aos outros; «il web è la nuova azienda», a web é a nova empresa. A formulação chega aqui por via partidária, num texto do Blog delle Stelle de 2021, e vale o que vale. Mas fixa uma data: em 2001, a desintermediação que ele prega é um problema de organização de empresa, não um programa sobre a Constituição italiana.
A Olivetti, que na lenda explica tudo, explica pouco. A cronologia é a que a própria Casaleggio Associati publica no site — o cenário mais favorável a ele: começou como progettista di software nel dipartimento Ricerca e Sviluppo della Olivetti di Ivrea nell’area sistemi operativi, projetista de software em pesquisa e desenvolvimento. Foi o primeiro emprego, num cargo técnico, em algum ponto entre meados dos anos 1970 e 1985 — os anos exatos não existem em fonte nenhuma. Adriano Olivetti, o industrial que fez daquela fábrica um projeto de comunidade, morrera em 1960. Casaleggio tinha cinco anos. Ele nunca trabalhou na Olivetti de Adriano; trabalhou na dos anos 1970 e 1980, outra empresa, em declínio. O bloco mais longo da carreira dele é outro, e ninguém o conta: catorze anos na Logicasiel, de 1985 a 1999, como diretor-geral e depois administrador delegado. Só então vem a Webegg, de 2000 a 2003, com participação da Telecom Italia e da Olivetti — de onde ele saiu removido pelos acionistas, depois de prejuízos da ordem de 18 milhões de euros acumulados em 2001 e 2002, dos quais 15,9 milhões só em 2002. Em 2004 fundou a Casaleggio Associati com quatro ex-funcionários da Webegg e o filho, Davide.
Quanto à filiação olivettiana, é preciso dizer o que se procurou e não se achou. Não existe declaração de Gianroberto Casaleggio reivindicando para si a herança de Adriano Olivetti — ele não a invoca na entrevista de 2013 que este ensaio vai usar à exaustão, nem em Cernobbio. O que existe é um endereço: a Associazione Gianroberto Casaleggio e o seu encontro anual, o SUM, realizam-se nas Officine H de Ivrea, o antigo complexo da Olivetti, e essa escolha é póstuma e é do filho. A filiação foi encenada num endereço, não escrita numa página.
Falta o limite, e ele vai aqui, no corpo, não em nota. Nenhum dos sete livros foi lido na íntegra, em nenhuma língua. Parte do que se citará deles chega por Simone Natale e Andrea Ballatore, dois pesquisadores de mídia autores do estudo de 2014 mais citado sobre a ideologia do movimento — e chega em tradução inglesa, o que será dito toda vez que for o caso. E as duas fontes doutrinárias centrais deste ensaio, a entrevista de 2013 e o discurso de Cernobbio, são citadas pela republicação no blog de Grillo, não pelo original impresso nem pelo vídeo. Não há razão para supor adulteração — o texto da entrevista conserva perguntas hostis que uma edição interessada teria cortado. Mas a procedência é essa.
Sobra uma pergunta que este primeiro movimento não responde. Ivrea, software, quatorze anos de consultoria: de onde, exatamente, vem a política?
O vocabulário estava pronto desde 1944
Não vem da Califórnia. Vem de um semanário fundado em Roma em 27 de dezembro de 1944, com a guerra ainda em curso no norte do país.
Guglielmo Giannini era dramaturgo, roteirista e jornalista, e chamou o jornal de L’Uomo Qualunque — o homem qualquer, o sujeito comum. Vendeu 80 mil cópias em dois dias. No outono de 1945 tirava 850 mil. Sob o cabeçalho vinha o lema, e o lema era “Abbasso tutti” — abaixo todos. A vinheta do jornal mostrava uma prensa esmagando um homenzinho. O público que ele dizia servir eram os stufi di tutti, os fartos de todos, que queriam apenas que nessuno gli rompa le scatole — que ninguém os amolasse. Em 1946 o jornal virou partido, o Fronte dell’Uomo Qualunque, e na eleição para a Assembleia Constituinte de 2 de junho de 1946 tirou 1.211.956 votos: 5,3% e trinta deputados, quinta força do país, concentrado em Roma e no Mezzogiorno. Nas administrativas de novembro daquele ano foi o primeiro partido em Roma e no Sul.
A doutrina cabe numa frase, e a frase é dele. Está no verbete que Sandro Setta, autor da monografia de referência sobre o movimento, assina no Dizionario Biografico degli Italiani:
«Noi non abbiamo bisogno che d’essere amministrati: e quindi ci occorrono degli amministratori, non dei politici.»
Não precisamos senão de ser administrados; logo, precisamos de administradores, não de políticos. Giannini opunha ao “Estado ético” o que chamava de Estado administrativo: técnicos no lugar de políticos, com a ideologia declarada irrelevante e as posições em disputa qualificadas como falsas e enganosas. O alvo não era a direita nem a esquerda. Era o político profissional, e era a partidocracia que começava a se organizar. A arma era a sátira.
A morte foi rápida e veio por dentro. Em 1948, aliado aos liberais no Blocco Nazionale, o movimento caiu para 3,8% e cinco deputados; em 1949, para 0,9%. Contribuíram as divisões sobre a aliança com De Gasperi e a fuga de quadros — mas a causa que interessa a este ensaio é outra: o movimento perdeu o apelo antissistema no momento exato em que entrou no compromisso de governo.
A linha que vai daí ao Movimento 5 Estrelas não é hipótese deste ensaio. Já foi traçada, com bibliografia. Marco Tarchi, cientista político da Universidade de Florença, publicou em 2015, pela Il Mulino, um livro cujo título é literalmente a tese: Italia populista. Dal qualunquismo a Beppe Grillo — precedido, em 2003, por L’Italia populista. Dal qualunquismo ai girotondi. Tarchi trata o populismo como mentalidade, não como ideologia, o que lhe permite descrever a continuidade sem exigir filiação orgânica. Antonio Costabile assina em Meridiana n. 96, de 2019, um artigo dedicado exatamente à comparação, e levanta as analogias: falta de legitimação do sistema político, oposição às elites, geografia do voto, tipo de liderança, comunicação inovadora e, dos dois lados, a proposta de não se recandidatar ao fim do mandato. A linha é deles; este ensaio a herda — com a ressalva de que nenhum desses livros foi lido na íntegra aqui, e de que nenhuma tese deste ensaio pende de uma frase tirada de resumo.
Um detalhe fecha o circuito. O verbete “Casaleggio, Gianroberto” do Dizionario Biografico degli Italiani, publicado pela Treccani em 2020, é assinado por Marco Tarchi. O historiador que estabeleceu a linha do qualunquismo a Grillo é quem escreve a biografia canônica de Casaleggio.
Entre 1946 e 2013 há uma ponte, e ela tem duas pedras. A primeira é a palavra casta, que os italianos associam ao livro de Sergio Rizzo e Gian Antonio Stella, de maio de 2007. Só que a palavra é bem anterior: no pós-guerra, atribui-se a don Luigi Sturzo, o padre fundador do Partido Popular, nos anos 1950. Nem a casta nem o antiparlamentarismo são invenção de 2007; são reativação. A segunda pedra é o V-Day, o comício que Grillo organizou em Bolonha em 8 de setembro de 2007 para recolher assinaturas de uma lei de iniciativa popular com três pontos: fora do Parlamento os condenados, limite de dois mandatos, volta do voto de preferência. Casaleggio incorporou-o ao próprio cânone — o V-Day aparece no roteiro de Gaia, o vídeo de 2008 que a empresa dele mantém no ar, como «il più grande evento politico mai realizzato usando Internet».
Ponha as duas pontas lado a lado. Giannini quer substituir o político pelo administrador. O V-Day quer expulsar o político condenado e limitar o mandato dos que sobrarem. Nos dois casos o alvo não é o poder — é a profissionalização da mediação. E nos dois casos a saída proposta não é mais deliberação, é menos: administração em 1946, plataforma em 2016. Qualunquismo com modem.
O vocabulário antiparlamentar, portanto, já estava pronto, com meio século de uso, quando o evangelho da rede chegou à Itália. O que faltava era o instrumento.
O que ele leu, e o que lhe atribuíram
Sobre a teoria da rede de Casaleggio existe uma montanha de reportagem italiana, e ela converge para uma versão só. Vale começar pelo que ele efetivamente disse quando lhe perguntaram. A entrevista é de Serena Danna, jornalista do Corriere della Sera, publicada em La Lettura, o suplemento dominical do jornal, em junho de 2013, sob o título “La democrazia va rifondata”. Perguntada a referência teórica, a resposta é uma lista:
«Tra i testi che considero di riferimento vi sono Emergence di Steven Johnson, Six Degrees di Duncan Watts, Smart Mobs di Howard Rheingold, The Tipping Point di Malcom Gladwell, Free Culture di Lawrence Lessig e Linked di Albert-Laszlo Barabasi.»
São seis títulos: emergência, redes sociais, mobilização em rede, contágio, cultura livre e ciência de redes. Barabási é o último da lista. A doutrina declarada não é “Barabási aplicado à política”; é a divulgação científica de rede de 1999 a 2004 tomada em bloco. À parte, com deferência profética, aparece um sétimo nome: «Internet diventerà come l’aria, come profetizzò Nicholas Negroponte».
Quem não aparece também importa. Kevin Kelly, Ray Kurzweil, Marshall McLuhan e a revista Wired não aparecem em nenhuma fonte primária deste dossiê. Natale e Ballatore, no estudo de 2014, afirmam que Casaleggio era “strongly influenced by” Negroponte e Kevin Kelly e “ideologically close to” a Wired. Metade disso está confirmada por documento: Negroponte, ele nomeia. A outra metade não tem lastro nenhum, e este ensaio não a repassa. É exatamente o tipo de atribuição que ele se comprometeu a não fazer circular.
Porque a frase mais citada de todas não é dele. “Controllare i nodi significa controllare la rete” — controlar os nós significa controlar a rede — circula há anos como a síntese do pensamento de Casaleggio. Ela é de Manuela Perrone, jornalista do Il Sole 24 Ore, e apareceu em 9 de abril de 2018, numa resenha do livro de Jacopo Iacoboni, repórter de La Stampa. O parágrafo inteiro é este, e a estrutura dele é o argumento:
«Il riferimento teorico sarebbe «la teoria delle reti», nella versione del “preferential attacchment” dello scienziato ungherese Albert-László Barabási, indicato tra i suoi autori di culto da Gianroberto Casaleggio […]. In sintesi: i nodi con più connessioni tendono ad attrarne sempre di più […]. Controllare i nodi significa controllare la rete.»
Três observações, todas de método. O verbo que abre o parágrafo é sarebbe, condicional: a jornalista reporta a tese do livro que resenha, não a subscreve. A frase-eixo vem depois de um “In sintesi:”, anunciada como paráfrase explicativa. E vem sem aspas, na voz da própria jornalista. Barabási descreve; Perrone converte em imperativo. Entre uma coisa e outra há uma ponte lógica que ninguém assinou, e que desde 2018 é atribuída a um homem morto em 2016.
O que Barabási de fato sustenta é modesto e é outra coisa. O modelo que ele publicou com Réka Albert em 1999 é descritivo: redes reais adquirem topologia scale-free — livre de escala — por crescimento e por ligação preferencial, o preferential attachment, a tendência de nós já muito conectados a atrair ainda mais conexões. O resultado é o surgimento espontâneo de hubs, concentradores. Não há no modelo proposição alguma sobre controlar nós, nem sobre poder. O que a ciência de redes deriva dele é uma afirmação sobre robustez e vulnerabilidade: redes livres de escala resistem a falhas aleatórias e são frágeis a ataques dirigidos aos concentradores. É afirmação sobre fragilidade, não receita de governo. Entre “hubs emergem espontaneamente” e “portanto conquiste os hubs” vai a distância que separa uma regularidade estatística de um plano.
E onde o pensamento de Casaleggio salta do descritivo para o preditivo, a fonte que ele mesmo declara não é ciência. É ficção científica. Em Cernobbio, falando das máquinas de previsão pela internet, ele associa a coisa à psicostoria de Isaac Asimov: «Le “Internet prediction machine” possono essere associate al concetto della “psicostoria”, citato da Isaac Asimov nella Fondazione più di 60 anni fa.» E descreve a mudança que espera: de «io ti dico che cosa intendo fare», o que hoje se faz por pesquisa de opinião, para «le mie azioni ti dicono che cosa farò anche se non te lo dico» — o comportamento revelando a intenção não declarada.
Restam os dois vídeos, que são a peça de doutrina mais primária que existe: estão publicados na íntegra, em texto, no site da própria empresa, e ele assumiu os dois em primeira pessoa na entrevista de 2013. Gaia — The future of Politics, de 2008, abre com a frase que é o núcleo ideológico de tudo: «Prima della Rete comunicazione, conoscenza e organizzazione appartengono al potere. Con la Rete appartengono al popolo.» Antes da rede, comunicação, conhecimento e organização pertencem ao poder; com a rede, ao povo. Em seguida vem um parágrafo que descreve o mundo do início do século XXI como determinado por «gruppi massonici, religiosi e finanziari» e nomeia o Grupo Bilderberg, cento e trinta entre as pessoas mais influentes do planeta reunidas em segredo todos os anos — num vídeo institucional de uma consultoria de estratégia digital, e no ar em 2026. O roteiro chega, em 2054, à primeira eleição mundial em rede, com um governo global chamado Gaia, e fecha: «In Gaia partiti, politica, ideologie, religioni, scompaiono. Il sapere collettivo è la nuova politica.»
Guarde uma coisa desse roteiro, porque o último movimento deste ensaio vai precisar dela. Em Gaia não há constituição, não há deliberação, não há desenho institucional, não há regra de decisão. Há uma eleição mundial e o desaparecimento da política. A única instituição que sobrevive é uma plataforma privada de identidade — a Earthlink, uma rede social mundial criada pelo Google, sobre a qual o roteiro diz: «Per esistere devi stare in Earthlink o non esisti.»
O outro vídeo, Prometeus — La Rivoluzione dei media, é de junho de 2007 e cabe em duas frases. Começa com desintermediação: a publicidade migra para a rede, jornais e televisões desaparecem, o copyright é declarado ilegal. E termina com uma única empresa comprando todas as outras, dona do maior mercado do planeta. O arco de Prometeus é a história de um monopólio, e foi escrito pela mão dele, em 2007.
Desintermediação pregada, reintermediação construída
O lado desintermediador da doutrina está documentado em primeira pessoa, com data, e não precisa de intérprete. A definição é dele, e é de Cernobbio: «Disintermediazione, eliminazione di qualunque struttura intermedia che non abbia alcun valore aggiunto» — eliminação de qualquer estrutura intermediária que não agregue valor. O prognóstico é da entrevista de 2013: as organizações políticas e sociais atuais serão desestruturadas, algumas desaparecerão, e «La democrazia rappresentativa, per delega, perderà significato» — a democracia representativa, por delegação, perderá sentido. O eleito muda de natureza: «gli eletti devono comportarsi da portavoce», devem comportar-se como porta-vozes, e cada colégio eleitoral deveria poder derrubá-los a qualquer momento por referendo local; mais adiante, sem meio-termo, «Il parlamentare o il presidente del Consiglio è un dipendente dei cittadini» — o parlamentar ou o primeiro-ministro é um empregado dos cidadãos. Em Cernobbio a mesma ideia vira função: «Il politico diventa esecutore della volontà dei cittadini e del programma.»
Duas frases célebres desse repertório precisam ser devolvidas a quem as escreveu: a imagem do eleito como “terminal” é paráfrase de Natale e Ballatore, que põem só a palavra entre aspas e não dão página, e a fórmula segundo a qual o conceito de líder na web seria uma “blasfêmia” existe apenas em inglês, no mesmo estudo. As primárias dizem melhor: «il concetto di leadership è estraneo alla democrazia diretta» — o conceito de liderança é estranho à democracia direta — e, a Gianni Barbacetto, do Il Fatto Quotidiano, em 12 de setembro de 2015: «Il leader del M5S è il M5S stesso.»
O programa institucional aparece nu na mesma entrevista de 2013, e é uma lista: referendo propositivo sem quórum, discussão parlamentar obrigatória das leis de iniciativa popular, abolição do voto secreto, introdução do vínculo de mandato — e, diz ele, é preciso rever a arquitetura constitucional no seu conjunto em função da democracia direta. A pergunta que dá o tom de tudo está em Cernobbio, e é retórica: «Bisogna iniziare a chiedersi: “l’eletto è migliore degli elettori?” “Può prendere una decisione contro la volontà di mille, 10 mila, 100 mila elettori informati?“»
Falta a frase-manifesto, e ela vem com uma cauda que a tradução inglesa amputou. Na capa de Siamo in guerra, a Chiarelettere estampa, atribuída a Casaleggio:
«OGNUNO VALE UNO MA L’UMANITÀ INTERCONNESSA HA UN VALORE CHE TENDE ALL’INFINITO.»
Cada um vale um, mas a humanidade interconectada tem um valor que tende ao infinito. Em inglês o slogan viajou como “one is worth one”, e o M5S o encurtou ainda mais, para uno vale uno. O slogan não é igualitário: é uma proposição sobre agregação — o indivíduo vale um, o coletivo em rede vale infinito. É uma tese sobre a insignificância relativa do indivíduo diante do agregado, e é muito mais rousseauniana do que a versão curta deixa ver. Guarde também esta.
Vale registrar que a doutrina endureceu com o tempo. Em Web ergo sum, de 2004, nas páginas 23 a 25 — citação que chega aqui por Pietro Villaschi, constitucionalista italiano que estudou a plataforma em 2020 —, a democracia direta é descrita como «un’evoluzione del sistema democratico più che un suo superamento», uma evolução do sistema democrático mais do que a sua superação. As posições de 2003 e 2004 não sobrevivem inteiras à passagem do movimento pelo poder.
Agora o outro lado, e ele não se estabelece por impressão: estabelece-se por posse e por contrato. A plataforma que o movimento usaria para decidir foi doada em 2016 pela Casaleggio Associati à Associazione Rousseau, que passou a possuí-la. Cada parlamentar eleito pelo M5S ficou obrigado a pagar 300 euros por mês à associação — obrigação inscrita no regulamento de candidaturas e reforçada pelo Estatuto de fins de 2017, que nomeia a plataforma por extenso: «Gli strumenti informatici attraverso i quali l’associazione si propone di organizzare le modalità telematiche di consultazione dei propri iscritti […] saranno quelli di cui alla cd. “Piattaforma Rousseau”.» Com 338 parlamentares, são 101.400 euros por mês, cerca de 1,2 milhão por ano, algo como 6 milhões numa legislatura. A convocação de cada consulta é discricionariedade do capo politico, pelo artigo 4 do Estatuto do M5S, com aviso prévio de 24 horas e duração mínima de oito. A certificação ficava a cargo de um notário; a apuração técnica, dentro da infraestrutura da própria associação.
O mais interessante é que ele enxergava esse mecanismo com nitidez total — quando o mecanismo era dos outros. Ainda em 2013, à mesma jornalista, sobre o risco de concentração de dados:
«Il rischio è reale. Facebook e Google e altri colossi del web conoscono di noi più dei nostri amici […]. I dati personali, a mio avviso, appartengono alla persona, non alla piattaforma che li usa […] e dovrebbero essere sempre esterni alle applicazioni di Rete.»
Os dados pessoais pertencem à pessoa, não à plataforma que os usa. Ele via a reintermediação com nitidez total quando ela era do Google. A cegueira, portanto, não é cognitiva. É seletiva.
E a topologia que ele próprio descreve tem centro. No mesmo discurso de Cernobbio em que prega a eliminação das estruturas intermediárias, ele descreve a transformação das organizações «da piramidali […] a organizzazioni a stella» — de piramidais a organizações em estrela. Organização em estrela é hub-and-spoke: um centro e raios. É literalmente a topologia com centro. Ele descreve a reintermediação e a chama de emancipação, no mesmo parágrafo em que prega a desintermediação.
Isso não é defeito pessoal, e o ensaio não ganharia nada em tratá-lo como tal. Evgeny Morozov, citado por Natale e Ballatore em inglês, diz da família ideológica inteira que “the new intermediating structures are often as centralized as the old ones”, tão centralizadas quanto as velhas, e que os ciberutópicos ignoram os novos intermediários, “including themselves and their blog”. É traço de família. E há nome para o fenômeno: não desintermediação, mas reintermediação — parte do que os corpos intermediários faziam migra para infraestruturas de plataforma, com ganho de escala e perda de legibilidade pública.
Até aqui, o que este ensaio expôs foi uma doutrina: alguém que acredita que a rede dissolve a mediação e diz isso em livros, vídeos, entrevista e conferência, com uma contradição visível de longe entre o que prega e o que constrói.
A partir daqui é outra coisa, e a virada é fornecida por ele mesmo. Ainda em 2013, na entrevista de Danna, perguntado sobre o que a rede tornava possível:
«La Rete rende possibili due estremi: la democrazia diretta con la partecipazione collettiva e l’accesso a un’informazione non mediata, oppure una neo-dittatura orwelliana in cui si crede di conoscere la verità e di essere liberi, mentre si ubbidisce inconsapevolmente a regole dettate da un’organizzazione superiore. Può essere che si affermino entrambi.»
A rede torna possíveis dois extremos: a democracia direta, com participação coletiva e informação não mediada; ou uma neoditadura orwelliana em que se acredita conhecer a verdade e ser livre, enquanto se obedece sem saber a regras ditadas por uma organização superior. E pode ser, acrescenta ele, que os dois se afirmem ao mesmo tempo.
Ele descreveu o mecanismo em 2013, assinado, em público, como o destino sombrio da rede. O resto deste ensaio é o leitor reconhecendo essa descrição no objeto que o próprio autor construiu.
Só depois disso entra Nicola Biondo, e ele entra declarado. Biondo é jornalista; dirigiu a assessoria de imprensa do grupo parlamentar do M5S na Câmara dos Deputados de abril de 2013 a julho de 2014 — estava no cargo e no epicentro no dia dos fatos que narra —, depois rompeu com o movimento e virou crítico sistemático. O interesse declarado dele é grande e é público. A frase que atribui a Casaleggio está em Supernova, livro escrito com Marco Canestrari, publicado pela StreetLib em 2017 e reescrito para a Ponte alle Grazie em 2018. A página não foi localizada; as duas edições têm paginação diferente. E há um fato irremediável: Gianroberto Casaleggio morreu em abril de 2016, e a frase foi publicada dezoito meses depois, quando o único homem que poderia desmenti-la já não podia.
O contexto é 31 de janeiro de 2014. O blog de Grillo publica um post intitulado «Cosa succederebbe se ti trovassi la Boldrini in macchina?», com um vídeo feito por um ativista do movimento em que um motorista aparece com uma passageira com o rosto de Laura Boldrini, então presidente da Câmara dos Deputados. Vieram dezenas de milhares de comentários e uma onda de insultos sexistas e ameaçadores; o vídeo foi retirado e os piores comentários, apagados. A acusação de Biondo é que a remoção foi deliberadamente retardada. E é nesse contexto que, segundo ele, ouviu:
«Nicola, noi dobbiamo imparare a canalizzare il sentiment della Rete e usarlo. Oggi abbiamo sbagliato ma il risultato che ne è venuto fuori ci dice che la Rete è dalla nostra parte. È la Rete che decide la reputazione delle persone. Per il futuro dobbiamo essere in grado di canalizzare questo sentiment senza apparire direttamente, governandolo.»
Precisamos aprender a canalizar o sentimento da rede e usá-lo; hoje erramos, mas o resultado diz que a rede está do nosso lado; é a rede que decide a reputação das pessoas; no futuro precisamos canalizar esse sentimento sem aparecer diretamente, governando-o. É fonte única. Nunca foi formalmente desmentida e nunca foi processada — houve ameaça de ação judicial às vésperas do lançamento do livro, e nenhuma ação foi movida. Não é prova. O que se pode dizer com honestidade é que a frase não é estilisticamente estranha ao personagem: em 2013 aquilo era o pesadelo; em 2014, segundo Biondo, era o método.
Fica uma coisa por provar. Que a doutrina funcionou assim quando virou máquina.
A plataforma Rousseau
Gianroberto Casaleggio anunciou a plataforma pelo nome em abril de 2015, numa entrevista de página inteira ao Il Fatto Quotidiano, e fundou a associação homônima quatro dias antes de morrer. Por que Rousseau, ele nunca explicou por escrito — a explicação corrente, de que Rousseau era para ele “um dos pais da democracia direta”, é de quem o cercava e da imprensa que cobriu o lançamento, e ninguém jamais a contestou.
A cronologia é curta e importa toda. No fim de outubro de 2013 já roda uma versão alfa de um sistema operativo online, com voto e discussão de leis. Por volta de 9 de abril de 2015 vem o anúncio público, com o nome; em julho Grillo fala no blog da primeira versão beta do sistema operativo Rousseau, e em 4 de agosto o Il Foglio já escreve sobre “Rousseau, il sistema operativo M5s”. Em 12 de setembro de 2015, Casaleggio dá a Gianni Barbacetto a entrevista mais longa que existe sobre a coisa, e a primeira pergunta é “A che punto è Rousseau?“. Ele responde: «Rousseau è il sistema operativo del MoVimento 5 Stelle. La Rete ha reso obsoleti e diseconomici i partiti» — a rede tornou os partidos obsoletos e antieconômicos. Em 8 de abril de 2016 funda-se em Milão a Associazione Rousseau, com dois sócios, Gianroberto e Davide Casaleggio. Em 12 de abril Gianroberto morre. Em 13 de abril a plataforma vai ao ar. O que é póstumo é o lançamento, não o batismo.
E, quanto à razão do nome, a busca foi feita de propósito e voltou vazia. A entrevista de setembro de 2015 descreve a plataforma função por função e nunca menciona o filósofo; a página de transparência da associação não o menciona; o estatuto define a finalidade — promover a democracia digital e assistir o Movimento 5 Estrelas — sem uma linha sobre Rousseau. A explicação que todo mundo repete aparece em terceira pessoa, por exemplo no Formiche.net de 27 de abril de 2016: «Nella visione di Casaleggio, Jean-Jacques Rousseau è il padre della democrazia diretta. Ecco perché il fondatore del Movimento ha chiamato così il suo sistema operativo.» O Il Sole 24 Ore diz o mesmo, com as aspas cercando só o sintagma “uno dei padri della democrazia diretta”, não uma frase dele. É prova de escolha, não prova de razão.
Vamos à escala, que é onde os números fazem o trabalho. Em setembro de 2015 havia cerca de 124 mil inscritos aptos a usar a plataforma. Em setembro de 2019, 117 mil com direito a voto — direito que o Estatuto do M5S nega a quem esteja inscrito há menos de seis meses: «Non possono prendere parte alle consultazioni gli iscritti da meno di 6 mesi.» Em fevereiro de 2021, 188.431 inscritos, dos quais cerca de 119.600 com direito a voto. Ponha isso contra os votos que o partido recebeu na eleição de 2018: cerca de 11 milhões. A base habilitada a decidir equivalia a algo em torno de 1% do eleitorado do próprio partido. Não havia quórum. O comparecimento médio caiu de cerca de 60% dos registrados, em dezembro de 2012, para cerca de 30% por consulta. E entre dezembro de 2012 e 2019 foram 232 votações — uma a cada vinte dias, em média.
Sobre a qualidade técnica do instrumento, quem se pronunciou foi o Estado italiano. O Garante per la protezione dei dati personali, a autoridade de proteção de dados, publicou em 4 de abril de 2019 um provvedimento — documento web 9101974 — que multou em 50 mil euros a Associazione Rousseau e a Associazione MoVimento 5 Stelle, depois de inspeção feita em novembro de 2018. A frase central é esta:
«la piattaforma Rousseau non gode delle proprietà richieste a un sistema di e-voting»
A plataforma Rousseau não tem as propriedades exigidas de um sistema de voto eletrônico. O documento acrescenta que ela «non appare in grado […] né di prevenire gli eventuali abusi commessi da addetti interni», e que os resultados ficavam expostos «per un’ampia finestra temporale che si estende dall’istante di apertura delle urne fino alla successiva c.d. “certificazione”» — uma janela entre a abertura das urnas e a certificação. Entre os achados: credenciais de administrador compartilhadas entre várias pessoas, o que impossibilitava atribuir ações a indivíduos, e ausência total de registro de acessos ao banco de dados por uma das interfaces, o que impedia verificar depois o que os administradores tinham feito com os dados de votação. Não era a primeira sanção: em março de 2018 já havia multa de 32 mil euros por «obsolescenza tecnica».
Das 232 votações, três bastam.
Em 18 de maio de 2018, a base ratificou o contrato de governo com a Lega: 44.796 votantes, 42.274 favoráveis, 94,3%, em cerca de dez horas.
Em 18 de fevereiro de 2019 veio a mais reveladora, sobre autorizar ou não o processo criminal contra Matteo Salvini, ministro do Interior, pelo caso do navio Diciotti, retido no mar com migrantes a bordo. O quesito, na transcrição de Villaschi:
«Il ritardo dello sbarco della nave Diciotti, per redistribuire i migranti nei vari paesi europei, è avvenuto per la tutela di un interesse dello Stato? – Sì, […] quindi deve essere negata l’autorizzazione a procedere; – No, […] quindi deve essere approvata l’autorizzazione a procedere»
Votar “sim” significava negar a autorização para processar. Votaram 52.417 pessoas; 30.948 delas, 59,05%, marcaram “Sì”. A pergunta foi reformulada durante a manhã, com a votação já em curso, “para torná-la mais compreensível na forma, embora inalterada na substância”. Grillo comentou o próprio quesito no Twitter: «Se voti Sì significa No, se voti No significa Sì.» Villaschi, na Rivista AIC, qualifica-o de «ambiguo».
Em 11 de fevereiro de 2021, a base decidiu sobre apoiar o governo de Mario Draghi. Aptos: 119.544; votantes: 74.537; sim: 44.177, 59,3%. Treze parlamentares do M5S denunciaram o quesito por escrito, dizendo que fora formulado «in maniera suggestiva e manipolatoria» e que a votação era «tendenziosa e palesemente volta a inibire il voto contrario» — destinada a inibir o voto contrário. E Davide Casaleggio esclareceu publicamente quem havia redigido a pergunta: Vito Crimi, então capo politico interino do movimento. Quem escreve a pergunta é a direção do partido. A plataforma só conta.
Mas a palavra que descreve a arquitetura inteira está numa votação anterior, e está no blog oficial do movimento. Em 26 de fevereiro de 2014, sobre os senadores Battista, Bocchino, Campanella e Orellana, a chamada oficial dizia:
«Votazione per ratificare la delibera di espulsione dei senatori […] dal Movimento 5 Stelle.»
Votação para ratificar a deliberação de expulsão. Compareceram 43.368; 68,9% aprovaram. A base não decide a expulsão. Ratifica a deliberação já tomada pela assembleia dos parlamentares. O verbo é da fonte, não do ensaísta.
A leitura acadêmica disso está feita, e não é deste ensaio. Marco Deseriis, pesquisador de mídia, publicou em 2017 no JeDEM o artigo que cunha a expressão “direct parliamentarianism” e conclui que a plataforma deixa o momento deliberativo nas mãos dos eleitos e da direção, “leaving to the party base the task of choosing between options that have been defined elsewhere” — escolher entre opções definidas noutro lugar. Villaschi, pelo lado constitucionalista e por outro caminho, chega ao mesmo: registra a «quasi totale assenza di regole predeterminate di carattere procedurale», observa que a plataforma «riduce al minimo la discussione e il confronto dialettico» e conclui que práticas assim tendem a deformar-se em eterodirezione “dall’alto”, direção vinda de cima, mais do que em participação vinda de baixo. Cite-se e siga-se: este ensaio não redescobre nada aí.
Falta o epílogo, e ele é curto. Em 8 de abril de 2021 a Associazione Rousseau deu ultimato ao movimento: pagar os 450 mil euros atrasados até o dia 22, ou “faremo un percorso diverso”. Vito Crimi instruiu os parlamentares a parar de pagar os 300 euros mensais. Em 23 de abril a associação anunciou a separação. Giuseppe Conte, que assumia a reorganização do partido, exigiu a lista de inscritos. A associação recusou. Em 1º de junho de 2021 o Garante decidiu a favor do M5S — documento web 9592011 — registrando que a associação «ha confermato […] di detenere i dati personali degli iscritti al Movimento 5 Stelle» e ordenando a entrega de todos eles em «5 (cinque) giorni». Em 5 de junho Davide Casaleggio deixou o movimento.
As duas frases que os dois lados publicaram no mesmo dia valem mais que a briga. A associação escreveu que Rousseau era «nato molto prima del Movimento stesso» — nascido muito antes do próprio movimento — e que, mesmo sem o nome, «era ed è stato, negli anni, il metodo che ha guidato tutto il percorso». O movimento respondeu que a democracia direta «non dipende dal singolo strumento utilizzato», e que a escolha da associação de fazer política ativa era «incompatibile con una gestione “neutrale” degli strumenti». Nenhum dos dois lados sustenta que o instrumento seja neutro — e a doutrina depende de que seja.
E fica um fato, dito sem adjetivo. O cadastro dos filiados — a matéria-prima da vontade da base, o único lugar onde ela existia — estava na posse física de uma associação privada, e só saiu de lá por ordem de uma autoridade estatal. A desintermediação precisou do Estado para se libertar do desintermediador.
O formigueiro, e de quem ele é
Sobrou um instrumento que se declarou anterior ao partido e sobreviveu a ele. Falta ver onde ele foi teorizado, e por quem.
O livro chama-se Tu sei rete. La rivoluzione del business, del marketing e della politica attraverso le reti sociali. O autor é Davide Casaleggio, o filho, formado em economia aziendale pela Bocconi. A primeira edição, impressa, é de 2009, pela Casaleggio Associati, com prefácio de Alessandro Bergonzoni, ator e comediante. A edição em livro eletrônico, publicada pelo beppegrillo.it em outubro de 2013, é a que Jacopo Iacoboni cita — e é por isso que a data de 2013 se repete em toda a cadeia jornalística posterior. A obra é de 2009, o mesmo ano em que o Movimento 5 Estrelas foi fundado, o que muda a leitura: o formigueiro não é racionalização retrospectiva do movimento, é anterior ou contemporâneo a ele. Não há paginação disponível para nenhuma das citações que se seguem, que chegam aqui pelo Formiche.net de 12 de abril de 2016, reproduzindo o livro com aspas fechadas.
O trecho conhecido é sobre auto-organização: «I formicai rappresentano il miglior esempio di auto-organizzazione», os formigueiros são o melhor exemplo de auto-organização, e a estrutura que deles emerge é «molto organizzata, ma non centralizzata». O trecho que interessa vem em seguida, e é uma tese sobre opacidade deliberada:
«Le singole parti […] non rivelano da sole il disegno complessivo. È necessario che i componenti siano in numero elevato, che si incontrino casualmente e non abbiano consapevolezza delle caratteristiche del sistema nel suo complesso. Una formica non deve sapere come funziona il formicaio, altrimenti, tutte le formiche ambirebbero a ricoprire i ruoli migliori e meno faticosi, creando un problema di coordinamento.»
Uma formiga não deve saber como funciona o formigueiro; se soubesse, todas ambicionariam os papéis melhores e menos cansativos, e haveria um problema de coordenação. É dito pelo autor, em nome próprio, num livro publicado.
E há o objetivo definido de fora. Ainda no mesmo livro: a teoria das redes permite identificar as estruturas informais das organizações, prever a evolução delas e também «progettarle in funzione di nuovi obiettivi» — projetá-las em função de novos objetivos.
Vale notar, de passagem, que o filho contradiz o slogan do pai. Sobre os nós da rede, escreve que «non sono tutti uguali: ci sono alcuni che hanno più valore degli altri» — não são todos iguais — e que «chi vuole essere al centro, deve mettersi in relazione con chi lo è già», quem quer estar no centro deve relacionar-se com quem já está. Isso, no mesmo sobrenome que estampou ognuno vale uno na capa de um livro.
Agora a parte que faz o movimento. Emergence: The Connected Lives of Ants, Brains, Cities, and Software, de Steven Johnson, publicado em 2001, é o primeiro título da lista de leituras que Gianroberto Casaleggio declarou em 2013. É, literalmente, o livro das formigas. E a definição que Johnson dá de emergência é esta: componentes relativamente simples, aos milhares ou milhões, interagem de maneiras relativamente simples e disso emerge uma estrutura de nível superior — “usually without any master planner calling the shots”, em geral sem nenhum planejador-mestre dando as ordens. (Ressalva devida: o livro de Johnson não foi lido na íntegra aqui.)
Johnson insiste que a emergência funciona porque não há um planejador. O formigueiro de Tu sei rete adota a imagem e acrescenta exatamente as duas coisas que ela exclui: o objetivo definido de fora e a opacidade obrigatória do componente. Ele toma a metáfora do livro e inverte a moral do livro.
Falta devolver a segunda frase famosa a quem a escreveu. Circula, atribuída a Davide Casaleggio, a ideia de que o formigueiro pode ser orientado “verso qualunque direzione”, em qualquer direção. Ela sai do mesmo artigo de Manuela Perrone, no Il Sole 24 Ore de 9 de abril de 2018, que produziu a frase sobre controlar os nós. Vale reparar na pontuação:
«Qui Iacoboni cita “Tu sei rete […]”, scritto da Davide Casaleggio nel 2013, nella parte in cui individua nei formicai «il miglior esempio di auto-organizzazione», che si può però orientare definendo un obiettivo e un coordinamento. Verso qualunque direzione.»
As aspas angulares cercam apenas «il miglior esempio di auto-organizzazione». Tudo o que vem depois é prosa da jornalista glosando Iacoboni, que por sua vez glosa Davide Casaleggio. São dois graus de afastamento, e a data do livro está errada na mesma linha.
Duas das frases mais citadas do dossiê Casaleggio saem do mesmo artigo de 2018, e nenhuma das duas é dele.
O que veio depois cabe numa frase: a Associazione Gianroberto Casaleggio e o encontro anual SUM realizam-se nas Officine H de Ivrea, na antiga Olivetti; e a sucessora comercial da plataforma, a Camelot, é uma benefit corporation de Davide Casaleggio e Enrica Sabatini que vende votações digitais com valor legal para organizações. A mesma tecnologia que decidiu a política italiana virou um software de governança corporativa.
O leitor tem agora tudo: o vocabulário italiano, a doutrina declarada, a contradição, a máquina e a teoria da máquina. Falta uma coisa — de onde ele achava que aquilo vinha. E ele disse, uma vez, num palco em Cernobbio.
Rousseau e Jefferson
Ele leu quem falava de instituição
[Pedro: Barlow — se quiser]
Comece pelo lado documentado, que é o mais forte e o menos citado. Dos seis autores que Casaleggio nomeou como referência, dois escreveram sobre instituições — e os dois dizem o contrário do que ele fez.
Howard Rheingold publicou The Virtual Community em 1993, e é o autor que Richard Barbrook e Andy Cameron, no ensaio de 1995 que batizou a “ideologia californiana”, identificam como o jeffersoniano da ala esquerda do Vale: “Howard Rheingold on the New Left believes that the electronic agora will allow individuals to exercise the sort of media freedom advocated by the Founding Fathers.” O que Rheingold de fato escreve, porém, é uma defesa da mediação, não a sua dissolução. Para ele, “the idea of modern representative democracy as it was first conceived by Enlightenment philosophers included a recognition of a living web of citizen-to-citizen communications known as civil society or the public sphere” — a democracia representativa moderna, como a conceberam os filósofos iluministas, já supunha um tecido vivo de comunicação entre cidadãos. E a função que ele atribui à rede é informativa, não decisória: “if a government is to rule according to the consent of the governed, the effectiveness of that government is heavily influenced by how much the governed know about the issues that affect them.” O valor da rede está em fazer o consentimento ser real, não em substituir a mediação pelo clique. É a inversão exata da doutrina de Casaleggio, escrita vinte anos antes, por um autor que Casaleggio nomeia como referência.
O segundo é Lawrence Lessig, e aqui a tensão é a mais afiada do ensaio. Na lista de 2013 Casaleggio nomeia Free Culture, de 2004. Mas o livro decisivo do mesmo autor é anterior: Code and Other Laws of Cyberspace, de 1999, cuja tese cabe em três palavras — code is law. O código define possibilidades e restrições no ciberespaço como a lei as define no mundo físico; a ausência de regulação estatal não é ausência de regulação, é regulação escrita por engenheiros, com juízos de valor embutidos. Não escolher já é uma escolha. Casaleggio leu o autor que avisou que quem escreve o código escreve a lei — e escreveu o código. A plataforma Rousseau é Code aplicado sem a parte constitucional: arquitetura que governa, sem regra que constranja quem a desenhou. Lessig diagnostica; Casaleggio opera. (Lessig aparece, aliás, no roteiro de Prometeus, em 2007, virando ministro da Justiça dos Estados Unidos e declarando o copyright ilegal. E a ressalva: Code não foi lido na íntegra aqui; trabalhou-se com o ensaio-síntese “Code Is Law”, de 2000.)
Negroponte, o terceiro nome documentado, não oferece contraste porque não oferece teoria de governo nenhuma: é solvente de hierarquia, e só.
Dois outros autores pertencem à mesma família ideológica e entram aqui declaradamente como pano de fundo, não como fonte, porque não existe vetor documentado entre eles e Casaleggio. John Perry Barlow publicou em Davos, em 8 de fevereiro de 1996, a A Declaration of the Independence of Cyberspace, texto fundador do gênero, que reivindica Jefferson pelo nome — o ciberespaço, diz ela, é violado por leis que repudiam a própria Constituição americana e insultam os sonhos “of Jefferson, Washington, mill, Madison, DeToqueville, and Brandeis”. Duas frases antes do fim do segundo parágrafo, porém, está isto: “We have no elected government, nor are we likely to have one, so I address you with no greater authority than that with which liberty itself always speaks.” Não temos governo eleito, nem é provável que venhamos a ter.
O rótulo jeffersoniano colado em Barlow foi desmontado pela crítica acadêmica, e as conclusões abaixo são dela, não deste ensaio. Aimée Hope Morrison, em New Media & Society, argumenta que o texto é cego “to the American revolutionary politics on which it claims to base itself” e que nele “liberal democracy becomes libertarianism”. Daniel Kreiss observa que a governança que Barlow promete é “a vision of direct democracy” — democracia direta, não constitucionalismo — e que “there is a myth of independence that courses through the Declaration”. Barbrook e Cameron já haviam registrado que “Thomas Jefferson” é “the chief icon of the Californian Ideology”, e lembrado o que a iconografia esquece: “in ‘Jeffersonian democracy’, freedom for white folks was based upon slavery for black people.”
Kevin Kelly entra em uma frase e com a ressalva que o separa de Casaleggio. Em Out of Control, de 1994, a mente-colmeia é celebrada como “the true nature of democracy and of all distributed governance”; mas o mesmo livro adverte que “no distributed system can survive long without nested hierarchies of lateral ‘bottom-up’ control” — nenhum sistema distribuído sobrevive sem hierarquias aninhadas de controle vindo de baixo.
E cabe dizer, porque dito assim fica mais forte e não mais fraco, que não existe vetor documentado Barlow/EFF ↔ Casaleggio, em quatro rodadas de busca nas duas línguas: nem os Casaleggio, nem a Associati, nem o SUM citam Barlow, a EFF ou a Declaration; nem Barlow, a EFF, a Wired ou o Media Lab mencionam Casaleggio, Grillo ou o movimento. São três estatutos diferentes, e o ensaio os trata como três: linhagem documentada com Rheingold, Lessig, Johnson e Negroponte; convocação explícita de Rousseau e de Jefferson, por ele mesmo, em Cernobbio; convergência estrutural sem linhagem com Barlow e Kelly.
Ele leu quem falava de emergência, e inverteu a moral
Volte por um instante ao formigueiro, sem repetir o material. Johnson diz que a ordem emerge porque ninguém a planeja; o livro do filho diz que a rede pode ser projetada em função de novos objetivos e que a formiga não deve saber como o formigueiro funciona. A moral foi virada do avesso.
Agora ponha ao lado a descrição que o vault faz do próprio rousseau, escrita sem nenhuma referência a Casaleggio, à internet ou ao movimento:
Rousseau “wants the people to be authors of law (no representation), yet he also opens conceptual space for elites (legislator, institutional designers) to shape the conditions under which ‘what the people wills’ can be known.”
Rousseau quer o povo autor da lei, sem representação — e ao mesmo tempo abre espaço conceitual para que elites, o legislador e os desenhistas de instituições, moldem as condições sob as quais aquilo que o povo quer pode ser conhecido.
É a mesma estrutura, três vezes. É o formigueiro, com o objetivo definido de fora e a opacidade obrigatória do componente. É a plataforma, na formulação de Deseriis: escolher entre opções que foram definidas noutro lugar. E é a frase que Biondo atribui a Casaleggio: canalizar o sentimento da rede senza apparire direttamente, governandolo. Se este ensaio tem um único parágrafo para provar a sua tese, é este.
Cernobbio desmontado, e por que a Itália
Volte agora ao parágrafo da primeira página e abra-o, cláusula por cláusula.
A primeira coisa a dizer é que a “citação” de Rousseau não é uma citação. É uma compressão de três passagens distintas do Livro III, capítulo 15, do Contrato Social — a crítica da representação, a nulidade da lei não ratificada, a degeneração dos representantes em oligarquia — coladas numa frase só. E traz um acréscimo que não é vocabulário de Rousseau: os cidadãos que se tornam «sempre più alienati». Alienação, nesse sentido, é vocabulário do século XX. Ponha ao lado o original, que o próprio vault registra em tradução consagrada — “every law the people has not ratified in person is null and void” —, e a distância fica visível: é exatamente a segunda cláusula da frase comprimida, e é a única das três que sobreviveu ao processo com a forma intacta. Isto não é leitura do livro. É uma frase de coletânea de citações.
A segunda é que a citação de Jefferson é real pela metade. “The will of the people is the only legitimate foundation of any government” circula a partir de uma carta aos Republicanos do condado de Washington, em Maryland, de 31 de março de 1809, cujo fac-símile está na Library of Congress. A segunda metade — o governo popular ineficiente preferível ao melhor governo autocrático — não teve fonte localizada por esta apuração.
E agora o que se perde, que é o parágrafo pelo qual este ensaio existe.
De Jefferson, Casaleggio guarda a única frase que soa rousseauniana: a vontade popular como fonte legítima de qualquer governo. E descarta tudo o que fez de Jefferson um desenhista de instituições — a representação, a separação de poderes, a constituição escrita, os freios recíprocos, as ward republics, aquelas repúblicas de bairro que ele imaginava como base de uma pirâmide de assembleias. Descarta, com isso, a tradição inteira que dá a Jefferson o seu conteúdo institucional: locke, que funda a autoridade no consentimento e é estruturalmente amigo da representação e do governo limitado; montesquieu, para quem não há liberdade se o poder de julgar não estiver separado do de legislar e do de executar. Jefferson diz que a vontade popular é o fundamento do governo. Não diz que ela deva exercer-se sem mediação. Jefferson diz “fundamento”; Casaleggio lê “exercício direto”. É aí que Jefferson vira Rousseau — no ouvido de quem lê, não no texto.
O que não se pode dizer é que ele quisesse a ausência de instituições. No mesmo discurso de Cernobbio, Casaleggio elogia nominalmente o recall americano — «nel 2011 ci sono stati 151 recall election», em dezenove estados —, o referendo propositivo e a lei de iniciativa popular, citando Canadá, Suíça, Venezuela e Estados Unidos. Ele queria instituições. Queria instituições que decidissem, e não queria as que autorizam: a representação, a deliberação, a discussão que precede o voto, a regra que constrange quem redige a pergunta. Ele quis instituições de decisão sem instituições de autoria.
Por que na Itália, e não na Califórnia? Porque o vocabulário que torna essa leitura natural na Itália não veio do Vale do Silício. Veio de 1944, de um dramaturgo que vendia 850 mil exemplares de um semanário com “Abbasso tutti” no cabeçalho, e da doutrina segundo a qual não se precisa de políticos, precisa-se de administradores. Meio século depois, o antiparlamentarismo já era uma língua com gramática pronta, e a rede chegou como o instrumento que faltava. Numa morfologia à maneira de Michael Freeden — o teórico político que descreve ideologias por núcleo, adjacências e periferia —, a periferia é partilhada com os californianos: a rede emancipa. O núcleo diverge: fundar mediação de um lado, dissolvê-la do outro.
Duas honestidades fecham o argumento, e as duas o melhoram.
A primeira é que a literatura já leu o Movimento 5 Estrelas por Rousseau, e há muito tempo. Deseriis chamou a coisa de parlamentarismo direto em 2017; Paolo Gerbaudo cunhou “partido-plataforma”; Nadia Urbinati argumenta que o voto sozinho não é diretude; Paolo Ceri e Francesca Veltri são os mais duros, ao dizer que não se trata de democracia direta e sim de democracia dirigida de cima. A crítica jornalística italiana bate no ponto desde 2016 — a partir do nome da plataforma, não do discurso de Cernobbio — e o argumento recorrente é preciso: Casaleggio confunde delegado com representante. O representante age sem vínculo de mandato; o delegado está preso a instruções. Rousseau ataca o representante; o que a plataforma oferece é uma versão degradada do delegado. Este ensaio herda esse diagnóstico; não o descobre. O que é dele é o cruzamento com as leituras declaradas e, sobretudo, a justaposição Rousseau + Jefferson naquele parágrafo de 2013 — que nenhum comentarista italiano notou, porque todos miram só em Rousseau e todos miram depois de 2016.
A segunda é a objeção mais forte que se pode fazer a tudo isto: não seria doutrina, seria apenas o que acontece quando o ciberutopismo encosta em poder real. Na versão forte, a objeção cai por dois testes. Barlow encostou em poder e endureceu para o lado oposto: fundou a Electronic Frontier Foundation em 1990 — uma instituição, com personalidade jurídica, advogados e litígio estratégico — e, na entrevista à Reason em 2004, sob a manchete que o chamava de “the Thomas Jefferson of Cyberspace”, disse que “the one thing that I know government is good for is countervailing against monopoly”, que a única coisa para a qual o governo serve é contrabalançar o monopólio. [lacuna: conferir esta citação da Reason na fonte antes de publicar] E há grupo de controle: o Partido Pirata alemão, que Casaleggio nomeou ele mesmo em Cernobbio como parte da mesma linhagem — ao lado de Seattle 1999, de Howard Dean, de Obama, dos piratas suecos, de Assange, do Occupy —, construiu o LiquidFeedback, uma plataforma com deliberação, enquanto ele construía uma só de decisão. Deseriis, num estudo comparativo de 2020, mostra que os dois partidos partilham raízes antissistema e a mesma crença na capacidade da internet de ampliar o autogoverno dos cidadãos, e que apesar disso “the technopopulist orientation of both parties conceals radically different conceptions of political participation” — com as plataformas produzindo conflito interno entre os piratas e centralização crescente no M5S. Se o poder explicasse a divergência, os dois teriam convergido. Não convergiram.
Mas a versão fraca da objeção sobrevive, e o ensaio fica melhor com ela. Os californianos nunca tiveram de decidir nada. A Declaration é um texto sobre um espaço onde ninguém governava, e o consentimento que ela invoca jamais foi testado contra a necessidade de tomar uma decisão vinculante. Casaleggio teve de decidir, 232 vezes em sete anos. Não é doutrina posta em prática contra doutrina posta em prática: é doutrina não testada contra doutrina testada. A necessidade de decidir revelou a diferença de núcleo. Não a criou.
Resta o fecho, e ele é curto.
Cernobbio, 8 de setembro de 2013, foi uma ocorrência, não um refrão. O par Rousseau + Jefferson não foi encontrado em nenhum outro lugar do corpus dele. É a única vez em que ele disse em voz alta de onde achava que aquilo vinha — e é por ser única que a frase vale, porque não foi ensaiada para ninguém.
O que ele quis, e construiu, foram instituições de decisão sem instituições de autoria: um lugar onde 119 mil pessoas apertam um botão sobre uma pergunta redigida por outros, sem quórum, sem debate registrado, sem regra que diga quem decide o que se decide, e a isso se chamou democracia direta.
E a plataforma se chamava Rousseau. Que é exatamente o filósofo que quer o povo autor da lei — e acaba precisando de um legislador para desenhar as condições em que a vontade do povo pode ser conhecida.
Ver também
- rousseau — o Rousseau real, com verbatim: soberania que não se representa, a lei que o povo não ratificou em pessoa, e o espaço conceitual que ele abre para o legislador. É o instrumento que mede a distância entre o Rousseau de Casaleggio e o de Rousseau.
- locke e montesquieu — o conteúdo institucional que Jefferson tem e que a leitura de Cernobbio descarta: consentimento com representação, de um lado; liberdade por poderes separados, do outro.
- sociedade_rede — o quadro conceitual da reintermediação: as funções dos corpos intermediários migrando para infraestruturas de plataforma, com ganho de escala e perda de legibilidade pública.
- antiutopianliberalism — o chão liberal a partir do qual se pode julgar duas utopias de rede sem aderir a nenhuma: a tradição que redefine o liberalismo em torno de evitar o pior, e não de prometer o melhor.
- Ideólogos do Vale do Silício — o mapa dos autores da família californiana, para quem quiser seguir o outro lado da comparação.